sábado, 25 de abril de 2026

Microeconomia Marxista e Sraffiana


Capítulo 01 - Introdução

1.1 Uma microeconomia heterodoxa

Este livro foi concebido para servir de complemento a um curso de microeconomia básica ou avançada que tenha como base um livro-texto marginalista ou neoclássico. A teoria neoclássica ensinada nas carreiras de Economia cobre os seguintes tópicos: preferências e utilidade, teoria da firma e produção, análise de equilíbrio parcial e geral (este último em modelos de troca pura ou com produção). A isso se somam modelos de incerteza, informação imperfeita, modelos de concorrência não perfeita (monopólio, monopsônio, oligopólio, concorrência monopolística), externalidades, bens públicos, temporalidade e modelos de teoria dos jogos.

O conteúdo é bastante abrangente e muito útil para entender o comportamento individual maximizador, bem como para modelar uma economia capitalista com indivíduos que maximizam sua utilidade e/ou lucros. Veja-se, por exemplo, Mas-Colell, Whinston e Green (1995), Varian (2015) e Jehle e Reny (2011) como livros-texto representativos. Não faremos uma distinção histórica ou teórica entre os termos marginalista e neoclássico e, em todo caso, nos referimos ao conjunto de modelos encontrados nos livros-texto mencionados anteriormente. O tópico central deste livro é a análise do valor e da distribuição no chamado núcleo de uma economia (veja-se a discussão em Garegnani, 1984) com base na consideração dos economistas clássicos. Em particular, este livro estuda os chamados modelos sraffianos e marxistas. Enquadramos esses modelos sob o rótulo de heterodoxos, embora este último termo seja mais abrangente, incluindo modelos pós-keynesianos, sobretudo kaleckianos (veja-se a discussão nos capítulos introdutórios de Lavoie, 2009, 2014). Os livros que cobrem tópicos semelhantes e dos quais este livro se nutre são os textos clássicos de Piero Sraffa (Sraffa, 1960) e Karl Marx (Marx, 1894), e os estudos específicos sobre a matéria de Sweezy (1942), Morishima (1973, 1989), Pasinetti (1977, 1980), Steedman (1977), Roemer (1981), Mainwaring (1984), Petri (1989), Woods (1990), Kurz e Salvadori (1995), Abraham-Frois e Berrebi (1997) e Fiorito (2019), entre outros.

Esses modelos se diferenciam em dois grandes pontos em relação aos modelos neoclássicos ou marginalistas. Primeiro, na determinação dos preços; pode-se pensar que o livro estuda a determinação dos preços de uma forma alternativa aos modelos de equilíbrio geral walrasianos ou competitivos estáticos, desenvolvendo, em particular, a teoria dos preços de produção. Segundo, na determinação da taxa de lucro a partir do conceito de excedente e de exploração, e não como remuneração a um "fator capital".

1.2 A teoria dos preços

Em linha com a definição de Lionel Robbins, para a teoria neoclássica, a ciência econômica é “a ciência que estuda o comportamento humano quanto à relação entre fins e meios escassos que possuem usos alternativos”. A oferta e a demanda, mediadas pelo custo de oportunidade e pelas preferências, respectivamente, são os principais determinantes dos preços dos bens. A escassez desempenha um papel central para explicar os preços de bens não reproduzíveis (ex: uma pintura original). Se tivermos dotações que caem do céu, e que se distribuem de forma arbitrária, a troca desses bens será regulada pelas preferências dos indivíduos. Alfred Marshall analisa este aspecto enfatizando seu aspecto temporal: tal análise corresponde a um “período curto” onde predomina a demanda. A quantidade é considerada fixa, e resta apenas limpar o mercado por meio do preço. E o que determinará seu valor de troca será, então, sua escassez. Podemos, assim, pensar que a determinação última do valor na teoria marginalista corresponde às preferências dos diferentes indivíduos.

No entanto, a determinação de preços para bens reproduzíveis (as chamadas mercadorias) não se encaixa sem fissuras na análise walrasiana e marshalliana. Na teoria clássica, os preços das mercadorias reproduzíveis são determinados pela complexidade do processo produtivo e pela distribuição do excedente. As preferências dos consumidores desempenham um papel secundário. Nos modelos sraffianos e marxistas, assume-se (a princípio) que a economia se reproduz em escala invariante em todos os períodos, no que se costuma chamar de reprodução simples. Os preços devem ser determinados simultaneamente como produtos e insumos, dada uma determinada relação de forças entre classes para ficar com mais ou menos excedente. Se não houver limites à reprodução, não está claro que a escassez e a utilidade marginal decrescente possam explicar os preços das mercadorias.

O anterior não implica que não se deva considerar a escassez e as preferências dos indivíduos. A diferença é que isso é considerado de uma maneira complementar ao modelo de reprodução simples, como um apêndice ao modelo básico. Em particular, os modelos de renda diferencial (Quadrio Curzio e Pellizzari, 1999) estudam o mesmo problema da escassez com ferramentas alternativas.

1.3 A teoria do lucro

A teoria neoclássica considera que o preço é também a soma das retribuições de diferentes fatores de produção, entendidos em um sentido amplo. Isto é, deve-se levar em conta todo o esforço dos sujeitos envolvidos no processo de produção. Nestas duas citações de Marshall, toda a teoria neoclássica da formação do lucro poderia ser exposta. Esta nada mais é do que a soma do esforço de todas as partes que intervêm no processo de produção. “Não é verdade que a fiação de algodão em uma fábrica, após descontar o desgaste do maquinário, seja o produto do trabalho dos operários. É o produto de seu trabalho, conjuntamente com o do patrão e dos diretores subordinados a este, e do capital empregado, e este é o produto do trabalho e da espera” (Marshall, 1890, p. 482). “... Se é verdade que o adiamento de satisfações supõe, em geral, um sacrifício por parte de quem as aplica, assim como um esforço adicional por parte de quem trabalha, e se é verdade que este adiamento permite ao homem utilizar métodos de produção cujo custo primário é grande, mas mediante os quais o gozo total é aumentado, como aconteceria mediante um aumento de trabalho, não pode ser verdade que o valor de uma coisa dependa apenas da quantidade de trabalho gasto nela” (ibidem, p. 483). E, certamente, tudo tem um preço, cuja magnitude nada mais é do que o resultado da interação da oferta e da demanda. Tal preço expressa as relações marginais de substituição, ou seja, o valor de troca na margem.

Podemos identificar três modelos para explicar o lucro ou o benefício na teoria neoclássica [1]. 

(Nota 1: Ver Howard (1983) para uma discussão sobre as diferentes teorias do lucro e Dobb (1973) para uma discussão sobre como estas se relacionam com a distribuição de renda).

I. Por um lado, a remuneração aos proprietários do capital entendido como meios de produção. Em uma economia de propriedade privada, se a produção necessita de um elemento sobre o qual existem direitos de propriedade claros, o lucro é a remuneração exigida pelo proprietário para que esses elementos sejam disponibilizados para o processo de produção. Esta análise é determinada majoritariamente em uma economia de troca, e a transição para uma de produção não apresenta grandes diferenças conceituais. “Agora devemos levar em conta o fato de que às vezes podem obter novas mercadorias de forma diferente: por meio de transformação técnica, ou produção. É evidente que não adotarão este método a menos que seja mais benéfico do que a simples troca; isto quer dizer que só será vantajoso converter um grupo de bens trocáveis em outro grupo por meio da produção, se o grupo adquirido tiver um valor de mercado superior ao do grupo que é entregue” (Hicks, 1939, p. 86). Esta nada mais é do que uma reafetação dos bens existentes de tal forma que a utilidade resultante seja maior que a soma de seus componentes. E isso pressupõe quebrar a unicidade do sujeito-consumidor maximizador na troca para integrar a “classe dos empresários”, que se distingue do anterior unicamente pelas qualidades dos bens que troca e sobre os quais detém propriedade exclusiva. O empresário “adquire fatores e vende produtos; sua finalidade consiste em levar ao máximo a diferença entre o valor de ambos”. Ele se converterá a tal classe se decidir usar os recursos na produção de forma que lhe reste um excedente positivo. “Além dos fatores adquiridos no mercado, uma empresa pode utilizar também fatores fornecidos pelo próprio empresário” (ibidem, p. 87). Este ponto é essencial para considerar o surgimento do lucro do empresário como proprietário de um “fator capital”, neste caso como um fator (bem) adicional. Neste mesmo marco entra a renda da terra, já que é um fator necessário para a produção.

II. Outra explicação é a remuneração à espera. Sendo proprietários de algo necessário para a produção, entende-se que se remunera o sacrifício de não desfrutar do gozo imediato que seu consumo geraria. Por outro lado, processos que levam mais tempo são, em geral, mais produtivos. Uma conjunção de ambas as formas de considerar que o tempo exige uma remuneração faz parte da explicação do lucro. Wicksell (1901), seguindo Eugen von Böhm-Bawerk, expõe claramente esta concepção: a capacidade criativa do capital deve ser encontrada no elemento tempo. Este pressupõe dois fatores originais: o homem e a natureza (trabalho e terra). “A produtividade de ambos torna-se maior se forem empregados para fins mais distantes do que se forem empregados para a produção imediata de mercadorias” (Wicksell, 1901, p. 150). “O capital é trabalho poupado e terra poupada” (ibidem, p. 154).

III. Finalmente, podemos considerar o lucro como remuneração ao risco. O lucro se realiza (ou não) na circulação caso os palpites dos empresários correspondam efetivamente à valorização da sociedade. Segundo Knight (1921), o produtor assume a responsabilidade de prever as necessidades dos consumidores. E este risco tem seu preço: o lucro do empresário ou seu “salário”. Para Schumpeter (1939), é esta busca incessante por lucros extraordinários que leva ao progresso do capitalismo, graças à inovação (não sem antes passar por processos destrutivos de valor). A teoria neoclássica pressupõe esta separação, já que a otimização delimita as funções de cada um. Esta análise pressupõe direitos de propriedade sobre tais capacidades e sobre os frutos dos ganhos associados à inovação. A relação jurídica que se apresenta então como condição necessária para que exista um fator remunerado desta maneira é a propriedade privada.

Marx considera que as explicações anteriores, em qualquer um de seus formatos, correspondem à “tendência apologética de apresentar o lucro, não como mais-valia, isto é, como trabalho não pago, mas como um salário recebido pelo próprio capitalista em troca do trabalho realizado por ele” (Marx, 1894, p. 371). “O desdobramento do lucro em benefício do empresário e juro levam a termo a substantivação da forma da mais-valia, a cristalização de sua forma frente à sua substância, ao seu ser” (ibidem, p. 767).

O produto bruto de uma economia possui duas partes fundamentais. Por um lado, aquela parte que deve ser reutilizada para continuar o processo produtivo, que inclui os insumos necessários para o ciclo produtivo e o consumo dos trabalhadores, que poderíamos considerar também como parte destes requisitos (ou seja, para a reprodução da força de trabalho). Por outro lado, o chamado excedente ou produto líquido, que se destina ao consumo dos proprietários dos meios de produção ou para expandir as capacidades produtivas (investimento). Uma economia pode ser analisada com base nestes dois componentes quanto à sua magnitude e em como se distribui entre determinadas classes ou grupos. Neste caso, o que mais interessa é a distribuição entre os proprietários dos meios de produção que adiantam seu capital (capitalistas) e os trabalhadores que possuem apenas sua força de trabalho. Neste ponto, há uma discrepância colossal entre a teoria neoclássica, com sua abordagem atomística, e a análise de classes da teoria clássica.

Segundo Garegnani (1984), a abordagem baseada no excedente (surplus approach) é o ponto de partida correto para uma análise econômica do valor e da distribuição. Tanto os modelos sraffianos quanto os marxistas têm como fundamento que os lucros são resultado deste excedente, entendido como a diferença entre os requisitos para produzir e o produto total. A teoria econômica clássica deve estudar como, através de uma economia capitalista, onde as mercadorias são trocadas livremente no mercado usando preços, se explica a determinação conjunta dos preços e das variáveis que compõem a distribuição do excedente.

1.4 Diferenças epistemológicas

Seguindo Lavoie (2009, cap. 1), podemos caracterizar outras diferenças epistemológicas entre a microeconomia heterodoxa e a neoclássica. Nas seções anteriores, sinalizamos as diferenças entre análises centradas na escassez vs. aquelas centradas na produção ou reprodução. A seguir, são assinaladas outras diferenças.

Individualismo vs. holismo. A visão neoclássica baseia-se em um individualismo metodológico onde o indivíduo autônomo e soberano é o centro da análise. Os mercados não são mais do que a soma das contribuições individuais, mesmo considerando as potenciais interações e comportamentos estratégicos. Cabe destacar que, se assumirmos heterogeneidade entre os indivíduos, os componentes agregados herdam poucas atribuições dos elementos individuais, com o que, mesmo quando se justifica a necessidade de agregar indivíduos, em geral há um corte metodológico ao passar do indivíduo ao fenômeno social. No enfoque heterodoxo, no entanto, assume-se que os indivíduos, como seres sociais, pertencem a entidades (classes, instituições, etc.) das quais não necessariamente se pode estabelecer uma derivação metodológica. O todo é mais do que a soma das partes. Estas entidades não são imperfeições do ideário de um mercado atomizado, mas parte central do sistema econômico, proporcionando estabilidade e estrutura. Podemos chamar a visão heterodoxa de holística ou organicista.

O princípio da uniformidade. A partir da análise heterodoxa, assume-se que os produtos são trocados por meio de preços que são consistentes com a reprodução simples e com uma determinada distribuição do excedente entre as classes sociais, em particular, trabalhadores e capitalistas, agregando depois os donos dos fatores fixos (terra). Estes preços são os mesmos para todas as unidades produzidas. Vamos considerar, assim, uma economia no longo prazo, ou equilíbrio, ou também chamado centro de gravidade, onde vamos assumir uma taxa de lucro e salários para trabalho homogêneo uniforme entre todos os setores. Se não houvesse uniformidade, haveria mobilidade de capitais e trabalhadores entre setores em busca de maiores benefícios ou salários. Para que este processo funcione, assume-se livre mobilidade de capitais e trabalhadores, e ausência de barreiras à entrada (ver a discussão de Petri (1989) e Kurz e Salvadori (1995)). Os preços das mercadorias que cumprem estas condições de uniformidade denominam-se preços naturais, preços normais ou também preços de produção. Estes preços são concebidos como valores teóricos e, como tais, distintos dos preços observados em cada momento do tempo, que são chamados preços de mercado.

Racionalidade substantiva. A microeconomia neoclássica parte do pressuposto que estabelece que os indivíduos são dotados de uma racionalidade substantiva. A maioria dos desenvolvimentos baseia-se em um processo de maximização ou otimização, fazendo uso frequente desta racionalidade. No enfoque heterodoxo, a racionalidade expressa desta maneira não desempenha um papel tão central. No entanto, embora em muitos casos não se considere explicitamente o processo de otimização que se atribui a todos os atores econômicos (um tema muito importante na teoria neoclássica), a uniformidade nos modelos heterodoxos assume que, implicitamente, os indivíduos estão maximizando lucros e/ou bem-estar. As firmas que compõem os setores fluem em busca dos maiores ganhos, entendidos estes como uma porcentagem que se aplica ao capital investido. Por outro lado, os trabalhadores também se mobilizam para encontrar o melhor salário, dado seu esforço. Finalmente, consideramos que os consumos observados são também resultado de um processo de otimização, dentro das possibilidades técnicas da economia. Então não é, como muitas vezes se argumenta, que a teoria sraffiana e marxista não têm um processo de otimização adequado, mas, pelo contrário, este desempenha um papel central na determinação do equilíbrio. No entanto, ao não partir de processos de maximização individuais que são agregados, esta não é explicitada.

Atitude perante o mercado. A maioria dos modelos neoclássicos pressupõe que o melhor resultado é alcançado com a livre empresa e o laissez-faire, e que, para isso, o livre mercado e a concorrência pura são a melhor opção. Nos modelos heterodoxos, em particular nos sraffianos e marxistas, o livre mercado não tem associado resultados de eficiência. A concorrência é assumida como uma característica dada de uma economia capitalista. Neste livro, não vamos considerar diferenças no poder de mercado das firmas (ex: monopólio, oligopólio), embora isso desempenhe um papel central na análise neoclássica e na kaleckiana. A posição de longo prazo que se assume nos modelos analisados aqui implicitamente assume que posições de mercado monopólicas ou oligopólicas são suscetíveis de desaparecer eventualmente.

1.5 Percurso deste livro

Os primeiros capítulos desenvolvem o modelo clássico de preços de produção em sua versão sraffiana. O Cap. 2 começa com uma análise do efeito das condições técnicas sobre os modelos de reprodução simples e os limites da taxa de lucro. Neste capítulo, surge um conceito central: o de excedente. O Cap. 3 considera explicitamente a distribuição entre trabalho e capital, ou melhor, entre os capitalistas e os trabalhadores. Estes dois primeiros capítulos baseiam-se em um modelo de duas mercadorias, no qual se pode determinar analiticamente todos os preços e a relação entre a taxa de lucro e o salário. O Cap. 4 generaliza essa análise para uma quantidade genérica de mercadorias, desenvolvendo a ideia da mercadoria padrão. O Cap. 5 analisa uma economia com mais de uma técnica, dando lugar a uma discussão sobre o conceito de capital (com base na Controvérsia do Capital de Cambridge), focando particularmente nos efeitos de preço e reais de Wicksell.

Os capítulos 6 e 7 desenvolvem o modelo marxista em termos da centralidade do valor-trabalho. Diferentemente dos anteriores, utiliza-se uma cesta básica de mercadorias para determinar o salário real, modelo este também empregado nos modelos sraffianos e na concepção clássica da determinação salarial. A partir daí, definem-se os conceitos básicos de mais-valia e exploração, com destaque para o Teorema Fundamental Marxiano, que demonstra que não há lucro sem exploração. Dentro do marco marxista, debate-se a forma correta de realizar a conexão entre os valores-trabalho e os preços de produção, o que se denominou o problema da transformação.

Nos últimos capítulos, são consideradas extensões do modelo de reprodução simples. O Cap. 8 estuda modelos de produção conjunta, puros, de capital fixo e os de determinação de renda diferencial para fatores primários escassos. O Cap. 9 utiliza o modelo sraffiano básico incorporando preferências sobre os bens. Finalmente, o Cap. 10 apresenta uma aproximação simples a modelos de inflação baseados nestes esquemas econômicos, que dão lugar à chamada inflação por conflito distributivo (puja distributiva), típica dos modelos pós-keynesianos.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A Teoria Clássica do Crescimento e da Distribuição - Duncan K. Foley e Thomas R. Michl

2. A teoria clássica do crescimento e da distribuição
    2.1 Economia política clássica
    2.2 Teorias keynesianas de crescimento
    2.3 A relação entre a teoria clássica e a teoria keynesiana
    2.4 Teoria neoclássica do crescimento
    2.5 Crescimento econômico semiendógeno
    2.6 Crescimento econômico endógeno
    2.7 A relação entre as teorias clássica e neoclássica do crescimento


2. A teoria clássica do crescimento e da distribuição

1. Como o objetivo deste capítulo é situar a teoria clássica do crescimento econômico em relação tanto às teorias keynesianas quanto às teorias neoclássicas convencionais do crescimento, começamos com uma visão geral do problema antes de desenvolver os arcabouços teóricos e examinar suas inter-relações.

2. O crescimento econômico é o aumento cumulativo do poder produtivo do esforço de trabalho humano para atender às necessidades humanas, por meio de mudanças na escala e na tecnologia da produção, da aquisição de habilidades e conhecimentos e da acumulação de meios de produção, como ferramentas, edifícios e sistemas de transporte.

3. O crescimento econômico foi lento e irregular durante a maior parte da existência humana, até o surgimento do capitalismo industrial na Europa entre os séculos XIV e XVI d.C., embora a comparação entre os impérios romano ou chinês e as sociedades da Idade da Pedra mostre que um crescimento econômico substancial se acumulou ao longo de muitos milênios. Uma aceleração dramática do crescimento econômico mundial ocorreu a partir do final da Idade Média na Europa, espalhando-se por toda a economia mundial ao longo dos últimos 500 anos. O crescimento econômico nesse período baseia-se na organização de uma complexa divisão do trabalho por meio da troca de produtos como mercadorias compradas e vendidas em mercados monetizados, na difusão da instituição do trabalho assalariado livre, no estabelecimento de direitos de propriedade privada sobre os meios de produção, incluindo terra e recursos naturais, no surgimento de Estados nacionais fortes com sistemas legais e regulatórios eficazes e na aplicação sistemática de métodos científicos ao aprimoramento da tecnologia produtiva.

4. É útil classificar as teorias do crescimento econômico em termos do fator-chave que elas identificam como limitante ou restritivo do crescimento. Os principais candidatos a limitações ao crescimento são os recursos naturais (terra), os recursos humanos (trabalhadores qualificados e instruídos), os recursos produzidos (capital) e a demanda monetária agregada. Os primeiros economistas clássicos enfatizaram restrições que surgem naturalmente, como a disponibilidade limitada de terras férteis, mas seu arcabouço analítico concebe o crescimento como uma atividade autorregulada na ausência dessas restrições externas, limitada apenas pela capacidade da economia de produzir seus próprios recursos em escala ampliada. Essa visão do crescimento como uma espécie de operação de “autoimpulso” permanece viva entre os seguidores modernos dos economistas clássicos. Em menor grau, ela também influencia os teóricos do Novo Crescimento Endógeno que se afastaram do modelo neoclássico dominante. A teoria neoclássica dominante do crescimento considera os recursos humanos como a restrição última ao crescimento. Um princípio central da teoria neoclássica do crescimento é que as economias capitalistas empregam plenamente a força de trabalho disponível no longo prazo e que essa força de trabalho evolui independentemente do crescimento econômico. A ascensão da economia keynesiana no século passado introduziu uma nova possível restrição ao crescimento: o crescimento insuficiente da demanda agregada. Embora tanto os economistas clássicos modernos quanto os neoclássicos reconheçam essa restrição no curto prazo, uma importante corrente de teóricos do crescimento restringido pela demanda sustenta que a demanda agregada não pode ser ignorada, mesmo no longo prazo.

Economia política clássica

1. A economia política clássica, cujas figuras mais destacadas são Adam Smith, Thomas Malthus e David Ricardo, apoiando-se nos fundamentos analíticos fornecidos por seus predecessores fisiocratas, desenvolveu uma teoria abrangente do crescimento econômico no interior do arcabouço das instituições econômicas capitalistas. A base dessa teoria é a organização da produção por meio de uma divisão do trabalho sustentada pela troca de produtos em mercados. Por meio da propriedade dos meios de produção (fábricas, moinhos, minas, transporte), os capitalistas organizam o esforço produtivo de trabalhadores contratados por salários. Como os salários, em média, representam uma fração do produto real (e um valor monetário menor do que o valor total criado na produção), os capitalistas podem apropriar-se de um lucro. A concorrência entre capitalistas os leva a reinvestir uma grande parte desses lucros na expansão da produção, o que aumenta o emprego, amplia a divisão social do trabalho e eleva o poder produtivo do trabalho. Esse ciclo virtuoso explica o surto de crescimento econômico associado ao capitalismo industrial. Os capitalistas individuais também têm fortes incentivos para buscar inovações técnicas que reduzam custos, as quais garantem lucros acima da média aos primeiros adotantes. Assim, o capitalismo industrial institucionaliza o processo de mudança técnica, levando, eventualmente, à organização sistemática do esforço científico e de engenharia voltado para reduções estratégicas de custos na economia. Salários elevados tendem a direcionar a mudança técnica para inovações poupadoras de trabalho, que reduzem os custos do trabalho para os capitalistas.

2. Nessa perspectiva da economia política clássica, o crescimento da população humana é uma consequência do crescimento econômico. Na medida em que a acumulação de capital supera as inovações poupadoras de trabalho, a demanda por trabalho cresce, levando a salários mais altos e, consequentemente, ao aumento da população, ao reduzir a mortalidade infantil e atrair migração de regiões e sociedades menos produtivas. Melhorias na nutrição, no saneamento e nos cuidados médicos básicos que acompanham o capitalismo industrial também reduzem a mortalidade e aumentam a população.

3. A economia política clássica se divide quanto à projeção das tendências de longo prazo do crescimento econômico baseadas na acumulação de capital. Adam Smith previa uma elevação gradual dos salários acompanhando a produtividade do trabalho e esperava que a ampliação da divisão do trabalho e a engenhosidade técnica pudessem superar indefinidamente as limitações de recursos ao crescimento econômico. Thomas Malthus e David Ricardo enfatizaram os limites ao crescimento inerentes à oferta limitada de terra e de outros recursos naturais, que poderiam eventualmente sufocar o crescimento econômico por meio da atuação de rendimentos decrescentes que não poderiam ser compensados pela ampliação da divisão do trabalho e pela inovação técnica. Karl Marx, que baseou sua teoria da mudança revolucionária na análise clássica da acumulação de capital, previu limites ao crescimento econômico capitalista decorrentes das divisões de classe sobre as quais o capitalismo industrial se apoia, conduzindo a uma nova fase de crescimento econômico organizada sob o socialismo.

4. O fator regulador central na teoria do crescimento econômico dos economistas políticos clássicos é a divisão do valor criado (ou valor adicionado) na produção entre salários e lucros. Trajetórias de crescimento econômico nas quais a participação dos salários no valor adicionado cresce ou diminui continuamente não são sustentáveis. Se os salários crescem mais lentamente do que a produtividade do trabalho, a participação dos salários tende a zero, e as contradições sociais do capitalismo tornam-se incontroláveis à medida que a contribuição dos trabalhadores para a demanda agregada desaparece. Se os salários crescem mais rapidamente do que a produtividade do trabalho, a participação dos salários tende à unidade e a lucratividade da produção desaparece, levando consigo os incentivos para organizar e melhorar a produção que impulsionam o crescimento econômico. A taxa média de lucro, r, que regula o processo de crescimento econômico capitalista, pode ser expressa como o produto da participação dos lucros (que é um menos a participação dos salários, denotada pela letra grega w) multiplicada pela razão entre o valor adicionado e o valor do estoque de capital (às vezes chamada de produtividade do capital), denotada pela letra grega r:


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Inflação de Demanda - Anwar Shaikh

V. INFLAÇÃO DE DEMANDA (DEMAND-PULL) 

V. DEMAND-PULL

1. Excesso de demanda e injeções de poder de compra 

1. Excess demand and injections of purchasing power

1. Excess demand and injections of purchasing power Chapter 12, equation (12.2) showed that aggregate excess demand in the commodity market can be expressed as three sectoral balances: ED = (I – S) + (G – T) + (EX – IM). The present chapter focuses on the net addition to new aggregate purchasing power created through the financing of these three balances. In this regard, it is useful to analyze the corresponding flows in terms of uses and sources of funds. I will begin by assuming a closed economy, so that EX = IM = 0 and all uses and sources are initially domestic. Households use their money for consumption, additions to money balances and the acquisition financial assets (purchases of new equities and bonds from the business sector and government bonds), which they fund from household income and bank loans. Businesses make investment and additions to money balances, financed from private bank loans, retained earnings, and sale of equities and business bonds. Government uses its funds derived from central bank loans, tax revenues, and sales of business bonds on government spending and additions to money balances. In a growing economy, which is the normal case, this implies some corresponding growth in the money supply.

1. O Capítulo 12, equação (12.2), mostrou que o excesso de demanda agregada no mercado de mercadorias pode ser expresso como três balanços setoriais: ED = (I – S) + (G – T) + (EX – IM). O presente capítulo foca no acréscimo líquido ao novo poder de compra agregado criado por meio do financiamento desses três balanços. Nesse sentido, é útil analisar os fluxos correspondentes em termos de usos e fontes de recursos. Começarei assumindo uma economia fechada, de modo que EX = IM = 0 e todos os usos e fontes sejam inicialmente domésticos. As famílias usam seu dinheiro para consumo, acréscimos aos saldos monetários e aquisição de ativos financeiros (compras de novas ações e títulos do setor empresarial e títulos governamentais), os quais financiam a partir da renda familiar e de empréstimos bancários. As empresas realizam investimentos e acréscimos aos saldos monetários, financiados por empréstimos bancários privados, lucros retidos e venda de ações e títulos empresariais. O governo utiliza seus fundos — derivados de empréstimos do banco central, receitas fiscais e vendas de títulos empresariais — em gastos governamentais e acréscimos aos saldos monetários. Em uma economia em crescimento, que é o caso normal, isso implica algum crescimento correspondente na oferta de moeda.

2. The question of new purchasing power can be stated in terms of the three aggregate balances. Household savings SH ≡ household income minus consumption = purchases of equities, business bonds and government bonds minus net additions to household debt in excess of additions to household money balances (new loans minus amortization on existing loans in excess of additions to money balances). Investment minus business savings (retained earnings SB) = sales of equities and bonds plus net new bank loans in excess of additions to business money balances. And government spending minus taxes = sales of government bonds plus net new government credit from the central bank in excess of additions to government money balances. The sum of the first two relations is (I – SH + SB) = (I – S) and the last is (G – T). If we consolidate these, the transfers of funds from one (non-financial) sector to another cancel out, as do their respective changes in money balances at a given money supply. This leaves net new domestic credit from private and central banks (ΔCRdom). However, only part of this goes into the purchases on new goods and services and new equity and bonds. The other portion goes into purchases of existing financial assets, homes, valuable objects, and so on. Since we are concerned here with the production of new goods and services, only the portion of new domestic credit (ΔCR'dom) that goes toward commodity expenditures is relevant. In a closed economy, it is this portion which constitutes new purchasing power (ΔPP):

ΔPP = ΔCRdom′ (clased economy)  (15.3)

2. A questão do novo poder de compra pode ser enunciada em termos dos três balanços agregados. A poupança das famílias (SH) ≡ renda familiar menos consumo = compras de ações, títulos empresariais e títulos governamentais menos os acréscimos líquidos à dívida das famílias que excedam os acréscimos aos saldos monetários das famílias (novos empréstimos menos a amortização de empréstimos existentes que excedam os acréscimos aos saldos monetários). O investimento menos a poupança empresarial (lucros retidos SB) = vendas de ações e títulos mais o novo crédito bancário líquido que exceda os acréscimos aos saldos monetários das empresas. E os gastos governamentais menos os impostos = vendas de títulos governamentais mais o novo crédito governamental líquido do banco central que exceda os acréscimos aos saldos monetários do governo. A soma das duas primeiras relações é (I–SH+SB) = (I–S) e a última é (G–T). Se consolidarmos estas relações, as transferências de recursos de um setor (não financeiro) para outro se cancelam, assim como suas respectivas mudanças nos saldos monetários para uma dada oferta de moeda. Isso deixa o novo crédito doméstico líquido de bancos privados e centrais (ΔCRdom). No entanto, apenas parte disso se destina à compra de novos bens e serviços e de novas ações e títulos. A outra porção destina-se à compra de ativos financeiros existentes, residências, objetos de valor e assim por diante. Como o foco aqui é a produção de novos bens e serviços, apenas a porção do novo crédito doméstico (ΔCRdom′) que se destina a gastos com mercadorias é relevante. Em uma economia fechada, é esta porção que constitui o novo poder de compra (ΔPP):

ΔPP = ΔCR'dom (economia fechada)  (15.3)

3. In the case of an open economy, net income from abroad is a direct addition to household and business income (which I will take as going largely to commodity expenditures) and the trade balance is a direct net injection of purchasing power into the commodity market. The sum of these two is the current account balance (CA). On top of this, households and businesses may engage in net borrowing from abroad, net purchases of foreign securities, and net depletions of their foreign money balances, each individual items being positive or negative. Once again, only part of this net financial inflow from abroad will fund commodity purchases rather than purchases of existing financial and real assets. Hence, the general source of excess demand in the commodity market is the portion of new domestic and foreign credit directed toward expenditures on commodities plus the current account balance of the external sector.

ΔPP = ΔCR'dom + ΔCR'externo + CA    (economia aberta)  (15.4)

3. No caso de uma economia aberta, a renda líquida do exterior é um acréscimo direto à renda das famílias e das empresas (a qual assumirei destinar-se em grande parte a gastos com mercadorias) e a balança comercial é uma injeção líquida direta de poder de compra no mercado de mercadorias. A soma desses dois elementos é o saldo em conta corrente ou balanço de transações correntes (CA). Além disso, as famílias e as empresas podem realizar empréstimos líquidos do exterior, compras líquidas de títulos estrangeiros e reduções líquidas em seus saldos monetários estrangeiros, sendo cada um desses itens individualmente positivo ou negativo. Novamente, apenas parte desse fluxo financeiro líquido do exterior financiará compras de mercadorias, em vez de compras de ativos financeiros e reais existentes. Portanto, a fonte geral de excesso de demanda no mercado de mercadorias é a porção do novo crédito doméstico e estrangeiro direcionada a gastos com mercadorias, somada ao balanço de transações correntes do setor externo

ΔPP = ΔCR'dom + ΔCR'externo + CA    (economia aberta)  (15.4)

4. Keynesian theory has long argued that the “rate at which [credit] is issued governs the growth in effective demand” (Moore 1988, 291). But the term “credit” must be understood here to encompass private and public creation of purchasing power, even though in the latter case the (electronic) printing of money is formally treated as new debt owed by the state to itself. The important point is that private banks have been able to create new aggregate purchasing power long before the advent of fiat money, within the limits of their ability to acquire the necessary backing. Fiat money frees the state from this technical constraint, so that it is not only able to greatly increase its own contribution to new purchasing power but also able to provide private banks with the necessary means to do much the same. Sraffa notes that in the classic cases of hyperinflation, “both monetary and bank inflation have created new purchasing power without a corresponding increase in the quantity of goods. On the contrary, while the quantity of goods probably declined, the result could not fail to be such a large price increase as to reestablish the balance between the total purchasing power and the quantity of available goods. In fact, in all countries a roughly proportional increase in the price level corresponded to the expansion of circulation” (Sraffa’s dissertation, cited in de Cecco 1993, 2).

4. A teoria keynesiana há muito argumenta que a "taxa na qual [o crédito] é emitido governa o crescimento da demanda efetiva" (Moore 1988, 291). Mas o termo "crédito" deve ser entendido aqui para abranger a criação privada e pública de poder de compra, embora, no último caso, a impressão (eletrônica) de dinheiro seja formalmente tratada como uma nova dívida devida pelo Estado a si mesmo. O ponto importante é que os bancos privados foram capazes de criar novo poder de compra agregado muito antes do advento do papel-moeda inconvertível (fiat money), dentro dos limites de sua capacidade de adquirir o lastro necessário. O papel-moeda inconvertível liberta o Estado dessa restrição técnica, de modo que ele não apenas é capaz de aumentar grandemente sua própria contribuição para o novo poder de compra, mas também é capaz de fornecer aos bancos privados os meios necessários para fazer o mesmo. Sraffa observa que, nos casos clássicos de hiperinflação, "tanto a inflação monetária quanto a bancária criaram novo poder de compra sem um aumento correspondente na quantidade de bens. Pelo contrário, embora a quantidade de bens provavelmente tenha declinado, o resultado não poderia deixar de ser um aumento de preços tão grande a ponto de reestabelecer o equilíbrio entre o poder de compra total e a quantidade de bens disponíveis. De fato, em todos os países, um aumento aproximadamente proporcional no nível de preços correspondeu à expansão da circulação" (dissertação de Sraffa, citada em de Cecco 1993, 2).



V.2. Novo poder de compra e a mudança no produto nominal