quinta-feira, 30 de julho de 2026

Economia Monetária - Marc Lavoie e Wynne Godley

GODLEY, Wynne; LAVOIE, Marc. Monetary Economics: an integrated approach to credit, money, income, production and wealth. 2. ed. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2012.


SUMÁRIO

1 Introdução

    1.1 Dois paradigmas

    1.2 Aspiração

    1.3 Empreendimento

    1.4 Origem

    1.5 Algumas ligações com a "antiga" escola de Yale

    1.6 Ligações com a escola pós-keynesiana

    1.7 Um esboço do livro

    A1.1 Falhas empíricas contundentes da função de produção neoclássica

    A1.2 Relações estoque-fluxo e os pós-keynesianos

2 Balanços Patrimoniais, Matrizes de Transações e o Circuito Monetário

    2.1 Contabilidade estoque-fluxo coerente

    2.2 Balanços patrimoniais ou matrizes de estoques

    2.3 A matriz convencional de renda e despesas

    2.4 A matriz de fluxo de transações

    2.5 Integração completa das matrizes de balanço patrimonial e de fluxo de transações

    2.6 Aplicações da matriz de fluxo de transações: o circuito monetário

3 O Modelo Mais Simples com Moeda Governamental

    3.1 Moeda governamental versus moeda privada

    3.2 A economia de serviços com moeda governamental e sem escolha de portfólio

    3.3 Formalizando o Modelo SIM

    3.4 Um exemplo numérico e o multiplicador keynesiano padrão

    3.5 Soluções de estado estacionário

    3.6 A função consumo como uma norma estoque-fluxo

    3.7 Erros de expectativa em um modelo estoque-fluxo simples

    3.8 Fora do estado estacionário

    3.9 Uma ilustração gráfica do Modelo SIM

    3.10 Conclusão preliminar

    A3.1 Lista de equações do Modelo SIM

    A3.2 Lista de equações do Modelo SIM com expectativas (SIMEX)

    A3.3 O teorema da defasagem média

    A3.4 Déficits governamentais em uma economia em crescimento

4 Moeda Governamental com Escolha de Portfólio

    4.1 Introdução

    4.2 As matrizes do Modelo PC

    4.3 As equações do Modelo PC

    4.4 Expectativas no Modelo PC

    4.5 As soluções de estado estacionário do modelo

    4.6 Implicações de mudanças nos valores dos parâmetros sobre a renda temporária e de estado estacionário

    4.7 Uma meta governamental para a razão dívida/renda

    A4.1 Lista de equações do Modelo PC

    A4.2 Lista de equações do Modelo PC com expectativas (PCEX)

    A4.3 Moeda endógena

    A4.4 Fechamentos alternativos da corrente principal

5 Títulos de Longo Prazo, Ganhos de Capital e Preferência pela Liquidez

    5.1 Novas características do Modelo LP

    5.2 O valor de uma perpetuidade

    5.3 A taxa esperada de retorno dos títulos de longo prazo

    5.4 Avaliação dos ganhos de capital por métodos algébricos e geométricos

    5.5 Matrizes com títulos de longo prazo

    5.6 Equações do Modelo LP

    5.7 O impacto de curto e longo prazo de taxas de juros mais altas sobre a demanda real

    5.8 O efeito da preferência pela liquidez das famílias sobre as taxas de longo prazo

    5.9 Tornando os gastos do governo endógenos

    A5.1 Equações do Modelo LP

    A5.2 A armadilha da liquidez

    A5.3 Uma representação alternativa, mais ortodoxa, do mercado de títulos

6 Introduzindo a Economia Aberta

    6.1 Um arcabouço coerente

    6.2 As matrizes de uma economia com duas regiões

    6.3 As equações de uma economia com duas regiões

    6.4 As soluções de estado estacionário do Modelo REG

    6.5 Experimentos com o Modelo REG

    6.6 As matrizes de uma economia com dois países

    6.7 As equações de uma economia com dois países

    6.8 Rejeitando a abordagem Mundell-Fleming e adotando a abordagem da compensação

    6.9 Mecanismos de ajuste

    6.10 Considerações finais

    A6.1 Equações do Modelo REG

    A6.2 Equações do Modelo OPEN

    A6.3 Evidências históricas e empíricas sobre o princípio da compensação

    A6.4 Outros arranjos institucionais: o *currency board*

    A6.5 Como construir facilmente um modelo aberto

7 Um Modelo Simples com Moeda Bancária Privada

    7.1 Moeda privada e empréstimos bancários

    7.2 As matrizes do modelo mais simples com moeda privada

    7.3 As equações do Modelo BMW

    7.4 O estado estacionário

    7.5 Valores fora do equilíbrio e análise de estabilidade

    7.6 O papel da taxa de juros

    7.7 Um olhar para o futuro

    A7.1 As equações do Modelo BMW

8 Tempo, Estoques, Lucros e Formação de Preços

    8.1 O papel do tempo

    8.2 A mensuração dos lucros

    8.3 Formação de preços

    8.4 Exemplos numéricos de flutuações dos estoques

    A8.1 Um exemplo numérico de contabilidade de estoques

9 Um Modelo com Moeda Bancária Privada, Estoques e Inflação

    9.1 Introdução

    9.2 As equações do Modelo DIS

    9.3 Propriedades adicionais do modelo

    9.4 Valores de estado estacionário do Modelo DIS

    9.5 Tratando a inflação no Modelo DIS (ligeiramente modificado)

    A9.1 Lista de equações do Modelo DIS

    A9.2 O papel peculiar das expectativas dadas

    A9.3 Lista de equações do Modelo DISINF

10 Um Modelo com Moeda Interna e Externa

    10.1 Um modelo com bancos comerciais ativos

    10.2 Balanços patrimoniais e matrizes de transações

    10.3 Empresas produtoras

    10.4 Famílias

    10.5 O setor governamental e o banco central

    10.6 O sistema bancário comercial

    10.7 Fazendo tudo funcionar com simulações

    10.8 Conclusão

    A10.1 Sistemas bancários com cheque especial

    A10.2 Exemplo aritmético de uma mudança na preferência por portfólio

11 Um Protótipo de Modelo de Crescimento

    11.1 Prolegômenos

    11.2 Matrizes de balanço patrimonial, reavaliação e fluxo de transações

    11.3 Decisões tomadas pelas empresas

    11.4 Decisões tomadas pelas famílias

    11.5 O setor público

    11.6 O setor bancário

    11.7 Políticas fiscal e monetária

    11.8 As famílias no modelo como um todo

    11.9 Decisões financeiras no modelo como um todo

    11.10 Recapitulação final

12 Um Modelo Mais Avançado de Economia Aberta

    12.1 Introdução

    12.2 As duas matrizes

    12.3 Equações do modelo genérico

    12.4 Fechamentos alternativos

    12.5 Experimentos com o principal fechamento de taxa de câmbio fixa

    12.6 Experimentos com fechamentos alternativos de taxa de câmbio fixa

    12.7 Experimentos com o fechamento de taxa de câmbio flexível

    12.8 Lições a serem extraídas

    A12.1 Uma identidade fundamental e útil do fluxo de fundos em economia aberta

    A12.2 Um fechamento alternativo de taxa de câmbio flexível

13 Conclusão Geral

    13.1 Características únicas dos modelos apresentados aqui

    13.2 Um resumo


1. Introdução

Descobri o que é a economia: é a ciência de confundir estoques com fluxos.

Declaração verbal de Michal Kalecki, por volta de 1936, citada por Joan Robinson em "Shedding Darkness", Cambridge Journal of Economics, v. 6, n. 3, setembro de 1982, p. 295-296.

Durante os mais de sessenta anos transcorridos desde a morte de Keynes, coexistiram dois paradigmas fundamentalmente distintos de pesquisa macroeconômica, cada um com sua própria interpretação, igualmente fundamental, da obra de Keynes [1]. De um lado, encontra-se o paradigma dominante, ou neoclássico, baseado na premissa de que a atividade econômica é motivada exclusivamente pelas aspirações dos agentes individuais. No cerne desse paradigma está a função de produção neoclássica, que postula que o produto resulta da combinação de trabalho e capital de tal modo que, desde que todos os mercados estejam em equilíbrio (markets clear), não haverá desemprego involuntário, enquanto a renda nacional será distribuída de forma ótima e automática entre salários e lucros. Se os mercados não entrarem em equilíbrio porque salários ou preços são "rígidos" (sticky), a mesma estrutura produzirá resultados de desequilíbrio determinados, embora subótimos e, para muitos economistas, é justamente essa possibilidade de rigidez que define a economia keynesiana. A hipótese central de que a maximização do bem-estar individual constitui a força motriz universal não é compatível com a visão de que as empresas possuem existência autônoma e motivações próprias, pois os preços ótimos, o produto e o emprego são todos determinados para elas pela posição das curvas agregadas de oferta e demanda. Além disso, como a produção é instantânea e a oferta é igualada à demanda por meio do processo de ajuste dos mercados, não existe necessidade sistêmica e, portanto, tampouco um papel essencial para empréstimos, moeda de crédito ou bancos. O conceito de moeda é indispensável, porém ela é tratada como um ativo que, em geral, não possui um passivo correspondente e que frequentemente não mantém qualquer relação contábil com as demais variáveis. A teoria macroeconômica dominante constitui um sistema dedutivo que não necessita recorrer aos fatos empíricos (embora possa ser "calibrado" com dados numéricos) e que se presta à obtenção de soluções analíticas.

[1]: Para uma excelente revisão de todo esse campo, ver Lance Taylor (2004b).

O paradigma alternativo, que passou a ser conhecido como pós-keynesiano ou estruturalista, deriva originalmente dos economistas que estiveram, em maior ou menor grau, pessoalmente associados a Keynes, como Joan Robinson, Richard Kahn, Nicholas Kaldor e James Meade, bem como de Michal Kalecki, que desenvolveu a maior parte de suas ideias de forma independente. Longe de constituir um sistema dedutivo, a visão pós-keynesiana fundamenta-se em fatos estilizados, reconhecendo a existência manifesta de instituições, juntamente com regularidades e magnitudes nos dados econômicos que podem ser verificadas empiricamente. No centro desse sistema de ideias está a concepção de que, em uma economia industrial moderna, as empresas possuem existência autônoma e um conjunto próprio de objetivos, como, por exemplo, obter lucros suficientes para financiar investimentos que maximizem o crescimento. Rejeitando como quimérico o conceito da função de produção neoclássica [2], os pós-keynesianos sustentam que, em um mundo de incerteza, as empresas, operando sob condições de concorrência imperfeita e retornos crescentes de escala, precisam decidir quanto produzir, quantos trabalhadores empregar, quais preços cobrar, quanto investir e como obter financiamento. É a decisão de fixação de preços que, em geral, determina a distribuição da renda nacional entre salários e lucros. E, como a produção e o investimento demandam tempo, ao passo que as expectativas, em geral, se revelam equivocadas, existe uma necessidade sistêmica de empréstimos provenientes de fora do setor produtivo, o que gera endogenamente uma oferta adequada de moeda de crédito; em outras palavras (em conformidade com a observação comum), deve existir um setor bancário. Segundo a perspectiva pós-keynesiana, não há tendência natural para que as economias alcancem o pleno emprego e, por essa e outras razões, o crescimento e a estabilidade requerem a participação ativa do governo por meio das políticas fiscal, monetária e de rendas. Além disso, provavelmente é impossível derivar soluções analíticas que descrevam a evolução das economias como um todo, sobretudo porque as instituições e os padrões de comportamento se transformam profundamente ao longo da história.

[2] O Apêndice 1.1 apresenta razões convincentes para essa rejeição.

Pasinetti (2005) lamenta o fato de que os pós-keynesianos tenham progressivamente deixado de estabelecer "um paradigma vencedor permanente". E, de fato, embora ainda existam focos de resistência obstinada, a tradição pós-keynesiana foi praticamente excluída da literatura; perdeu espaço para a corrente dominante na forma como a disciplina é ensinada, no que os principais periódicos acadêmicos aceitam para publicação, na alocação de recursos para pesquisa, nos critérios de contratação de docentes e pesquisadores e na construção de modelos empíricos. Pasinetti atribui esse declínio, em grande medida, às características pessoais dos notáveis economistas que sucederam diretamente Keynes, sustentando (corretamente, em nossa opinião) que eles não admitiam pesquisadores externos em seu círculo nem patrocinavam seus trabalhos. Contudo, Pasinetti também aponta para "a falta de coesão teórica entre os diversos elementos que emergiram da escola keynesiana", os quais "deram pouca atenção aos fundamentos sobre os quais um paradigma alternativo, mas coerente, poderia ser construído". Ele sugere que "ainda falta um projeto satisfatório que possa abrigar, sob um mesmo teto, o desenvolvimento das ideias existentes ao longo das linhas keynesianas..." e que há necessidade de "uma explicação do que acontece — como Keynes afirmou — em uma 'economia monetária de produção', que é mais complexa do que uma economia estacionária de trocas puras, por ser intrinsecamente dinâmica, continuamente afetada pela história e sujeita a mudanças tanto de escala quanto de estrutura". Trata-se do reconhecimento de que a economia pós-keynesiana, até o presente momento, simplesmente ainda não abrange todo esse campo.

Geoffrey Harcourt (2001, p. 277), em sentido semelhante, observa que os pós-keynesianos têm seguido o método marshalliano-keynesiano, que "consiste em examinar, sucessivamente, partes da economia, mantendo constantes ou abstraindo, por ora, os acontecimentos — ou, ao menos, os efeitos do que ocorre — em outros setores", na esperança de que, ao final, fosse possível "reunir todos os resultados para obter um quadro geral e completo". Harcourt considera que "essa pode ser uma das razões pelas quais, em última instância, tanto Marshall quanto Joan Robinson acreditaram ter fracassado — não por perceberem que, ao seguir esse procedimento, estavam tentando o impossível, mas porque o próprio procedimento era falho". Enquanto os economistas neoclássicos dispõem da teoria do equilíbrio geral e dos modelos computáveis de equilíbrio geral, que os ajudam a captar as implicações globais de sua visão e a interdependência entre mercados e setores, a economia pós-keynesiana pôde oferecer apenas o modelo sraffiano como instrumento formal para tratar das interdependências produtivas e dos preços relativos, mas que, ironicamente, não tratava — nem poderia tratar — das questões keynesianas cruciais relativas ao produto, ao desemprego, à inflação, aos fluxos financeiros e ao endividamento. Os modelos pós-keynesianos que abordavam esses temas encontravam-se dispersos, sem apresentar uma explicação de como o sistema funcionava como um todo. Não existe uma formulação que caracterize de que maneira a teoria pós-keynesiana pode servir de fundamento para compreender o funcionamento da economia capitalista industrial como um organismo integrado. Apesar de esforços notáveis, como o livro de Eichner (1987), não existe um manual pós-keynesiano que abranja, de forma coerente, todo o campo da macroeconomia monetária [3].

[3]: Isso já havia sido assinalado por Godley (1993, p. 63), que lamentava a ausência de um manual kaldoriano, afirmando que "as ideias de Kaldor, em sua formulação positiva, não foram reunidas de modo a abranger todo o programa da disciplina". Em nota de rodapé, o autor acrescentava que uma exceção a essa generalização era o livro de Eichner, de 1987 (infelizmente inacabado) (Godley, 1993, p. 80).

1.2 Aspiração

Ao escrever este livro, nossa aspiração foi lançar as bases de uma metodologia que torne possível começar a investigar, de maneira rigorosa, como sistemas econômicos reais, dotados de instituições realistas, funcionam como um todo. Nosso ponto de partida, embora um pouco intricado para uma introdução, é, ainda assim, tão simples que propomos entrar diretamente no cerne da questão [4].

[4] Expressão latina que significa "no meio das coisas".

Os manuais tradicionais introduzem os conceitos macroeconômicos por meio da identidade da renda nacional. Assim, a produção total, ou produto interno bruto (PIB), é definida como a soma de todos os gastos com bens e serviços ou, alternativamente, como a soma de todas as rendas geradas pela produção de bens e serviços. Mais precisamente, o PIB (supondo uma economia fechada) é composto pelo consumo das famílias, pelo investimento e pelos gastos do governo com bens e serviços; sob a ótica da renda, é composto pela massa salarial e pelos lucros. Todos esses conceitos são introduzidos como variáveis "reais", sendo o PIB entendido como o volume total de produção de uma economia. Escrevendo formalmente essas identidades, temos:

C + I + G = Y = WB + F (1.1)

em que Consumo (C) representa o consumo, Investimento (I) o investimento, Gastos do Governo (G) as despesas governamentais, Produto Interno Bruto (Y) o PIB, Massa Salarial (WB) o total de salários pagos (wage bill) e Lucros (F) os lucros das empresas.

domingo, 26 de julho de 2026

Curva de Phillips Original



A Relação entre o Desemprego e a Taxa de Variação dos Salários Monetários no Reino Unido, 1861–1957 [1]

Por: A. W. Phillips

[1] Este estudo faz parte de um projeto de pesquisa mais amplo financiado por uma concessão da Fundação Ford. O autor contou com a assistência da Sra. Marjory Klonarides. Agradecimentos são devidos ao Professor E. H. Phelps Brown, ao Professor J. B. Meade e ao Dr. R. G. Lipsey pelos comentários sobre uma versão preliminar deste trabalho.

1. Hipóteses

Quando a demanda por uma mercadoria ou serviço é elevada em relação à sua oferta, espera-se que seu preço aumente, sendo a taxa desse aumento tanto maior quanto maior for o excesso de demanda. Inversamente, quando a demanda é baixa em relação à oferta, espera-se que o preço diminua, sendo a taxa dessa queda tanto maior quanto maior for a insuficiência de demanda. Parece plausível que esse princípio atue como um dos fatores determinantes da taxa de variação dos salários monetários, que representam o preço dos serviços de trabalho. Quando a demanda por trabalho é elevada e há muito poucos desempregados, é de se esperar que os empregadores elevem os salários com relativa rapidez, pois cada empresa e cada setor estarão continuamente tentados a oferecer remunerações ligeiramente superiores às vigentes para atrair os trabalhadores mais qualificados de outras empresas e setores. Por outro lado, quando a demanda por trabalho é baixa e o desemprego é elevado, os trabalhadores parecem relutantes em oferecer seus serviços por salários inferiores aos praticados no mercado, de modo que os salários tendem a cair apenas muito lentamente. Assim, a relação entre o desemprego e a taxa de variação dos salários é provavelmente altamente não linear.

É possível que um segundo fator influencie a taxa de variação dos salários monetários: a taxa de variação da demanda por trabalho e, consequentemente, do desemprego. Em um ano de expansão da atividade econômica, com aumento da demanda por trabalho e redução da taxa de desemprego, os empregadores disputarão a mão de obra de forma mais intensa do que fariam em um ano no qual a taxa média de desemprego fosse a mesma, mas a demanda por trabalho permanecesse estável. Em contrapartida, em um ano de retração da atividade econômica, com redução da demanda por trabalho e aumento da taxa de desemprego, os empregadores estarão menos dispostos a conceder aumentos salariais, e os trabalhadores se encontrarão em posição mais frágil para reivindicá-los, do que estariam em um ano em que a taxa média de desemprego fosse a mesma, mas a demanda por trabalho não estivesse diminuindo.

Um terceiro fator que pode afetar a taxa de variação dos salários monetários é a taxa de variação dos preços no varejo, atuando por meio dos reajustes salariais destinados a compensar o custo de vida. Argumenta-se aqui, contudo, que tais reajustes terão pouca ou nenhuma influência sobre a taxa de variação dos salários monetários, exceto em períodos em que os preços no varejo sejam pressionados para cima por uma elevação muito rápida dos preços das importações (ou, em raras ocasiões no Reino Unido, dos preços dos produtos agrícolas produzidos internamente). Suponha-se que a produtividade esteja crescendo continuamente à taxa de, digamos, 2% ao ano e que a demanda agregada esteja aumentando no mesmo ritmo, de modo que o desemprego permaneça constante em, por exemplo, 2%. Suponha-se ainda que, com esse nível de desemprego e na ausência de reajustes por custo de vida, os salários monetários aumentem cerca de 3% ao ano em decorrência da competição entre os empregadores pela contratação de trabalhadores e que os preços das importações e dos demais fatores de produção também estejam crescendo à taxa de 3% ao ano. Nesse caso, os preços no varejo aumentarão, em média, cerca de 1% ao ano (isto é, à taxa de variação dos custos dos fatores de produção menos a taxa de crescimento da produtividade). Nessas condições, a introdução de reajustes salariais vinculados ao custo de vida não produzirá qualquer efeito, pois os empregadores apenas concederão, sob a denominação de reajuste por custo de vida, parte dos aumentos salariais que, de qualquer forma, já concederiam em decorrência da competição pela mão de obra.

Admitindo-se que o valor das importações corresponda a um quinto da renda nacional, somente quando a taxa anual de variação dos preços das importações exceder, em mais de cinco vezes a taxa de crescimento da produtividade, a taxa de aumento dos salários que resultaria da competição entre os empregadores é que os reajustes vinculados ao custo de vida passam a exercer um papel efetivo no aumento da taxa de variação dos salários monetários. Assim, no exemplo apresentado acima, uma taxa de crescimento dos preços das importações superior a 13% ao ano mais do que compensaria os efeitos do aumento da produtividade, fazendo com que os preços no varejo crescessem mais de 3% ao ano. Os reajustes por custo de vida conduziriam, então, a um aumento dos salários maior do que aquele que ocorreria apenas em razão da demanda dos empregadores por trabalho, o que provocaria um novo aumento dos preços no varejo. Desse modo, a rápida elevação dos preços das importações daria início a uma **espiral de salários e preços**, que continuaria até que a taxa de crescimento dos preços das importações caísse significativamente abaixo do valor crítico de aproximadamente 13% ao ano.

O objetivo do presente estudo é verificar se as evidências estatísticas sustentam a hipótese de que a taxa de variação dos salários monetários no Reino Unido pode ser explicada pelo nível de desemprego e pela taxa de variação do desemprego, exceto durante ou imediatamente após os anos em que ocorreu uma elevação muito rápida dos preços das importações e, caso essa hipótese seja confirmada, obter uma estimativa quantitativa da relação entre o desemprego e a taxa de variação dos salários monetários. Os períodos de 1861–1913, 1913–1948 e 1948–1957 serão analisados separadamente.

2. 1861–1913

O índice de Schlote dos preços médios das importações¹ registra um aumento de 12,5% nos preços das importações em 1862 em relação ao ano anterior, um aumento de 7,6% em 1900 e em 1910, e um aumento de 7,0% em 1872. Em nenhum outro ano entre 1861 e 1913 houve um aumento dos preços das importações de até 5%. Se a hipótese apresentada acima estiver correta, a elevação dos preços das importações em 1862 pode ter sido suficiente para dar início a uma moderada espiral de salários e preços, mas, no restante do período, as variações nos preços das importações tiveram pouca ou nenhuma influência sobre a taxa de variação dos salários monetários.

[1]: W. Schlote, British Overseas Trade from 1700 to the 1930's, Tabela 26.


Um diagrama de dispersão da taxa de variação dos salários monetários e da taxa de desemprego para os anos de 1861 a 1913 é apresentado na **Figura 1**. Durante esse período ocorreram seis ciclos econômicos relativamente regulares, com duração média de aproximadamente oito anos. Os diagramas de dispersão correspondentes aos anos de cada ciclo econômico são apresentados nas **Figuras 2 a 8**. Cada ponto nos diagramas representa um ano, sendo a taxa média de variação dos salários monetários durante o ano indicada pela escala do eixo vertical, e a taxa média de desemprego durante o ano indicada pela escala do eixo horizontal.

A taxa de variação dos salários monetários foi calculada a partir do índice de salários por hora elaborado por Phelps Brown e Sheila Hopkins¹, expressando-se a **primeira diferença central** do índice de cada ano como porcentagem do índice correspondente ao mesmo ano. Assim, a taxa de variação para 1861 é definida como a metade da diferença entre o índice de 1862 e o índice de 1860, expressa como porcentagem do índice de 1861, e o mesmo procedimento foi adotado para os demais anos.² As taxas percentuais de desemprego são aquelas calculadas pelo **Board of Trade** e pelo **Ministry of Labour**² com base nos registros dos sindicatos. As correspondentes taxas percentuais de emprego encontram-se em Beveridge, *Full Employment in a Free Society*, Tabela 22.


[1]: PHELPS BROWN, E. H.; HOPKINS, Sheila. *The Course of Wage Rates in Five Countries, 1860–1939*. *Oxford Economic Papers*, jun. 1950.

[2]: Memoranda upon British and Foreign Trade and Industrial Conditions (Second Series) (Cd. 2337). *British Parliamentary Papers* (B.P.P.), 1905, v. 84; *21st Abstract of Labour Statistics, 1919–1933* (Cd. 4625). *British Parliamentary Papers* (B.P.P.), 1933–1934, v. 26.
















Pode-se observar, pelas Figuras 2 a 8, uma clara tendência de a taxa de variação dos salários monetários ser elevada quando o desemprego é baixo, e reduzida ou mesmo negativa quando o desemprego é elevado. Observa-se também uma nítida tendência de que, para qualquer dado nível de desemprego, a taxa de variação dos salários monetários seja superior à média correspondente àquele nível de desemprego quando o desemprego está diminuindo durante a fase de expansão do ciclo econômico, e inferior à média correspondente quando o desemprego está aumentando durante a fase de contração do ciclo econômico.

As cruzes apresentadas na Figura 1 representam os valores médios da taxa de variação dos salários monetários e da taxa de desemprego para os anos em que o desemprego se situou, respectivamente, entre 0% e 2%, 2% e 3%, 3% e 4%, 4% e 5%, 5% e 7% e 7% e 11% (incluindo-se o limite superior em cada intervalo). Como cada intervalo compreende tanto anos em que o desemprego estava aumentando quanto anos em que estava diminuindo, o efeito das variações do desemprego sobre a taxa de variação dos salários tende a ser eliminado por esse procedimento de cálculo da média. Assim, cada cruz fornece uma aproximação da taxa de variação dos salários que estaria associada ao nível de desemprego indicado, caso o desemprego permanecesse constante nesse nível.

A curva apresentada na Figura 1 (e reproduzida para fins de comparação nos diagramas posteriores) foi ajustada aos pontos médios representados pelas cruzes. A forma funcional escolhida foi

$$
y+a=bx^{c}
$$

ou

$$
\log(y+a)=\log b+c\log x,
$$

em que $y$ representa a taxa de variação dos salários monetários e $x$ a taxa de desemprego. As constantes $b$ e $c$ foram estimadas pelo método dos mínimos quadrados, utilizando-se os valores de $y$ e $x$ correspondentes às cruzes nos quatro intervalos de desemprego compreendidos entre 0% e 5%. A constante $a$ foi determinada por tentativa e erro, de modo a fazer com que a curva passasse o mais próximo possível das duas cruzes restantes, correspondentes aos intervalos de desemprego [3] entre 5% e 11%.

A equação da curva ajustada é

$$
y+0.900=9.638x^{-1.394}
$$

ou, de forma equivalente,

$$
\log(y+0.900)=0.984-1.394\log x.
$$

[3]: À primeira vista, pode parecer preferível realizar uma regressão múltipla de (y) sobre as variáveis (x) e (\frac{dx}{dt}). Contudo, em razão da forma particular da relação entre (y) e (x) no presente caso, não é fácil encontrar uma equação linear de regressão múltipla apropriada. Uma equação da forma

$$
y+a=bx^{c}+k\left(\frac{1}{x^{m}}\cdot\frac{dx}{dt}\right)
$$

provavelmente seria adequada. Se isso for verdade, o procedimento adotado para estimar a relação que prevaleceria entre (y) e (x) caso (\frac{dx}{dt}=0) é satisfatório, pois pode-se demonstrar facilmente que

$$
\frac{1}{x^{m}}\cdot\frac{dx}{dt}
$$

não é correlacionado nem com (x), nem com qualquer potência de (x), desde que (x) seja, como neste caso, uma variável sem tendência (trend-free variable).



Você tem razão. O texto original possui **dois parágrafos**, e eu deveria ter preservado essa estrutura. Segue a tradução mantendo os **dois parágrafos**:

Considerando as mudanças salariais em anos individuais em relação à curva ajustada, o aumento salarial em 1862 (ver Figura 2) é definitivamente maior do que aquele que pode ser explicado pelo nível de desemprego e pela taxa de variação do desemprego, e o aumento salarial em 1863 também é maior do que o esperado. Parece que o aumento de **12,5% nos preços de importação entre 1861 e 1862**, mencionado anteriormente (e sem dúvida relacionado à eclosão da Guerra Civil Americana), foi de fato suficiente para produzir um efeito real sobre as taxas salariais, ao provocar aumentos no custo de vida que foram superiores aos aumentos que teriam resultado da demanda dos empregadores por trabalho, e que a consequente espiral **salários-preços** continuou em 1863. Por outro lado, os aumentos nos preços de importação de **7,6% entre 1899 e 1900**, novamente entre **1909 e 1910**, e o aumento de **7,0% entre 1871 e 1872** não parecem ter tido qualquer efeito perceptível sobre as taxas salariais. Isso é consistente com a hipótese apresentada anteriormente sobre o efeito do aumento dos preços de importação sobre as taxas salariais.

A Figura 3 e as Figuras 5 a 8 mostram uma relação bastante clara entre a taxa de variação das taxas salariais e o nível e a taxa de variação do desemprego, mas essa relação praticamente não aparece no ciclo mostrado na Figura 4. O índice salarial de **Phelps Brown e Sheila Hopkins**, a partir do qual foram calculadas as mudanças nas taxas salariais, baseava-se no índice anterior de **Wood**, que mostra a mesma estabilidade durante esses anos. A partir de 1880, também temos o índice de taxas salariais de **Bowley**. Se a taxa de variação dos salários monetários para o período de **1881 a 1886** for calculada a partir do índice de Bowley pelo mesmo método utilizado anteriormente, obtêm-se os resultados mostrados na Figura 4a, que apresentam a relação típica entre a taxa de variação das taxas salariais e o nível e a taxa de variação do desemprego. Parece possível que alguma peculiaridade tenha ocorrido na construção do índice de Wood para esses anos. O índice de Bowley para o restante do período até 1913 apresenta resultados que são, de modo geral, semelhantes aos mostrados nas Figuras 5 a 8, mas o padrão é um pouco menos regular do que aquele obtido com o índice de Phelps Brown e Sheila Hopkins.

A partir da Figura 6, pode-se observar que as taxas salariais aumentaram mais lentamente do que o usual durante a expansão da atividade econômica entre **1893 e 1896**, retornando depois ao seu padrão normal de variação; porém, com um aumento temporário do desemprego durante **1897**. Isso sugere que pode ter havido uma resistência excepcional por parte dos empregadores aos aumentos salariais entre **1894 e 1896**, culminando em conflitos trabalhistas em 1897. Uma consulta à história industrial¹ confirma essa suspeita. Durante a década de 1890, houve um rápido crescimento das federações de empregadores e, entre **1895 e 1897**, ocorreu resistência por parte dessas federações às reivindicações dos sindicatos pela introdução de uma jornada de trabalho de **oito horas**, o que teria implicado um aumento das taxas salariais por hora. Isso resultou em uma greve da **Amalgamated Society of Engineers**, enfrentada pela **Federação dos Empregadores** com um *lockout* que durou até janeiro de 1898.

A partir da Figura 8, pode-se observar que a relação entre as mudanças salariais e o desemprego foi novamente perturbada em **1912**. A partir dos dados mensais de percentual de desemprego nos sindicatos², verificamos que o desemprego aumentou de **2,8% em fevereiro de 1912** para **11,3% em março**, retornando para **3,6% em abril** e **2,7% em maio**, como resultado de uma paralisação geral do trabalho na mineração de carvão. Se for feito um ajuste para eliminar o efeito da greve sobre o desemprego, o valor da taxa média percentual de desemprego durante 1912 seria reduzido em cerca de **0,8 ponto percentual**, restabelecendo o padrão típico da relação entre a taxa de variação das taxas salariais e o nível e a taxa de variação do desemprego.

Da comparação das Figuras 2 a 8, parece que a largura dos ciclos obtidos em cada ciclo econômico tendeu a se estreitar, sugerindo uma redução da dependência da taxa de variação das taxas salariais em relação à taxa de variação do desemprego. Há duas possíveis explicações para isso. Primeiro, nas indústrias de carvão e aço antes da Primeira Guerra Mundial, eram comuns os ajustes por **escala móvel** (*sliding scale adjustments*), pelos quais as taxas salariais eram vinculadas aos preços dos produtos.³ Dada a tendência de os preços dos produtos aumentarem com a expansão da atividade econômica e diminuírem com a retração da atividade econômica, esses acordos podem ter fortalecido a relação entre as mudanças nas taxas salariais e as mudanças no desemprego nessas indústrias. Durante os primeiros anos do período, essas indústrias teriam pesos relativamente elevados no índice salarial, mas, com a maior abrangência do material estatístico disponível nos anos posteriores, os pesos dessas indústrias no índice teriam sido reduzidos. Segundo, é possível que a diminuição da largura dos ciclos tenha resultado não tanto de uma redução da dependência das mudanças salariais em relação às mudanças no desemprego, mas sim da introdução de uma **defasagem temporal** na resposta das mudanças salariais às mudanças no nível de desemprego, causada pela expansão da negociação coletiva e, particularmente, pelo crescimento dos procedimentos de arbitragem e conciliação. Se tal defasagem temporal existisse nos anos posteriores do período, a mudança salarial em qualquer ano deveria estar relacionada não ao desemprego médio durante aquele ano, mas ao desemprego médio defasado em, talvez, vários meses. Isso teria o efeito de deslocar cada ponto nos diagramas horizontalmente em parte do caminho em direção ao ponto do ano anterior, e pode-se perceber facilmente que isso ampliaria os ciclos nos diagramas. Esse fato torna difícil distinguir com precisão entre o efeito das defasagens temporais e o efeito da dependência das mudanças salariais em relação à taxa de variação do desemprego.

3. 1913-1948

A





4. 1948-1957











terça-feira, 14 de julho de 2026

Economia Pós-Keynesiana - Marc Lavoie

1. Fundamentos da economia heterodoxa e pós-keynesiana

1.1 A NECESSIDADE DE UMA ALTERNATIVA

1.1.1 Ventos de Mudança

Há pouco mais de uma década, o mundo ocidental foi atingido pela Crise Financeira Global. Desde então, surgiu uma multiplicidade de iniciativas lideradas por estudantes com o objetivo de ampliar o leque de teorias e abordagens econômicas às quais os estudantes de economia podem ter acesso. Os estudantes franceses, que já haviam iniciado um movimento de protesto em 2000, voltaram a se mobilizar com o Peps-économie (2013). Eles contribuíram para lançar um apelo internacional em favor de um maior pluralismo no ensino da economia, o ISIPE (International Student Initiative for Pluralism in Economics). Em seguida, surgiram outros movimentos estudantis, em particular o Rethinking Economics e o Exploring Economics, que disponibilizam informações e materiais sobre diversas teorias alternativas à economia dominante (mainstream). Também merecem destaque as atividades e conferências promovidas pelo Institute for New Economic Thinking (INET) e organizadas por meio das Young Scholar Initiatives (YSI), bem como organizações estudantis já existentes, como a OIKOS International, voltada para a sustentabilidade, que igualmente aderiram ao apelo por um maior pluralismo na economia. Todo esse movimento foi acompanhado por uma proliferação de escolas de verão que atraem grande número de participantes e que, durante alguns dias ou mesmo uma semana inteira, oferecem aos estudantes de pós-graduação formação em escolas alternativas de pensamento econômico.

A existência desses movimentos é uma prova de que muitos estudantes de economia desejam ir além do que normalmente lhes é ensinado na maioria dos departamentos de economia e estão cada vez mais conscientes de que existem alternativas. Ao mesmo tempo, isso também demonstra que, no meio acadêmico, pouca coisa mudou, exceto por algumas inclusões marginais nos currículos.

Em alguns casos, os acontecimentos fora do meio acadêmico têm sido mais animadores, especialmente no âmbito dos bancos centrais e das organizações internacionais. A crise levou à reconsideração de muitos dogmas da teoria macroeconômica e monetária. Mais importante ainda, ela levou alguns pesquisadores de grandes organizações internacionais a questionarem toda a sua orientação filosófica. A **Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)** criou a iniciativa **New Approaches to Economic Challenges (NAEC)**, que abre mais espaço para perspectivas alternativas. O **Fundo Monetário Internacional (FMI)**, por sua vez, foi criticado por seu **Escritório Independente de Avaliação (Independent Evaluation Office)** devido à sua visão estreita (*tunnel vision*) e, como consequência, passou a dar maior espaço às críticas internas. Como exemplo, **Ostry et al. (2016)**, em uma publicação do FMI voltada a um público amplo, questionam se as políticas neoliberais não teriam sido excessivamente promovidas. Os autores examinam duas políticas neoliberais tradicionais voltadas para a promoção do crescimento de longo prazo: a primeira é a austeridade fiscal, isto é, a tentativa de reduzir os déficits fiscais e a dívida pública, sobretudo por meio da redução dos gastos do governo (a chamada consolidação fiscal "expansionista"); a segunda é a eliminação das restrições à mobilidade internacional de capitais. O argumento dos autores é que essas duas políticas não aumentaram o crescimento econômico e, além disso, contribuíram para elevar a desigualdade de renda e de riqueza. Ostry et al. (2016, p. 38) concluem que, **"em vez de promover o crescimento, algumas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade, comprometendo, por sua vez, uma expansão econômica duradoura"**. Trata-se de uma mudança de posição bastante significativa.

Os banqueiros centrais também revisaram suas posições, reconhecendo agora que o regime de metas de inflação não constitui uma solução universal e que podem ter superestimado sua capacidade de influenciar a economia. Alguns bancos centrais, como o **Banco da Reserva da Nova Zelândia**, pioneiro na adoção do regime de metas de inflação, passaram a adotar um mandato duplo ou uma versão mais flexível desse regime. Além disso, diversos bancos centrais, em particular o **Banco da Inglaterra**, têm criticado a teoria monetária convencional apresentada nos livros-texto, como a narrativa do multiplicador monetário e a teoria quantitativa da moeda, passando a explicar o processo de oferta de moeda de maneira semelhante àquela defendida pelos pós-keynesianos ao longo dos últimos cinquenta anos.

Sob a pressão de alguns banqueiros centrais, diversos componentes que antes eram considerados indispensáveis na teoria macroeconômica passaram a ser questionados: a hipótese das expectativas racionais; a versão forte ou semiforte da hipótese dos mercados eficientes; a hipótese de eficiência não viesada (*unbiased efficiency hypothesis*) em finanças internacionais; a hipótese de perfeita substituibilidade entre ativos; o teorema da equivalência ricardiana de Barro; a ideia de contrações fiscais expansionistas, baseada na chamada *fada da confiança* (*confidence fairy*); a taxa natural de desemprego e sua versão expressa pela **NAIRU**, concebidas como um atrator único (ou mesmo variável ao longo do tempo) da taxa efetiva de desemprego; a curva de Phillips vertical de longo prazo; e até mesmo a curva de Phillips de curto prazo com inclinação negativa (Lavoie, 2018). A Crise Financeira Global minou profundamente essas hipóteses e pressupostos, pois, como destacou durante algum tempo uma nota na página do *Financial Times*, **"a crise de crédito destruiu a confiança na ideologia do livre mercado que dominou o pensamento econômico ocidental por uma geração"**.

Além disso, o advento da crise da COVID-19, que levou os governos a incorrerem em déficits expressivos para sustentar a atividade econômica e o poder de compra das famílias, modificou profundamente, ainda que temporariamente, as atitudes em relação aos déficits e às dívidas públicas. Economistas e o público em geral passaram a perceber que o aumento da relação dívida/PIB e a ocorrência de elevados déficits fiscais não provocaram a elevação das taxas de juros. Enquanto antes prevalecia o consenso de que a política monetária era praticamente onipotente e que a política fiscal deveria limitar-se a buscar o equilíbrio orçamentário, passou a haver um reconhecimento de que a política fiscal é um instrumento poderoso, sobretudo quando conta com o apoio das autoridades monetárias. Nesse contexto, os esforços persistentes dos defensores da **Teoria Monetária Moderna (Modern Monetary Theory – MMT)** para convencer seus pares e o público em geral de que os governos emissores de moeda dispõem de ampla margem financeira para implementar políticas expansionistas certamente contribuíram para enfraquecer a chamada **fobia dos déficits** (*deficit phobia*).

1.1.2 Retratação

Os críticos da economia convencional há muito tempo argumentam que as regulamentações e as políticas econômicas implementadas com o avanço da liberalização da economia foram fundamentadas em teorias econômicas equivocadas e que, por isso, deveriam ser abandonadas. Contudo, com a eclosão da Crise Financeira Global e, posteriormente, dos acontecimentos associados à crise da COVID-19, diversos antigos defensores da economia dominante (*mainstream*) mudaram de posição e passaram a dirigir críticas contundentes à teoria econômica convencional.

Talvez a retratação mais imediata e surpreendente tenha sido a de **Richard Posner**, juiz e professor sênior da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago. Posner foi um firme defensor dos mercados livres e da ideologia de **Milton Friedman**. Em seu livro *The Failure of Capitalism*, Posner (2009a) sustenta que a desregulamentação foi longe demais e que os mercados financeiros precisam ser fortemente regulados, uma vez que o sistema bancário possui uma importância sistêmica que outros setores da economia não apresentam. Em um artigo publicado posteriormente, de título provocativo — *How I Became a Keynesian* ("Como me tornei keynesiano") —, Posner (2009b) foi ainda mais longe ao afirmar que **"desde setembro [de 2008] aprendemos que a atual geração de economistas não conseguiu compreender como a economia funciona"**. Para Posner, a *Teoria Geral* de Keynes, apesar de sua aparente antiguidade, continua sendo o melhor guia para compreender a crise. Robert Skidelsky (2009, p. x), biógrafo e historiador de Keynes, chegou a afirmar que, para compreender a economia, era melhor não ser um economista profissional, pois isso teria a vantagem **"de não ter sido doutrinado a enxergar o mundo da forma como a maioria dos economistas o vê"**.

A crítica mais contundente à teoria macroeconômica dominante, vinda do próprio campo ortodoxo, talvez tenha sido formulada por **Willem Buiter**, ex-membro do Comitê de Política Monetária do **Banco da Inglaterra** e reconhecido crítico da hipótese das expectativas racionais desde seus primeiros anos. Em um blog que se tornou amplamente conhecido, Buiter (2009) escreveu que **"a formação típica em macroeconomia e economia monetária oferecida nos programas de pós-graduação das universidades anglo-americanas ao longo dos últimos trinta anos pode ter atrasado em décadas as investigações sérias sobre o comportamento agregado da economia e a compreensão necessária para a formulação de políticas econômicas"**. Buiter (2009) referia-se aos modelos fundamentados na **Nova Economia Clássica** e na **Nova Economia Keynesiana**, afirmando que esse tipo de modelagem não oferece qualquer explicação sobre **"como a economia funciona — muito menos sobre como ela funciona em períodos de tensão e instabilidade financeira"**.

Além de economistas heterodoxos, como **Servaas Storm (2021a)**, que considera esse tipo de modelagem digno de figurar em um **"Museu dos Modelos Econômicos Improváveis"**, diversos laureados com o Prêmio Nobel têm dirigido severas críticas ao principal instrumento da macroeconomia dominante: o modelo de **Equilíbrio Geral Dinâmico Estocástico (Dynamic Stochastic General Equilibrium – DSGE)**. **Robert Solow**, frequentemente apontado como o precursor dos modelos DSGE em razão de seu célebre modelo neoclássico de crescimento de 1956, também repudiou esses modelos, afirmando que seus fundamentos constituem uma **"macroeconomia estúpida e mais estúpida ainda"** (*dumb and dumber macroeconomics*) (Solow, 2003) e que a incorporação de fricções mais realistas não os torna mais plausíveis (Solow, 2008, p. 244). Para Solow, portanto, os esforços recentes dos defensores dos modelos DSGE para introduzir refinamentos cada vez mais complexos não os tornam melhores nem mais realistas. De forma igualmente contundente, **Joseph Stiglitz (2015, p. 43)** argumenta que a macroeconomia teve um desempenho insatisfatório ao longo dos anos, pois **"os modelos e teorias que orientaram a formulação de políticas não foram meros espectadores inocentes da crise iniciada em 2008; eles desempenharam um papel fundamental tanto na criação da crise quanto nas respostas inadequadas que lhe foram dadas"**. Já **Paul Romer (2016, p. 1)**, ex-economista-chefe do Banco Mundial, provocou grande repercussão ao afirmar que havia observado **"mais de três décadas de regressão intelectual"** na macroeconomia, acrescentando que ela havia se transformado em uma **"pseudociência"**, dirigindo suas críticas explicitamente à obra de **Robert Lucas** e dos economistas da **Nova Economia Clássica**.