sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Desenvolvimento Desigual e Capitalismo - Marquetti et al.

Desenvolvimento Desigual e Capitalismo - Marquetti et al.

SUMÁRIO:

Introdução: Transformações capitalistas e desenvolvimento desigual 1  

1 Medindo a mudança técnica, o alcance e a queda global 14  

2 Um modelo de crescimento na tradição clássico-marxista 36  

3 A economia dos EUA desde o fim da Era de Ouro até a crise do neoliberalismo 48  

4 Correndo rápido: O alcance na Ásia 62  

5 Da esperança à frustração: Atraso na América Latina 90  

6 Reiniciando o capitalismo na Europa Central e Oriental 106  

7 O continente esquecido: Atraso na África 126  

Conclusão: Lições mundiais para o alcance 147

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Algumas Notas para uma Análise da Acumulação - Pierangelo Garegnani

Garegnani, P. 1992. ‘Some Notes for an Analysis of Accumulation.’ In Beyond the Steady State, edited by J. Halevi, D. Laibman, and E. J. Nell. London: Palgrave Macmillan.

Pierangelo Garegnani - Algumas Notas para uma Análise da Acumulação*

* Este artigo resume partes de um trabalho mais extenso apresentado em uma conferência organizada pelo Centro de Estudos Econômicos Avançados em Udine, em agosto de 1982. Outros compromissos até agora me impediram de preparar o artigo mais longo para publicação, e fui lisonjeado ao pensar que o presente possa ser útil como está. Isso explica a quase completa ausência de referências tanto à literatura anterior quanto, acima de tudo, à literatura que surgiu sobre este tema na *Political Economy; Studies in the Surplus Approach* após 1982. Algumas das ideias neste artigo foram inicialmente apresentadas em um volume mimeografado de 1962 (Garegnani, 1962), sobre o papel da demanda agregada para o desenvolvimento econômico italiano. Na revisão do presente artigo, beneficiei-me de discussões com vários colegas e, em particular, com o Dr. Roberto Ciccone, da Universidade de Roma, o Professor Heinz Kurz, da Universidade de Graz, e o Professor Franklin Serrano, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O trabalho neste artigo foi facilitado por bolsas de pesquisa do *Consiglio Nazionale delle Ricerche* e pelo Ministério da Educação da Itália.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Momento Minsky - Piero Ferri

FERRI, Piero. Minsky's Moment: An Insider's View on the Economics of Hyman Minsky. Edward Elgar, 2019.

SUMÁRIO

1. Introdução
2. O momento Minsky e a economia de Minsky
3. Uma visão sinóptica da hipótese de instabilidade financeira
4. Uma visão interna
5. Preços, emprego e lucros
6. A ruptura da síntese IS–LM: implicações para a teoria econômica pós-keynesiana
7. Processos de mercado e sistemas de contenção
8. Micro e macro nos modelos de Minsky
9. As bases da dinâmica de médio prazo
10. Novas ferramentas para a dinâmica
11. Motivadores, adaptadores e restrições
12. Crescimento, mudança técnica e desemprego
13. Heterogeneidade no mercado de trabalho
14. A hipótese de instabilidade financeira, desigualdade e a Grande Recessão
15. Um meta-modelo da hipótese de instabilidade financeira
16. Considerações finais e desafios


INTRODUÇÃO

1. A HIPÓTESE DA INSTABILIDADE FINANCEIRA, UMA IDEIA SEMINAL

Segundo *The Economist* (23 de julho de 2016a), seis ideias econômicas seminais dominam a teoria econômica moderna. São elas:

1. O mercado de limões de Akerlof;
2. O ciclo financeiro de Minsky;
3. O teorema de Stolper–Samuelson;
4. O multiplicador keynesiano;
5. O equilíbrio de Nash;
6. O trilema de Mundell–Fleming.

Como em todas as listas de destaques, essa não é nem perene nem totalmente aceita pela comunidade econômica. No entanto, é importante destacar que a contribuição de Minsky, sobretudo após a Grande Recessão, dificilmente seria contestada.

Essas ideias seminais representam insights analíticos. Muitas vezes são contraintuitivas, por vezes irreverentes, mas certamente interessantes. A maioria de seus criadores foi agraciada com o Prêmio Nobel – todos, exceto Minsky e Keynes. Ainda assim, muitos tiveram dificuldade em publicar suas ideias em periódicos tradicionais (por exemplo, 1, 2 e 3). Os insights referem-se tanto a aspectos microeconômicos, como 1 e 5, quanto macroeconômicos, e abordam diferentes temas. A principal contribuição de Akerlof é a pedra fundamental da economia da informação, onde os agentes não supõem compartilhar o mesmo conjunto de informações. Esse princípio teve um impacto importante na teoria do mercado de trabalho, do crédito, da empresa e do mercado de seguros. O teorema de Stolper–Samuelson tentou desafiar Ricardo sobre o comércio internacional e lançou nova luz sobre a relação entre tarifas e salários. O multiplicador keynesiano abordou o paradoxo da poupança e o papel da política fiscal na economia. O equilíbrio de Nash trouxe à economia uma forma de fazer previsões reais baseadas em informações sobre os incentivos de cada pessoa. Por fim, Mundell–Fleming enfrentou o trilema representado pela taxa de câmbio fixa, autonomia monetária e livre fluxo de capitais, e descobriu sua incompatibilidade.

Somente 1, 4 e 5 têm relação com a hipótese de instabilidade financeira de Minsky, que é um pilar para a interpretação da Grande Recessão.

2. UMA ESTRELA PÓSTUMA

A economia, assim como ocorre em outras disciplinas, avança sob a pressão combinada de desenvolvimentos analíticos e metodológicos internos juntamente com o surgimento de novos fatos estilizados em busca de interpretação. No caso de Minsky, foi necessária a ocorrência da Grande Recessão para elevá-lo ao patamar dos economistas mais importantes. Trinta anos após seu famoso livro *Can “It” Happen Again?* (1982), onde “it” se refere à “Grande Depressão”, o evento realmente se repetiu na forma da “Grande Recessão”, também chamada de “A Crise Financeira Global” (ver Wray, 2016).

Como coloca *The Economist*:

"Desde o início de sua carreira acadêmica em 1950 até 1996, quando faleceu, Hyman Minsky trabalhou em relativa obscuridade. Sua pesquisa sobre crises financeiras e suas causas atraiu alguns admiradores dedicados, mas pouca atenção no mainstream... Assim permaneceu até 2007, quando a crise das hipotecas subprime eclodiu na América. De repente, parecia que todos estavam recorrendo aos seus escritos para tentar entender o caos. Corretores enviavam notas aos clientes sobre o “momento Minsky” que tomava os mercados financeiros... E ele se tornou uma estrela póstuma." (*The Economist*, 30 de julho de 2016b)

Nesse sentido, a era da Grande Recessão e seus desdobramentos podem ser rotulados como o momento de Minsky, quando seu trabalho finalmente se tornou amplamente conhecido tanto na academia quanto nos meios empresariais e financeiros.

3. MOMENTOS MINSKY

O “momento Minsky”, entretanto, significa algo mais substancial do que mera fama na mídia. Na verdade, hoje em dia ele é usado como um indicador de crises financeiras. Foi Paul McCulley, do grupo de gestão de fundos PIMCO, quem cunhou o termo “momento Minsky” para descrever a crise financeira russa de 1998, e, portanto, o termo existia muito antes da Grande Recessão. Ele representa a capacidade da hipótese de instabilidade financeira de Minsky de interpretar – e, em certo sentido, antecipar a possibilidade de – “grandes turbulências”, caracterizadas por níveis de endividamento que atingem o ponto de ruptura e por uma queda acentuada dos preços dos ativos.

Pode parecer redutor considerar as contribuições de Minsky como se fossem resumidas pelo chamado momento Minsky, em qualquer um dos dois significados atribuídos a esse termo. De fato, sua fama poderia correr o risco de imitar a da Grande Recessão: assim que a economia recuperasse seus níveis anteriores à crise, os momentos Minsky desapareceriam, assim como o autor.

No entanto, essa previsão é pessimista demais, pois não considera o domínio da financeirização da economia, administrada pelos chamados *money managers*. Isso representa uma nova característica estrutural da economia, que tende a perdurar, aumentando a probabilidade de novas turbulências serem geradas e, portanto, novos momentos Minsky ocorrerem. *The Economist* (2 de maio de 2018), por exemplo, escreve: "A gênese da próxima crise provavelmente está se escondendo na dívida corporativa. Os investidores estão recebendo menos retorno pelo mesmo nível de risco. Considere isso junto com a liquidez em declínio... e você tem a receita para a próxima crise."

Como se pode ver, os fundamentos são representados por retornos, risco e liquidez. Além disso, *The Economist* deixa claro quais ingredientes devem estar presentes para gerar uma crise financeira:

1. endividamento excessivo;
2. apostas concentradas;
3. descompasso entre ativos e passivos.

No entanto, falta um adjetivo de precaução: potencial. Na verdade, quando todos esses fatores estão presentes, há apenas a possibilidade de uma crise. Uma crise realmente ocorre apenas se ela conseguir superar as forças de contenção que tentam neutralizá-la.

Nessa perspectiva, a contribuição de Minsky assume uma relevância mais profunda. Torna-se urgente definir melhor os momentos Minsky e identificar suas relações com a economia de Minsky. Esta é a tarefa precisa do presente livro.

4. O OBJETIVO DO LIVRO

O objetivo deste livro é diferente daquele de Leijonhufvud (1968), que ao escrever sobre Keynes contrastou a economia keynesiana com a economia de Keynes. O hiato entre o que Keynes realmente escreveu e as interpretações subsequentes havia se tornado tão amplo que uma reexaminação crítica era necessária. A integridade da mensagem original estava em perigo e precisava ser restaurada.

No entanto, este livro sobre Minsky não implica que a vasta literatura existente sobre o chamado "momento Minsky" seja necessariamente uma deturpação de seu pensamento original; apenas ressalta a necessidade de inserir o que foi recentemente descoberto sobre a análise de Minsky durante a Grande Recessão em seu programa de pesquisa ao longo da vida, para obter uma visão mais completa tanto de sua perspectiva quanto de seu aparato analítico.

Nessa perspectiva, a tarefa não é simplesmente repropor as ideias originais de Minsky, mas verificar como elas são capazes de responder aos desafios decorrentes da evolução tanto da economia quanto da disciplina. Isso significa que o propósito profundo do livro é mais ampliar a perspectiva do debate do que desenvolver uma abordagem "destruens" em relação à literatura atual. Em particular, não pretende participar do debate sobre se Minsky teria sido conhecido muito mais cedo se não tivesse encapsulado sua análise de instabilidade financeira dentro de um quadro heterodoxo.

Essas questões, embora muito importantes e fascinantes, não serão diretamente abordadas neste livro. Sua ambição é, em vez disso, tentar apresentar a hipótese de instabilidade financeira como um caso particular de sua visão geral sobre a evolução de sistemas dinâmicos complexos. A tese apresentada é que a hipótese de instabilidade financeira pode ser melhor compreendida dentro de um arcabouço teórico marcado por três características fundamentais:

1. uma interdependência entre aspectos monetários e reais;

2. a presença de forças de mercado endogenamente desestabilizadoras contrabalançadas por dispositivos de contenção;

3. a existência de dinâmicas complexas onde essas forças opostas estimulam uma evolução do sistema econômico que está longe de ser um processo mecânico.

Essas características devem ser consideradas conjuntamente e analisadas em sua evolução ao longo do tempo para se obter uma visão satisfatória da economia de Minsky. No entanto, para enfrentar os desafios decorrentes tanto da presença de novos fatos estilizados quanto dos avanços da disciplina, é necessário entrar na "caixa-preta" de Minsky para aprofundar e ampliar sua análise.

5. BLOCOS DE CONSTRUÇÃO

Para perseguir esses objetivos, diferentes escolhas estratégicas foram propostas. Embora algumas delas sejam introduzidas mais adiante, é importante sublinhar desde já que a contribuição de Minsky será analisada com foco quase exclusivo em seus livros. Minsky escreveu dois grupos de livros que podem ser facilmente categorizados.1 Enquanto ainda estava vivo, publicou os seguintes três livros:

1. *John Maynard Keynes* (1975);
2. *Can “It” Happen Again?* (1982);
3. *Stabilizing an Unstable Economy* (1986a).

Após sua morte, o Levy Economics Institute apoiou a publicação de mais dois:

4. *Induced Investment and Business Cycles* (2004), editado por D.B. Papadimitriou;

5. *Ending Poverty: Jobs, Not Welfare* (2013), editado por D.B. Papadimitriou, L. Randall Wray e J. Kregel.

O livro 4 é simplesmente a dissertação de Hyman (1954), enquanto o livro 5 é uma coleção de ensaios sobre o mercado de trabalho escritos nos anos 1960.

Todos os livros listados serão considerados na análise a seguir, embora com diferentes graus de atenção. A ênfase principal será colocada nos livros 2 e 3. A razão é simples: a tentativa principal deste livro é tentar reconciliar esses dois livros; ou, para colocar de outra forma, inserir a hipótese de instabilidade financeira desenvolvida no livro 3 dentro de seu aparato dinâmico apresentado no livro 2.

As razões por trás da minha escolha estratégica são pelo menos duas. Por um lado, alguns desses livros são simplesmente coleções de artigos, o que simplifica a análise. Por outro lado, eles permitem capturar a evolução de suas ideias de forma compacta. Como a presente análise não é uma pesquisa sobre a história do pensamento econômico, mas, ao contrário, tem a ambição de seguir a estratégia metodológica sugerida por Hicks em seu *Capital and Growth* (1965), a decisão de focar nos principais livros é particularmente frutífera. De fato, Hicks (1965) sugeriu que, para compreender as contribuições fundamentais dos autores mais importantes, é necessário estudar as ideias em relação às tecnicalidades com as quais são expressas. Dentro de sua perspectiva, muito próxima a uma abordagem kantiana, é legítimo questionar se existem descontinuidades entre as várias contribuições de Minsky ou se a evolução é a resposta mais apropriada. Evito antecipar qualquer resposta detalhada neste estágio da análise. Basta afirmar que há uma continuidade substancial na visão e diferenças no aparato analítico.

6. UMA GRADE INTERPRETATIVA

Uma das sugestões contidas no livro de Hicks (1965) é referir-se ao seguinte tríptico canônico para revelar a espinha dorsal das várias contribuições:

1. a dimensão temporal;
2. a estrutura de transações;
3. a estratégia de agregação.

Essas categorias foram amplamente utilizadas, por exemplo, por Leijonhufvud (1968), e podem também ajudar a caracterizar as várias contribuições de Minsky. Além disso, são úteis para entender as tentativas sucessivas de desenvolver sua análise. Nessa perspectiva, enquanto *Can “It” Happen Again?* de Minsky (1982) sublinha o ponto 1, seu *Stabilizing an Unstable Economy* (1986a) se refere principalmente à estrutura de transações da economia. Por fim, *John Maynard Keynes* (1975) tem implicações para a estratégia de agregação, um tema também discutido em sua dissertação (*Minsky, 1954/2004*).

O objetivo é tentar conectar as várias contribuições e, portanto, as várias dimensões. Em particular, como já mencionado, vale considerar se a hipótese de instabilidade financeira, que foi desenvolvida principalmente em *Stabilizing an Unstable Economy*, pode ser analisada dentro da perspectiva dinâmica sugerida em *Can “It” Happen Again?*

O desafio é duplo. Por um lado, é importante entender se a hipótese de instabilidade financeira já está presente “em germe” nesses escritos iniciais. Por outro, é preciso verificar se esses escritos iniciais oferecem sugestões para desenvolvê-la e apresentá-la em termos dinâmicos, uma prioridade tanto para a macroeconomia moderna quanto para Minsky.

7. A DIMENSÃO TEMPORAL

Não há dúvida de que a visão de Minsky (para usar um termo familiar de Schumpeter) foi formulada em termos dinâmicos, como é mostrado em *Can “It” Happen Again?* (1982). Isso também é evidenciado pela seguinte frase que coescrevemos:

“… argumentamos que o estado atual da teoria econômica, bem como o desempenho do capitalismo nos últimos anos, apoia a visão de que o caminho ao longo do tempo de uma economia capitalista é melhor descrito como o resultado da interação entre as dinâmicas endógenas do sistema, que, se não contidas, levariam a trajetórias complexas que incluem períodos de aparente crescimento, ciclos econômicos e instabilidade econômica, e o impacto de instituições e intervenções que, se adequadas, restringem os resultados dos processos de mercado capitalista a resultados viáveis ou aceitáveis. Chamamos essas instituições e intervenções de sistemas de contenção.” (*Ferri e Minsky, 1992, p. 79, reproduzido no Capítulo 7*).

A partir da citação acima, segue-se que Minsky não era um pessimista extremo nem um panglossiano que acreditava na capacidade autorreguladora do processo de mercado (ver também *Ferri e Minsky, 1989, reproduzido no Capítulo 6*). Ele acreditava que políticas e mudanças institucionais poderiam ser de extrema importância para conter as tendências de instabilidade endógena.

Essa visão complexa está presente “em germe” em seus artigos iniciais reunidos no volume *Can “It” Happen Again?*. Conforme ressaltado por Ferri (1992 e 2011), há três características analíticas que merecem consideração:

1. o modelo, baseado na interação entre o acelerador e o multiplicador, tende a gerar instabilidade se não for contido;

2. a presença de tetos e pisos pode restringir as dinâmicas;

3. essas restrições não precisam representar necessariamente barreiras físicas, mas podem implicar mudanças em políticas e instituições, acionando novas condições iniciais que permitem ao sistema dinâmico um novo começo.

Essas características não se limitam aos modelos iniciais de acelerador–multiplicador considerados por Minsky. Elas são robustas a mudanças no modelo e, portanto, podem ser utilizadas para análises mais complexas que merecem consideração.

8. A ESTRUTURA TRANSACIONAL

Embora não haja dúvida de que Minsky sempre teve em mente operar dentro de uma economia monetária de produção, não é simples encontrar um ponto de contato entre sua análise inicial e a chamada hipótese de instabilidade financeira. Uma estratégia possível e frutífera é entender onde os aspectos financeiros estão ocultos em suas abordagens iniciais. A resposta encontra-se em sua dissertação (*Minsky, 1954/2004*), que também oferece alguns insights sobre sua estratégia de agregação.

Segundo Minsky, as finanças podem ter um impacto importante nos valores dos parâmetros da função de investimento, que podem refletir, *ceteris paribus*, diferentes condições financeiras. Há três principais implicações dessa análise. A primeira é que os aspectos reais e financeiros estão sempre interconectados. Nessa perspectiva, nem a abordagem de Modigliani–Miller (1958) nem abordagens puramente monetárias parecem se sustentar. A segunda implicação é que os parâmetros das equações (reais) estão sujeitos a mudanças quando as condições financeiras são diferentes. Disso decorre, e esta é a terceira implicação, que o funcionamento do sistema não é necessariamente uma sucessão mecânica de números, mas o resultado da interação entre forças complexas.

De acordo com Minsky: “O dinheiro importa na maioria das vezes, em alguns momentos raros, mas importantes, ele é tudo o que importa, e, às vezes, o dinheiro quase não importa” (1969, p. 228). A principal implicação metodológica desse insight é que, dentro de uma economia monetária de produção, o dinheiro é relevante, mesmo que um setor financeiro não esteja especificamente formalizado. Isso não implica que sua presença seja redundante. Pelo contrário, permite captar processos adicionais de interdependência que não podem ser gerados em sua ausência. Esse é o valor agregado da hipótese de instabilidade financeira em relação aos escritos iniciais e a todas as contribuições que insistem mais na natureza financeira do investimento do que na presença de um sistema financeiro completamente especificado.

9. MICRO–MACRO

Há uma visão generalizada de que Minsky não se preocupou em detalhar a metodologia em suas publicações, embora seus escritos tenham estimulado observações sobre suas escolhas metodológicas. Ferri (1992), por exemplo, insistiu em detalhar os problemas metodológicos enfrentados em sua análise dinâmica, enquanto Vercelli (2001) destacou a diferença entre instabilidade dinâmica e instabilidade estrutural, sendo esta última característica da análise de Minsky, mas ausente na obra de Keynes.

A publicação póstuma da dissertação de doutorado de Minsky (ver *Minsky, 1954/2004*) certamente contribuiu para desafiar a visão de um suposto descaso com problemas metodológicos, e isso gerou mais discussões (ver *Toporowski, 2008, p.726*).

Entre os diversos tópicos considerados na dissertação, as relações micro–macro merecem atenção especial. Como é bem conhecido, Minsky foi acusado de ser excessivamente orientado para o macro e, ao mesmo tempo, suscetível a falácias de composição. De fato, segundo alguns autores, ele parece ter se baseado principalmente nas identidades das contas nacionais. Por outro lado, Lavoie e Seccareccia (2001) afirmam que sua análise é orientada para o micro, de modo que falácias de composição são inevitáveis quando ele tenta alcançar conclusões macro a partir de análises micro.

Enquanto a falta de microfundamentos assimilaria Minsky aos autores da síntese neoclássica, o segundo tipo de crítica o incluiria entre os defensores da estratégia do agente representativo. No entanto, uma análise mais aprofundada revela que Minsky não é redutível a nenhuma dessas duas alternativas. De fato, ele ofereceu várias soluções para os problemas micro–macro que serão considerados em detalhes mais adiante (ver Capítulo 8). Nesta etapa da análise, é importante destacar que elas são adequadas para serem desenvolvidas de acordo com as novas metodologias propostas recentemente.

10. LENTES ESPECIAIS

“A visão interna” que qualifica o título do livro representa a segunda escolha estratégica seguida para chegar ao cerne da economia de Minsky, após a supremacia concedida a seus livros. A visão interna significa que prioridade é dada às ideias que aprendi diretamente com Minsky. Elas foram desenvolvidas por meio de três canais diferentes. O primeiro consiste nos trabalhos que coescrevemos durante um período de duas décadas. O trabalho publicado em conjunto é representado por três artigos:

1. “Preços, emprego e lucros” (1984);
2. “A ruptura da síntese IS–LM: implicações para a teoria econômica pós-keynesiana” (1989);
3. “Processos de mercado e sistemas de contenção” (1992).

Esses artigos têm uma forte correspondência com os três primeiros livros mencionados anteriormente, embora não respeitem sua cronologia e não correspondam um a um. As razões por trás da primeira peculiaridade residem principalmente na idiossincrasia de Hyman, que não tinha tanto interesse em escrever artigos quanto em publicá-los, de modo que a cronologia oficial não reflete totalmente as datas de escrita real. A segunda peculiaridade resulta do fato de que tentamos alcançar uma visão unitária, de modo que houve uma sobreposição entre as várias contribuições.

Os três artigos são reproduzidos na Parte II do livro para fornecer uma visão de nossa colaboração. Eles constituem o ponto de partida do livro. Sucessivamente, eles são atualizados e, por fim, estendidos. O objetivo não é tanto mostrar a frutificação dessa colaboração, mas usá-los como veículo para chegar ao cerne das contribuições de Minsky.

Além do canal de trabalhos publicados, devo mencionar uma abordagem particular que chamei de “colóquios socráticos”. Esses colóquios consistem em uma série de perguntas feitas por mim e respondidas por Hyman. Tanto perguntas quanto respostas foram escritas em computadores. Algumas delas foram publicadas no livro apenas para fornecer uma visão de nossas intensas interações. Um dia, elas poderão ser disponibilizadas na íntegra, se a tecnologia apropriada e o capital humano disponível forem encontrados.

O terceiro canal é representado por projetos de livros que nunca foram concluídos. Sempre que possível, eles também serão citados, pois são importantes para compreender o contexto da agenda de pesquisa.

Esses três canais não esgotam todas as possibilidades de captar as ideias de Minsky. Uma menção especial deve ser reservada para conferências. Algumas delas foram realizadas enquanto ele estava vivo, e um subconjunto delas foi publicado (ver, por exemplo, o *Festschrift* editado por *Fazzari e Papadimitriou, 1992*). Outras foram organizadas postumamente. Nesse caso, aprendi as ideias de Minsky a partir das lições de outros (ver *Bellofiore e Ferri, 2001a, 2001b*). As restantes foram coletadas em livros (*Papadimitriou e Wray, 2010*) ou em revistas (por exemplo, *International Journal of Political Economy*, vol. 39, 2010).

11. A VISÃO

A visão subjacente à análise de Minsky está claramente exposta em nosso trabalho conjunto “Processos de mercado e sistemas de contenção”. Este foi o último artigo que escrevemos juntos, e representa o ápice de nossa colaboração, pelo menos do meu ponto de vista. Embora datado de 1992, ele parece ter sido escrito após a Grande Recessão e não quase 20 anos antes.

Vale reproduzi-lo por pelo menos três razões. Primeiro, ele expõe claramente nossa visão comum, mesmo que viéssemos de diferentes formações intelectuais. Segundo, ele indica as principais forças motrizes de um sistema dinâmico complexo. Elas são uma combinação de tendências endógenas contrabalançadas por sistemas de contenção. E, finalmente, ele estabelece uma agenda de pesquisa para futuros desenvolvimentos que tentei seguir tanto quanto possível.

Esses elementos estão na raiz da interpretação de Minsky sugerida neste livro, assim como das tentativas de desenvolver sua análise – em particular, os esforços para inserir sua análise de instabilidade financeira em um arcabouço dinâmico complexo mais amplo. Para alcançar essa inserção, precisei explorar sua caixa-preta de ferramentas de forma mais profunda do que ele mesmo tentou.

12. INSTABILIDADE, INTEGRAÇÃO E O PAPEL DAS INSTITUIÇÕES

Um sistema dinâmico complexo não é simplesmente uma sequência mecânica de eventos, mas representa uma luta entre forças desestabilizadoras endógenas, contrabalançadas pela adoção de políticas adequadas e pela presença de instituições adaptativas. Essa visão cria uma distância em relação àquelas perspectivas que enfatizam a natureza exógena das flutuações. Ao mesmo tempo, isso não leva necessariamente à conclusão de que o sistema inevitavelmente experimentará situações descontroladas.

Essas forças desestabilizadoras endógenas não precisam necessariamente se originar no sistema financeiro, embora, quando isso acontece, a turbulência tenda a se tornar particularmente severa. No entanto, essa circunstância não dispensa a consideração do que ocorre nos outros mercados, ou seja, na chamada economia real. Nessa perspectiva, a hipótese de instabilidade financeira de Minsky é profundamente concebida dentro de uma economia monetária de produção, onde o papel do mercado de trabalho e a natureza das instituições são importantes. Eles devem ser integrados à análise financeira, e é por isso que esses aspectos serão considerados neste livro.

A ênfase no mercado de trabalho representa meu valor agregado na colaboração com Minsky. Isso não implica que Hyman tenha negligenciado essa área, como seu livro póstumo *Ending Poverty: Jobs, Not Welfare* (2013) claramente demonstra. Seu conhecimento era realmente amplo. Em certo sentido, ele era um economista clássico.

13. A ESTRUTURA DO LIVRO

Além do capítulo introdutório atual, a estrutura do livro é caracterizada por cinco partes, cada uma contendo três capítulos. Em detalhes, a Parte I, intitulada “‘Isso’ aconteceu novamente”, descreve as características do momento Minsky em relação à economia de Minsky (Capítulo 2), enquanto o Capítulo 3 apresenta uma visão sinóptica da hipótese de instabilidade financeira. O Capítulo 4 ilustra as implicações de uma visão interna para entender a análise de Minsky e propor uma agenda de pesquisa.

A Parte II inclui os três artigos que Hyman e eu coescrevemos. Por um lado, essa inclusão serve à função prática de disponibilizá-los de forma unitária, pois são artigos antigos. Por outro, eles representam a espinha dorsal do livro. Eles não só testemunham a profundidade de nossa colaboração, mas também são usados para interpretar e desenvolver a análise de Minsky. Especificamente, esses artigos são atualizados, aprofundados e ampliados para enfrentar os desafios apresentados pelos novos fatos estilizados da economia e pelos avanços da disciplina.

A Parte III começa atualizando e aprofundando alguns aspectos metodológicos presentes tanto nesses três artigos quanto nas obras de Minsky. Especificamente, a tripla classificação sugerida por Hicks será seguida. O Capítulo 8 trata da relação micro–macro na análise de Minsky. O Capítulo 9 aborda as bases da dinâmica, não apenas para comparar Minsky com a chamada literatura DSGE (equilíbrio geral estocástico dinâmico) – que ainda não existia quando o artigo reproduzido no Capítulo 6 foi escrito – mas também para estabelecer os princípios de uma dinâmica endógena. O Capítulo 10 atualiza o artigo de 1984 sobre preços e lucros. Ao fazer isso, apresenta novas ferramentas para produzir dinâmicas não lineares.

A Parte IV entra na chamada caixa-preta de instrumentos usados por Minsky. Seu objetivo é ampliar a análise de Minsky para considerar fenômenos como distribuição de renda, desigualdade e produtividade. Em outras palavras, não considera apenas as sugestões dinâmicas contidas em seu livro de 1982, mas tenta vincular crescimento e mercado de trabalho em uma perspectiva de médio prazo. O Capítulo 11 desenvolve um modelo em que coexistem motores, adaptadores e restrições, e onde o desemprego é gerado tanto pela demanda quanto pela oferta agregada. O Capítulo 12 introduz o papel da mudança técnica e suas implicações para o desemprego. O Capítulo 13 destaca as propriedades estruturais do mercado de trabalho. Os resultados dos três capítulos são comparados com as ideias de Minsky apresentadas em seu livro póstumo de 2013.

A Parte V utiliza esse aparato analítico para revisitar a hipótese de instabilidade financeira no contexto dinâmico apresentado na Parte IV. O Capítulo 14 enfatiza a novidade da Grande Recessão e seus desafios analíticos. O Capítulo 15 desenvolve um meta-modelo que encapsula a hipótese de instabilidade financeira em um contexto mais amplo. O Capítulo 16 conclui destacando os resultados alcançados e o trabalho que ainda precisa ser feito.

NOTAS:

1. Uma lista completa das publicações de Minsky pode ser encontrada em *Wray (2016)*.

2. Por exemplo, organizamos uma conferência sobre Keynes e Schumpeter na Universidade de Washington em 1983. Por outro lado, com Riccardo Leoni, estávamos preparando uma conferência sobre desemprego, mas devido à doença de Hyman, ela nunca aconteceu.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Indicadores de Financeirização - Dr. Abdilcelil KOÇ

KOÇ, Abdilcelil. Political Economy of Financialization and Its Measuring: Indicators of Financialization in OECD Countries. 1. ed. London: IJOPEC, 2021.

SEÇÃO II – INDICADORES DE FINANCEIRIZAÇÃO NOS PAÍSES DA OCDE

4. FINANCEIRIZAÇÃO DAS ECONOMIAS NACIONAIS

    4.1 A Mudança da Acumulação de Capital da Indústria para as Finanças

    4.2 A Dívida nas Economias Nacionais

5. FINANCEIRIZAÇÃO DO SETOR FINANCEIRO

    5.1 A Dominância dos Mercados Financeiros nas Economias Nacionais

    5.2 A Dívida no Setor Financeiro

6. FINANCEIRIZAÇÃO DO SETOR NÃO FINANCEIRO

    6.1 Transformações nas Empresas Não Financeiras (ENFs)

    6.2 Inclusão das ENFs nos Mercados Financeiros

    6.3 A Dívida no Setor Não Financeiro

7. FINANCEIRIZAÇÃO DAS FAMÍLIAS

    7.1 Inclusão das Famílias (Classes Trabalhadoras) na Financeirização

    7.2 A Dívida das Famílias

8. Conclusão


INDICADORES DE FINANCEIRIZAÇÃO NOS PAÍSES DA OCDE

Nesta seção, os 'Indicadores de Financeirização nos países da OCDE' foram considerados sob quatro títulos principais: Financeirização das economias nacionais, Financeirização do setor financeiro, Financeirização do setor não financeiro e Financeirização das famílias (Figura 6).

Figura 6: Principais Componentes da Financeirização nos Países da OCDE

No período de financeirização, a característica mais chamativa nas economias nacionais é que os mercados financeiros se estabelecem no cerne de toda a economia. Desenvolvimentos momentâneos formados nos mercados financeiros têm sido acompanhados de perto, minuto a minuto, dentro das fronteiras nacionais e em escala global. Esses desenvolvimentos impactaram os processos decisórios dos governos. Declarações feitas principalmente por importantes atores políticos sobre qualquer assunto provocam grandes oscilações nos mercados financeiros, ou esses atores políticos são obrigados a fazer declarações diferentes para amenizar as flutuações nos mercados financeiros (Tonak, 2007).

Os mercados financeiros, cujos tipos aumentam gradualmente e apresentam uma estrutura complexa, desempenham uma função que penetra toda a economia ao se instalar no centro da economia no período de financeirização. Os atores mais importantes desses mercados são as instituições públicas que proporcionam poupança de capital e as instituições financeiras privadas, que realizam transações em mercados que desempenham uma missão em escala nacional e internacional e realizam funções de organização e controle.

Ao observar os mercados, jogadores globais obtêm altos rendimentos nas geografias de seu interesse fazendo especulações simultaneamente. Os principais mercados em várias regiões são: mercados monetários e cambiais, mercados de capitais (bolsas de valores), mercados de contratos futuros e mercados de commodities onde se compram e vendem minérios preciosos, petróleo e produtos agrícolas. Houve muitas diversificações nas instituições financeiras que transacionam nesses mercados. Além das instituições financeiras tradicionais, empresas holding, bancos de depósito e de investimento e seguradoras têm voltado a trabalhar de maneira mais voltada ao mercado, assumindo novas funções e com a financeirização. Além disso, empresas de financiamento ao consumidor, firmas de leasing e factoring e instituições de cartões de crédito são predominantemente instituições que surgiram com a financeirização. Além dessas, instituições de previdência pública e privada, fundos de pensão individuais, fundos de investimento privados e empresas de gestão de portfólio detêm uma quantidade considerável de fundos. Esses fundos realizam bilhões de dólares em transações continuamente nos mercados financeiros de diferentes regiões do mundo.

Embora esses fundos tenham sido negociados primariamente nos mercados dos países centrais, com o processo de liberalização financeira após 1980, eles conquistaram liberdade de movimentação em escala global com o apoio do FMI e do Banco Mundial. Assim, aumentaram seus lucros financeiros ao entrar nos mercados dos países periféricos, chamados de ‘mercados emergentes.’

Esses países começaram a oferecer diversas facilidades e incentivos ao capital internacional. Enquanto eram chamados de ‘Países Subdesenvolvidos’ nos anos 1960, 1970 e até mesmo em 1980, passaram a ser chamados de ‘Países em Desenvolvimento’ a partir dos anos 1990. Esses fundos começaram a fazer investimentos sérios nos ‘Mercados Emergentes.’ Esses investimentos às vezes se davam na forma de compra de grandes empresas públicas (como Telecom) por meio de privatizações ou de investimentos de portfólio, chamados de ‘fluxo de dinheiro quente.’ Principalmente nesses países, onde os programas de estabilização do FMI foram implementados, os períodos em que a estabilização política e macroeconômica foi relativamente alcançada; a entrada de capital aumentou em conjunto com a elevação de notas das agências de classificação de risco internacionais. Como resultado do apoio difundido da mídia nacional e internacional, aumentos significativos nos preços das ações foram observados nos mercados de ações desses países através de fluxos de caixa positivos, já que os mercados desses países são relativamente rasos. Esses fundos levam à formação de bolhas financeiras, chamadas de rally, permanecendo por longos períodos nos mercados financeiros desses países. Esses fundos aumentam a acumulação de capital, proporcionando lucros significativos nos mercados financeiros desses países. Contudo, com o tempo, surgem problemas de estabilidade política nesses países, o endividamento com base em déficits comerciais aumenta e ocorrem vulnerabilidades econômicas com base no risco cambial.

Com o aumento do risco no país, devido à saída de capital estrangeiro, ocorrem graves crises financeiras como consequência do abalo dos equilíbrios macroeconômicos na economia nacional. Como uma característica da financeirização, a crise financeira em um país simultaneamente se espalha para outros países. Praticamente não há países periféricos que não tenham passado por essas práticas após os anos 1990 (BSB, 2011); (Boratav, 2016 e 2020); (Yeldan, 2009).

4.1 A Mudança da Acumulação de Capital da Indústria para as Finanças

Foster (2010) identifica a financeirização como uma mudança no mecanismo de acumulação de capital do capitalismo, saindo da produção e se direcionando para as finanças. Assim, essa mudança é amplamente aceita como um indicador significativo da financeirização.

A Figura 7 mostra as participações dos setores de Finanças, Seguros e Imóveis (FIRE) e da indústria de manufatura no valor agregado total, com base em países da OCDE. A Tabela 1 apresenta os coeficientes de correlação entre essas duas variáveis para cada país. De acordo com essa tabela, em 25 países da OCDE, encontrou-se uma relação significativa e negativa entre essas duas variáveis. Em 3 deles, foi encontrada uma relação positiva e significativa, enquanto em 8 países não se observou significado. Em média, nos países da OCDE, verificou-se uma relação significativa e negativa. Enquanto a participação do setor FIRE no valor agregado total aumenta na maioria dos países, a participação da indústria de manufatura diminui.

Figura 7: Valor Adicionado de Finanças, Seguros e Imóveis (FIRE) e da Indústria de Manufatura: 1970-2018 (% de participação no valor agregado total)



Tabela 1: Coeficientes de Correlação de Pearson Entre a Participação dos Setores FIRE e de Manufatura no Valor Agregado Total


De forma semelhante, a Figura 8 apresenta a média da OCDE para essas duas variáveis. Os países incluídos no cálculo da média da OCDE são: entre 1970-1975; Coreia, Países Baixos, Noruega, França e Dinamarca; entre 1975-1980; Áustria e Finlândia; Suécia foi incluída em 1980, e os Estados Unidos em 1997. Entre 1990 e 2018, todos os países da OCDE foram incluídos. Entre 1970-2018, enquanto a participação da indústria de manufatura no valor agregado mostrou uma tendência de queda, ao contrário, a participação do setor FIRE apresentou uma tendência contínua de alta.

Figura 8: A Proporção do Valor Agregado dos Setores FIRE e da Indústria de Manufatura no Valor Agregado Total


A Figura 9 mostra a razão entre o valor agregado do setor FIRE e o valor agregado da indústria de manufatura. Um dos pressupostos críticos da financeirização é que o amplo setor financeiro, considerado como FIRE, está em crescimento no longo prazo em relação à indústria de manufatura. Nesse sentido, a tendência de longo prazo dessa variável é significativa. Conforme mostrado no gráfico, a média da OCDE para essa variável apresentou uma tendência de alta significativa entre 1970-2018. Essa razão aumentou de 0,46 em 1970 para 0,52 em 1980. A tendência de alta continuou até a crise de 2009. Após esse índice atingir 1,15 em 2009, iniciou-se uma tendência de queda, chegando a 1,12 em 2017. Esse índice aumentou 2,21 vezes entre 1980 e 2009. Como a tendência de longo prazo dessa variável apoia a tese de financeirização, ela é adequada para medir financeirização. Portanto, essa variável é incluída como a variável número 1 no modelo.

Figura 9: A Razão entre o Valor Agregado de FIRE e o Valor Agregado da Manufatura



Figura 10: A Razão entre o Valor Agregado de Finanças e Seguros e o Valor Agregado da Indústria de Manufatura























quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Teoria Microeconômica Heterodoxa - F. S. Lee


Sumário:

1 A criação da microeconomia heterodoxa

    1.1 Economia é a ciência do processo de provisão social

    1.2 Economia heterodoxa

    1.3 Comunidade de economistas heterodoxos

    1.4 Teoria econômica heterodoxa

    1.5 Núcleo teórico

    1.6 Microeconomia heterodoxa

    1.7 Metodologia da economia heterodoxa

    1.8 Fundação filosófica

    1.9 Estratégia de pesquisa: método da teoria fundamentada

    1.10 Questões de métodos de pesquisa

    1.11 Caráter histórico das teorias econômicas heterodoxas

    1.12 A criação da teoria microeconômica heterodoxa

2 Estrutura, agência e modelagem da economia

    2.1 O processo de provisão social

    2.2 Representando e modelando a estrutura produtiva da economia e o excedente

    2.3 Produção circular

    2.4 Produção circular, insumos não produzidos e escassez

    2.5 Bens de investimento fixo, reservas de recursos e o excedente

    2.6 Provisão social como uma planta em operação

    2.7 Representando a relação entre o excedente social e a renda

    2.8 Classes, estado e moeda estatal

    2.9 Despesas governamentais, moeda estatal e o setor financeiro

    2.10 Lucros, rendas e o excedente social

    2.11 Provisão social como uma economia em operação

    2.12 Agência, pessoas atuantes, organizações e instituições

    2.13 A pessoa atuante

    2.14 A empresa

    2.15 O estado

    2.16 O lar

    2.17 Organizações de governança de mercado

    2.18 Sindicatos

    2.19 Agência, pessoas atuantes e decisões centrais

    2.20 Modelando a economia como um todo

3 A empresa: estruturas

    3.1 Estrutura organizacional da empresa

    3.2 Estrutura de tomada de decisões e a empresa atuante

    3.3 Motivação

    3.4 Estrutura de tomada de decisões

    3.5 Procedimentos de contabilidade gerencial

    3.6 Estrutura de produção e custos

    3.7 Produção, tecnologia, plantas e custos diretos

    3.8 Técnica de produção de oficina e despesas de oficina

    3.9 Técnica de produção da empresa e despesas da empresa

    3.10 Estrutura de produção e custos de uma linha de produtos

    3.11 A teoria heterodoxa de produção e custos

4 A empresa: agência e mecanismos causais

    4.1 Custeio e precificação

    4.2 Precificação orientada pelo custeio

    4.3 Precificação orientada pela margem de lucro

    4.4 Preços de continuidade operacional

    4.5 Precificação e a margem de lucro

    4.6 Governança de mercado e preços de mercado

    4.7 Investimento

    4.8 Planejamento de longo prazo

    4.9 Decisões de investimento

5 Mercados e demanda pelo produto social

    5.1 Mercado, indústria e o processo de provisão social

    5.2 Mercado como uma instituição para a provisão social

    5.3 Mercado: definido e delineado

    5.4 Mercado e indústria

    5.5 Demanda pelo produto social

    5.6 Lar atuante e demanda de consumo

    5.7 Estrutura da demanda de mercado e o preço de mercado

    5.8 Preços diferenciais e fluidez das participações de mercado

    5.9 Relação entre o preço de mercado e as vendas de mercado

    5.10 Empresa em operação, produção sequencial e o preço de mercado

    5.11 Competição, poder de mercado e o preço de mercado em operação

    5.12 Poder de mercado e instabilidade de preços

    5.13 Instabilidade de preços e a empresa em operação

6 Competição, o preço de mercado e a governança de mercado

Abordagem heterodoxa à competição de mercado e governança de mercado

Competição e concentração de mercado

Base para a competição de mercado gerida

Governança de mercado: controlando a instabilidade através da regulação dos mercados

Governança de mercado privada e o preço de mercado: associações comerciais

Forma legal

Constituição e propósito

Organização e gestão

Atividades gerais

Governança de mercado privada e o preço de mercado: liderança de preço

A empresa dominante definida e identificada

Determinando o preço de mercado

A empresa dominante e o preço de mercado

Aparência e estabilidade da empresa dominante

A evolução da empresa dominante: custos

A evolução da empresa dominante: estratégia competitiva

Governança de mercado pública e o preço de mercado: regulações governamentais

Competição de mercado e o controle do processo de provisão social

7 Microeconomia e o processo de provisão social

Provisão social e excedente social

Modelo de precificação e teoria dos preços

Modelo de produção-emprego e o excedente social

A economia em operação e seu núcleo teórico

Preços e decisões de produção-emprego

Preços e a empresa em operação

Excedente social, o estado, e salários e lucros

Excedente social e provisão social

Teoria do valor e microeconomia heterodoxa

8 O papel da microeconomia na economia heterodoxa: a visão de um teórico micro heterodoxo

Introdução

A economia como um todo, como uma fundação conceitual e teórica

Demanda efetiva, distribuição de renda e o processo de provisão social

Microeconomia na economia heterodoxa

Tópicos de microeconomia heterodoxa e pesquisas futuras

Apêndices:

Apêndice 1 Syllabus do curso de microeconomia heterodoxa

Apêndice 2 Conjuntos de problemas narrativos-qualitativos-analíticos