terça-feira, 14 de julho de 2026

Economia Pós-Keynesiana - Marc Lavoie

1. Fundamentos da economia heterodoxa e pós-keynesiana

1.1 A NECESSIDADE DE UMA ALTERNATIVA

1.1.1 Ventos de Mudança

Há pouco mais de uma década, o mundo ocidental foi atingido pela Crise Financeira Global. Desde então, surgiu uma multiplicidade de iniciativas lideradas por estudantes com o objetivo de ampliar o leque de teorias e abordagens econômicas às quais os estudantes de economia podem ter acesso. Os estudantes franceses, que já haviam iniciado um movimento de protesto em 2000, voltaram a se mobilizar com o Peps-économie (2013). Eles contribuíram para lançar um apelo internacional em favor de um maior pluralismo no ensino da economia, o ISIPE (International Student Initiative for Pluralism in Economics). Em seguida, surgiram outros movimentos estudantis, em particular o Rethinking Economics e o Exploring Economics, que disponibilizam informações e materiais sobre diversas teorias alternativas à economia dominante (mainstream). Também merecem destaque as atividades e conferências promovidas pelo Institute for New Economic Thinking (INET) e organizadas por meio das Young Scholar Initiatives (YSI), bem como organizações estudantis já existentes, como a OIKOS International, voltada para a sustentabilidade, que igualmente aderiram ao apelo por um maior pluralismo na economia. Todo esse movimento foi acompanhado por uma proliferação de escolas de verão que atraem grande número de participantes e que, durante alguns dias ou mesmo uma semana inteira, oferecem aos estudantes de pós-graduação formação em escolas alternativas de pensamento econômico.

A existência desses movimentos é uma prova de que muitos estudantes de economia desejam ir além do que normalmente lhes é ensinado na maioria dos departamentos de economia e estão cada vez mais conscientes de que existem alternativas. Ao mesmo tempo, isso também demonstra que, no meio acadêmico, pouca coisa mudou, exceto por algumas inclusões marginais nos currículos.

Em alguns casos, os acontecimentos fora do meio acadêmico têm sido mais animadores, especialmente no âmbito dos bancos centrais e das organizações internacionais. A crise levou à reconsideração de muitos dogmas da teoria macroeconômica e monetária. Mais importante ainda, ela levou alguns pesquisadores de grandes organizações internacionais a questionarem toda a sua orientação filosófica. A **Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)** criou a iniciativa **New Approaches to Economic Challenges (NAEC)**, que abre mais espaço para perspectivas alternativas. O **Fundo Monetário Internacional (FMI)**, por sua vez, foi criticado por seu **Escritório Independente de Avaliação (Independent Evaluation Office)** devido à sua visão estreita (*tunnel vision*) e, como consequência, passou a dar maior espaço às críticas internas. Como exemplo, **Ostry et al. (2016)**, em uma publicação do FMI voltada a um público amplo, questionam se as políticas neoliberais não teriam sido excessivamente promovidas. Os autores examinam duas políticas neoliberais tradicionais voltadas para a promoção do crescimento de longo prazo: a primeira é a austeridade fiscal, isto é, a tentativa de reduzir os déficits fiscais e a dívida pública, sobretudo por meio da redução dos gastos do governo (a chamada consolidação fiscal "expansionista"); a segunda é a eliminação das restrições à mobilidade internacional de capitais. O argumento dos autores é que essas duas políticas não aumentaram o crescimento econômico e, além disso, contribuíram para elevar a desigualdade de renda e de riqueza. Ostry et al. (2016, p. 38) concluem que, **"em vez de promover o crescimento, algumas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade, comprometendo, por sua vez, uma expansão econômica duradoura"**. Trata-se de uma mudança de posição bastante significativa.

Os banqueiros centrais também revisaram suas posições, reconhecendo agora que o regime de metas de inflação não constitui uma solução universal e que podem ter superestimado sua capacidade de influenciar a economia. Alguns bancos centrais, como o **Banco da Reserva da Nova Zelândia**, pioneiro na adoção do regime de metas de inflação, passaram a adotar um mandato duplo ou uma versão mais flexível desse regime. Além disso, diversos bancos centrais, em particular o **Banco da Inglaterra**, têm criticado a teoria monetária convencional apresentada nos livros-texto, como a narrativa do multiplicador monetário e a teoria quantitativa da moeda, passando a explicar o processo de oferta de moeda de maneira semelhante àquela defendida pelos pós-keynesianos ao longo dos últimos cinquenta anos.

Sob a pressão de alguns banqueiros centrais, diversos componentes que antes eram considerados indispensáveis na teoria macroeconômica passaram a ser questionados: a hipótese das expectativas racionais; a versão forte ou semiforte da hipótese dos mercados eficientes; a hipótese de eficiência não viesada (*unbiased efficiency hypothesis*) em finanças internacionais; a hipótese de perfeita substituibilidade entre ativos; o teorema da equivalência ricardiana de Barro; a ideia de contrações fiscais expansionistas, baseada na chamada *fada da confiança* (*confidence fairy*); a taxa natural de desemprego e sua versão expressa pela **NAIRU**, concebidas como um atrator único (ou mesmo variável ao longo do tempo) da taxa efetiva de desemprego; a curva de Phillips vertical de longo prazo; e até mesmo a curva de Phillips de curto prazo com inclinação negativa (Lavoie, 2018). A Crise Financeira Global minou profundamente essas hipóteses e pressupostos, pois, como destacou durante algum tempo uma nota na página do *Financial Times*, **"a crise de crédito destruiu a confiança na ideologia do livre mercado que dominou o pensamento econômico ocidental por uma geração"**.

Além disso, o advento da crise da COVID-19, que levou os governos a incorrerem em déficits expressivos para sustentar a atividade econômica e o poder de compra das famílias, modificou profundamente, ainda que temporariamente, as atitudes em relação aos déficits e às dívidas públicas. Economistas e o público em geral passaram a perceber que o aumento da relação dívida/PIB e a ocorrência de elevados déficits fiscais não provocaram a elevação das taxas de juros. Enquanto antes prevalecia o consenso de que a política monetária era praticamente onipotente e que a política fiscal deveria limitar-se a buscar o equilíbrio orçamentário, passou a haver um reconhecimento de que a política fiscal é um instrumento poderoso, sobretudo quando conta com o apoio das autoridades monetárias. Nesse contexto, os esforços persistentes dos defensores da **Teoria Monetária Moderna (Modern Monetary Theory – MMT)** para convencer seus pares e o público em geral de que os governos emissores de moeda dispõem de ampla margem financeira para implementar políticas expansionistas certamente contribuíram para enfraquecer a chamada **fobia dos déficits** (*deficit phobia*).

1.1.2 Retratação

Os críticos da economia convencional há muito tempo argumentam que as regulamentações e as políticas econômicas implementadas com o avanço da liberalização da economia foram fundamentadas em teorias econômicas equivocadas e que, por isso, deveriam ser abandonadas. Contudo, com a eclosão da Crise Financeira Global e, posteriormente, dos acontecimentos associados à crise da COVID-19, diversos antigos defensores da economia dominante (*mainstream*) mudaram de posição e passaram a dirigir críticas contundentes à teoria econômica convencional.

Talvez a retratação mais imediata e surpreendente tenha sido a de **Richard Posner**, juiz e professor sênior da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago. Posner foi um firme defensor dos mercados livres e da ideologia de **Milton Friedman**. Em seu livro *The Failure of Capitalism*, Posner (2009a) sustenta que a desregulamentação foi longe demais e que os mercados financeiros precisam ser fortemente regulados, uma vez que o sistema bancário possui uma importância sistêmica que outros setores da economia não apresentam. Em um artigo publicado posteriormente, de título provocativo — *How I Became a Keynesian* ("Como me tornei keynesiano") —, Posner (2009b) foi ainda mais longe ao afirmar que **"desde setembro [de 2008] aprendemos que a atual geração de economistas não conseguiu compreender como a economia funciona"**. Para Posner, a *Teoria Geral* de Keynes, apesar de sua aparente antiguidade, continua sendo o melhor guia para compreender a crise. Robert Skidelsky (2009, p. x), biógrafo e historiador de Keynes, chegou a afirmar que, para compreender a economia, era melhor não ser um economista profissional, pois isso teria a vantagem **"de não ter sido doutrinado a enxergar o mundo da forma como a maioria dos economistas o vê"**.

A crítica mais contundente à teoria macroeconômica dominante, vinda do próprio campo ortodoxo, talvez tenha sido formulada por **Willem Buiter**, ex-membro do Comitê de Política Monetária do **Banco da Inglaterra** e reconhecido crítico da hipótese das expectativas racionais desde seus primeiros anos. Em um blog que se tornou amplamente conhecido, Buiter (2009) escreveu que **"a formação típica em macroeconomia e economia monetária oferecida nos programas de pós-graduação das universidades anglo-americanas ao longo dos últimos trinta anos pode ter atrasado em décadas as investigações sérias sobre o comportamento agregado da economia e a compreensão necessária para a formulação de políticas econômicas"**. Buiter (2009) referia-se aos modelos fundamentados na **Nova Economia Clássica** e na **Nova Economia Keynesiana**, afirmando que esse tipo de modelagem não oferece qualquer explicação sobre **"como a economia funciona — muito menos sobre como ela funciona em períodos de tensão e instabilidade financeira"**.

Além de economistas heterodoxos, como **Servaas Storm (2021a)**, que considera esse tipo de modelagem digno de figurar em um **"Museu dos Modelos Econômicos Improváveis"**, diversos laureados com o Prêmio Nobel têm dirigido severas críticas ao principal instrumento da macroeconomia dominante: o modelo de **Equilíbrio Geral Dinâmico Estocástico (Dynamic Stochastic General Equilibrium – DSGE)**. **Robert Solow**, frequentemente apontado como o precursor dos modelos DSGE em razão de seu célebre modelo neoclássico de crescimento de 1956, também repudiou esses modelos, afirmando que seus fundamentos constituem uma **"macroeconomia estúpida e mais estúpida ainda"** (*dumb and dumber macroeconomics*) (Solow, 2003) e que a incorporação de fricções mais realistas não os torna mais plausíveis (Solow, 2008, p. 244). Para Solow, portanto, os esforços recentes dos defensores dos modelos DSGE para introduzir refinamentos cada vez mais complexos não os tornam melhores nem mais realistas. De forma igualmente contundente, **Joseph Stiglitz (2015, p. 43)** argumenta que a macroeconomia teve um desempenho insatisfatório ao longo dos anos, pois **"os modelos e teorias que orientaram a formulação de políticas não foram meros espectadores inocentes da crise iniciada em 2008; eles desempenharam um papel fundamental tanto na criação da crise quanto nas respostas inadequadas que lhe foram dadas"**. Já **Paul Romer (2016, p. 1)**, ex-economista-chefe do Banco Mundial, provocou grande repercussão ao afirmar que havia observado **"mais de três décadas de regressão intelectual"** na macroeconomia, acrescentando que ela havia se transformado em uma **"pseudociência"**, dirigindo suas críticas explicitamente à obra de **Robert Lucas** e dos economistas da **Nova Economia Clássica**.