sábado, 20 de junho de 2026

O Papel da Política Monetária - Milton Friedman

O Papel da Política Monetária

Por Milton Friedman

Há amplo consenso quanto aos principais objetivos da política econômica: elevado nível de emprego, estabilidade de preços e crescimento acelerado. Há menos consenso sobre se esses objetivos são mutuamente compatíveis ou, entre aqueles que os consideram incompatíveis, acerca das condições sob as quais podem e devem ser substituídos uns pelos outros. O menor grau de consenso diz respeito ao papel que os diversos instrumentos de política econômica podem e devem desempenhar na consecução desses diferentes objetivos.

Meu tema desta noite é o papel de um desses instrumentos — a política monetária. O que ela pode contribuir? E como deve ser conduzida para contribuir da melhor maneira possível? As opiniões sobre essas questões oscilaram amplamente. No entusiasmo inicial em torno do recém-criado Sistema da Reserva Federal (Federal Reserve System), muitos observadores atribuíram a relativa estabilidade da década de 1920 à capacidade do Sistema de realizar ajustes finos (fine tuning, para usar uma expressão moderna apropriada). Passou-se a acreditar amplamente que uma nova era havia chegado, na qual os ciclos econômicos haviam se tornado obsoletos graças aos avanços da tecnologia monetária. Essa visão era compartilhada tanto por economistas quanto pelo público em geral, embora, naturalmente, houvesse algumas vozes discordantes. A Grande Contração destruiu essa atitude ingênua. A opinião então oscilou para o extremo oposto. A política monetária passou a ser vista como uma corda: podia-se puxá-la para conter a inflação, mas não empurrá-la para interromper uma recessão. Podia-se levar um cavalo até a água, mas não fazê-lo beber. Essa teoria formulada por meio de aforismos logo foi substituída pela análise rigorosa e sofisticada de John Maynard Keynes.

John Maynard Keynes ofereceu simultaneamente uma explicação para a suposta impotência da política monetária em combater a depressão, uma interpretação não monetária da depressão e uma alternativa à política monetária para enfrentá-la — e sua proposta foi avidamente aceita. Se a preferência pela liquidez for absoluta ou quase absoluta, como Keynes acreditava ser provável em períodos de elevado desemprego, as taxas de juros não podem ser reduzidas por medidas monetárias. Se o investimento e o consumo forem pouco afetados pelas taxas de juros — como Alvin Hansen e muitos dos discípulos americanos de Keynes passaram a acreditar —, taxas de juros mais baixas, mesmo que pudessem ser alcançadas, teriam pouca utilidade. Assim, a política monetária seria duplamente condenada. A contração econômica, desencadeada, nessa visão, por um colapso do investimento, por uma escassez de oportunidades de investimento ou por uma excessiva propensão à poupança, não poderia, argumentava-se, ter sido interrompida por medidas monetárias. Havia, contudo, uma alternativa disponível: a política fiscal. Os gastos do governo poderiam compensar a insuficiência do investimento privado, e as reduções de impostos poderiam enfraquecer essa persistente tendência à poupança.

A ampla aceitação dessas ideias na profissão econômica fez com que, durante cerca de duas décadas, a política monetária fosse considerada, por todos exceto alguns poucos espíritos reacionários, como tendo sido tornada obsoleta pelos novos conhecimentos econômicos. A moeda não importava. Seu único papel era o modesto de manter as taxas de juros baixas, a fim de reduzir os pagamentos de juros no orçamento governamental, contribuir para a “eutanásia do rentista” — expressão de John Maynard Keynes — e, talvez, estimular um pouco o investimento para auxiliar os gastos do governo na manutenção de um elevado nível de demanda agregada.

Essas ideias levaram à ampla adoção de políticas de dinheiro barato (cheap money policies) no pós-guerra. Contudo, elas sofreram um duro revés quando tais políticas fracassaram em país após país, e quando banco central após banco central foi forçado a abandonar a pretensão de que poderia manter indefinidamente “a” taxa de juros em um nível baixo. Nos Estados Unidos, o desfecho público desse processo ocorreu com o Federal Reserve–Treasury Accord, em 1951, embora a política de sustentação dos preços dos títulos públicos não tenha sido formalmente abandonada até 1953. A inflação, estimulada pelas políticas de dinheiro barato, e não a amplamente anunciada depressão do pós-guerra, acabou se tornando a característica predominante do período. O resultado foi o início de um renascimento da crença na eficácia da política monetária.

Esse renascimento foi fortemente impulsionado, entre os economistas, pelos desenvolvimentos teóricos iniciados por Gottfried Haberler, mas que ficaram conhecidos pelo nome de Arthur Cecil Pigou. Esses desenvolvimentos destacavam um canal — a saber, as variações da riqueza — por meio do qual mudanças na quantidade real de moeda podem afetar a demanda agregada, mesmo que não alterem as taxas de juros. Tais contribuições teóricas não invalidavam o argumento de John Maynard Keynes sobre a ineficácia das medidas monetárias ortodoxas quando a preferência pela liquidez é absoluta, pois, nessas circunstâncias, as operações monetárias usuais envolvem apenas a substituição de outros ativos por moeda, sem alterar a riqueza total. Contudo, elas mostravam que mudanças na quantidade de moeda produzidas por outros meios poderiam afetar o gasto total mesmo nessas condições. Mais fundamentalmente, esses desenvolvimentos enfraqueciam a principal proposição teórica de Keynes, a saber, a de que, mesmo em um mundo de preços flexíveis, poderia não existir uma posição de equilíbrio com pleno emprego. A partir de então, o desemprego voltou a ter de ser explicado por rigidezes ou imperfeições do sistema econômico, e não como o resultado natural de um processo de mercado plenamente operante.

O renascimento da crença na eficácia da política monetária também foi impulsionado por uma reavaliação do papel desempenhado pela moeda entre 1929 e 1933. John Maynard Keynes e a maioria dos economistas da época acreditavam que a Grande Contração nos Estados Unidos havia ocorrido apesar de políticas monetárias agressivamente expansionistas por parte das autoridades monetárias — ou seja, que elas haviam feito o melhor que podiam, mas que esse esforço não fora suficiente. Estudos posteriores demonstraram que os fatos eram precisamente o oposto: as autoridades monetárias norte-americanas adotaram políticas fortemente deflacionárias. A quantidade de moeda nos Estados Unidos caiu cerca de um terço ao longo da contração. E essa queda não ocorreu porque não houvesse tomadores de empréstimos dispostos a se endividar — não porque o cavalo se recusasse a beber água. Ela ocorreu porque o Sistema da Reserva Federal (*Federal Reserve System*) forçou ou permitiu uma forte redução da base monetária, deixando de cumprir as responsabilidades que lhe haviam sido atribuídas pelo Federal Reserve Act de prover liquidez ao sistema bancário. A Grande Contração constitui um testemunho trágico do poder da política monetária — e não, como Keynes e muitos de seus contemporâneos acreditavam, uma evidência de sua impotência.

Nos Estados Unidos, o renascimento da crença na eficácia da política monetária também foi fortalecido pela crescente desilusão com a política fiscal, não tanto em relação ao seu potencial para afetar a demanda agregada, mas quanto à viabilidade prática e política de utilizá-la com esse propósito. Os gastos públicos revelaram-se lentos para responder às tentativas de ajustá-los ao curso da atividade econômica e sujeitos a longas defasagens, de modo que a ênfase passou a recair sobre os impostos. Contudo, nesse campo, fatores políticos entraram em cena com toda força, impedindo ajustes rápidos às necessidades presumidas da economia, como foi ilustrado de forma particularmente clara nos meses que se seguiram à redação inicial desta conferência. A expressão *fine tuning* (“ajuste fino”) é extraordinariamente sugestiva nesta era eletrônica, mas guarda pouca semelhança com aquilo que é efetivamente possível na prática — o que, devo acrescentar, não é inteiramente algo ruim.

domingo, 31 de maio de 2026

Produtividade

Produtividade . . . é uma medida da eficiência com que os recursos são convertidos nos bens e serviços que as pessoas desejam. Solomon Fabricant, “Introdução”, em Kendrick (1961).

. . . a mensuração da produtividade consiste essencialmente em comparar produtos (outputs) com insumos (inputs), . . . Ross Gittins, “Productivity should be a spin-free zone”, The Sydney Morning Herald, 23–24 de junho de 2007.

Os ganhos de produtividade são o principal motor dos salários e dos padrões de vida. Sylvia Nasar, 2011, Grand Pursuit: The Story of Economic Genius (Fourth Estate, HarperCollins Publishers, Londres).

A medida tradicional do ritmo da inovação e da mudança tecnológica é a produtividade total dos fatores (PTF) (Total Factor Productivity – TFP) — isto é, o produto (output) dividido por uma média ponderada dos insumos de trabalho e capital. Robert J. Gordon (2016, p. 537).

1.1 As Origens de um Conceito

Como diversos estudiosos renomados já escreveram sobre a história da mensuração e da análise da produtividade, esta introdução pode ser breve. O leitor necessita apenas de informações suficientes para situar adequadamente o conteúdo deste livro. Para um exame mais detalhado, recomenda-se a consulta a Griliches (2001), cuja primeira seção é uma versão revisada de Griliches (1996) sobre “a descoberta do resíduo”; Hulten (2001); Grifell-Tatjé e Lovell (2015, Capítulo 1); e Grifell-Tatjé et al. (2018).

A primeira menção à variação da produtividade total dos fatores (PTF) como a razão entre um índice de quantidade de produto (output) e um índice de quantidade de insumos (inputs) aparece em uma contribuição de Copeland (1937) para aquilo que, em retrospecto, poderia ser chamado de abordagem da contabilidade da renda nacional. Impulsionados por instituições como o National Bureau of Economic Research, diversos estudos foram publicados no período pós-guerra, sendo Stigler (1947) um exemplo típico. Esses estudos tratavam principalmente de agregados setoriais ou da economia como um todo. Embora o índice de PTF fosse por vezes considerado uma medida da eficiência do processo econômico, a opinião predominante foi expressa de forma marcante por Abramowitz (1956), que o chamou de uma “medida da nossa ignorância”.[1]

[1]: Esta se tornou uma citação frequentemente repetida; sua ocorrência mais recente encontra-se em Gordon (2016, p. 543). Lipsey e Carlaw (2000) chegaram a concluir que “a PTF é tanto uma medida da nossa ignorância quanto uma medida de qualquer coisa positiva”, mas o que exatamente queriam dizer com esse termo “positiva” permaneceu sem explicação.

A outra abordagem, baseada na teoria da produção, parece remontar a Tinbergen (1942). Ele estendeu a função de produção Cobb-Douglas mediante a inclusão de uma variável de tendência temporal. A diferença entre a taxa de crescimento do produto real (output) e uma média ponderada das taxas de crescimento dos insumos reais de capital e trabalho foi interpretada, de diferentes maneiras, como mudança de eficiência, progresso técnico ou “Rationalisierungsgeschwindigkeit” (termo alemão que pode ser traduzido como velocidade de racionalização ou ritmo de racionalização da produção).

A contribuição fundamental e extremamente influente de Solow (1957) pode ser entendida como uma espécie de ligação entre essas duas tradições. Ele demonstrou que, sob determinadas condições, os parâmetros da função de produção Cobb-Douglas poderiam ser igualados a magnitudes estatísticas observáveis, e que o resíduo poderia ser interpretado em termos da razão entre índices de quantidade de produto (output) e de insumos (inputs). Por essa razão, o índice de produtividade total dos fatores (PTF) passou a ser conhecido como o “resíduo de Solow”, embora a expressão “resíduo” pareça ter sido utilizada pela primeira vez por Domar (1961). Solow interpretou esse resíduo como uma medida da mudança tecnológica.[2]

[2] Sobre Solow e a abordagem do National Bureau of Economic Research (NBER), exemplificada por Kendrick, ver Kleiman et al. (1966).

Desde o surgimento do conceito de variação da PTF, desenvolveram-se duas principais linhas de pesquisa. A primeira buscava explicar as mudanças na produtividade. A segunda concentrava-se em aperfeiçoar sua mensuração, sobretudo no que se refere aos fatores de produção capital e trabalho. Inicialmente, essa segunda vertente teve mais destaque do que a primeira. Por exemplo, Jorgenson e Griliches (1967) argumentaram que o uso da estrutura “correta” de números-índice e da mensuração “adequada” dos insumos eliminaria, em grande medida, o papel do resíduo.

De fato, o resíduo desapareceu, mas não por causa de técnicas de mensuração mais sofisticadas. O desaparecimento do crescimento da produtividade em toda a economia durante a década de 1970, seu reaparecimento posterior e a busca pelos fatores responsáveis por esse fenômeno mundial ficaram conhecidos como o “debate sobre a desaceleração da produtividade” (productivity slowdown discussion). A ênfase deslocou-se dos problemas de mensuração para os problemas de explicação, e a obra de Griliches constitui uma demonstração clara dessa mudança de foco. Entre os principais fatores explicativos considerados por ele estavam a educação, os gastos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e as patentes.

Os problemas de mensuração, entretanto, continuaram sendo importantes. Ao refletir sobre toda uma vida dedicada à pesquisa nessa área, Griliches (2001) afirmou:

"Tenho a impressão de que pelo menos parte do que aconteceu [isto é, a desaceleração da produtividade] decorreu do fato de que a economia e seus diversos impulsos tecnológicos se deslocaram para setores e áreas em que nossas medidas de produto são especialmente deficientes: serviços, atividades relacionadas à informação, saúde e também a economia subterrânea."

Mas, ao final, ele concluiu que:

"Houve muitas tentativas plausíveis de explicar a desaceleração da produtividade (...), mas nenhuma explicação decisiva foi encontrada, e nenhuma explicação isolada parece capaz de dar conta de todos os fatos. Assim, o tema permanece em um estado de indefinição até os dias de hoje."


domingo, 24 de maio de 2026

Fronteiras da Macroeconomia Heterodoxa - P. Arestis e M. Sawyer

ARESTIS, Philip; SAWYER, Malcolm (ed.). Frontiers of Heterodox Macroeconomics. Cham: Palgrave Macmillan, 2019.

SUMÁRIO

1 Crítica à Macroeconomia do Novo Consenso e uma Proposta para um Modelo Macroeconômico mais Keynesiano — Philip Arestis (1)

2 Abordando Déficits Orçamentários, Dívidas e Moeda de uma Maneira Socialmente Responsável — Malcolm Sawyer (45)

3 Avanços na Análise Pós-Keynesiana de Moeda e Finanças — Marc Lavoie (89)

4 Por que a Crise Financeira do Subprime Deveria Ter Sido Evitada e Implicações para a Atual Política Macroeconômica e Regulatória — J. S. L. McCombie e M. R. M. Spreafico (131)

5 Inflação: Falhas das Metas de Inflação — Uma Perspectiva Europeia — Elisabeth Springler (173)

6 Modelos Dinâmicos de Estoque-Fluxo Consistentes: Características, Limitações e Desenvolvimentos — Emilio Carnevali, Matteo Deleidi, Riccardo Pariboni e Marco Veronese Passarella (223)

7 Política Fiscal e Sustentabilidade Ecológica: Uma Perspectiva Pós-Keynesiana — Yannis Dafermos e Maria Nikolaidi (277)

8 Estagnação Secular e Estrutura de Classes de Renda na Europa: Implicações Políticas e Institucionais — Salvador Pérez-Moreno e Elena Bárcena-Martín (323)

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Cap. 01 - Crítica à Macroeconomia do Novo Consenso e uma Proposta para um Modelo Macroeconômico mais Keynesiano — Philip Arestis (1)

1 Introdução

Esta contribuição começa com a Macroeconomia do Novo Consenso (NCM) no caso de uma economia aberta (ver também, Arestis 2007a, b, 2009b, 2011; Arestis e González Martinez 2015), a qual é discutida criticamente. Devemos notar que a "Crise Financeira Global" (GFC) e a "Grande Recessão" (GR) forçaram a profissão a começar a reexaminar as proposições teóricas e de política da NCM. Blanchard (2011), por exemplo, argumenta que a crise “nos força a fazer um reexame total daqueles princípios” (p. 1). É verdade que, após a GR, alguns aspectos da NCM foram questionados e mudanças relevantes foram empreendidas. No entanto, os problemas permanecem.

Propomos um novo arcabouço teórico que vai muito além da NCM e de sua principal política de metas de inflação (ver também, Arestis 2007b, 2009b, 2010). Discutimos nosso arcabouço teórico juntamente com suas políticas econômicas e sugerimos que, além das políticas fiscal e monetária, que devem ser devidamente coordenadas, duas "novas" dimensões de política, que haviam sido ignoradas antes da GFC, sejam propostas. Essas políticas são os efeitos distributivos e a estabilidade financeira, ambos necessários para evitar crises semelhantes à GFC e à subsequente GR.

Prosseguimos na Seção 2 com o arcabouço teórico de economia aberta da NCM e suas implicações de política; avaliamos criticamente a NCM e suas implicações de política. A Seção 3 trata de nossa proposta de um arcabouço teórico diferente, juntamente com suas implicações de política econômica, enfatizando as políticas distributivas e de estabilidade financeira. A Seção 4 resume e conclui.

2 Novo Consenso Macroeconômico e Implicações de Política

Discutimos nesta seção o modelo NCM para uma economia aberta, juntamente com suas implicações de política.

2.1 O Modelo NCM para uma Economia Aberta

1. Utilizamos o seguinte modelo de seis equações para o modelo NCM de economia aberta [1]:

[1]: As seis equações baseiam-se em Arestis (2007b, 2011); ver também Angeriz e Arestis (2007) e Arestis e González Martinez (2015). Adicionamos revisões e argumentos relevantes conforme necessário.



a0,d0,e0: Constantes.

Yg: Hiato do produto doméstico (output gap), definido como a diferença entre o produto atual e o produto de tendência (longo prazo).

Ywg: Hiato do produto mundial (world output gap).

R: Taxa de juros nominal doméstica.

Rw: Taxa de juros nominal mundial.

p: Taxa de inflação doméstica.

pw: Taxa de inflação mundial.

pT: Meta de inflação estabelecida pelo Banco Central independente.

RR∗: Taxa de juros real de "equilíbrio" (consistente com um hiato do produto zero e inflação constante).

rer: Taxa de câmbio real.

er: Taxa de câmbio nominal (expressa como unidades de moeda estrangeira por unidade de moeda doméstica).

CA: Conta corrente do balanço de pagamentos.

si (com i=1,2,3,4,5): Choques estocásticos.

Et: Expectativas formadas no tempo t.

Pw e P: Níveis de preços mundial e doméstico, respectivamente (ambos expressos em logaritmos).

Δ(er): Variação na taxa de câmbio nominal.


2. Os símbolos têm o seguinte significado: a0,d0, e e0 são constantes; Yg é o hiato do produto doméstico (a diferença entre o produto atual e o de tendência; este último é o produto que prevalece quando os preços são perfeitamente flexíveis e, como tal, é uma variável de longo prazo, determinada pelo lado da oferta da economia); Ywg é o hiato do produto mundial; R é a taxa de juros nominal; Rw é a taxa de juros nominal mundial; p é a taxa de inflação doméstica; pw é a taxa de inflação mundial; e pT é a meta de inflação a ser alcançada pelo Banco Central independente. RR∗ é a taxa de juros real de "equilíbrio", ou seja, a taxa de juros consistente com um hiato do produto zero, o que implica, pela Eq. (2), uma taxa de inflação constante; (rer) representa a taxa de câmbio real e (er) a taxa de câmbio nominal, definida como na Eq. (6) e expressa como unidades de moeda estrangeira por unidade de moeda doméstica. CA é a conta corrente do balanço de pagamentos; si (com i=1,2,3,4,5) representa choques estocásticos; e Et refere-se às expectativas formadas no tempo t. Pw e P (ambos em logaritmos) são os níveis de preços mundial e doméstico, respectivamente. A variação na taxa de câmbio nominal pode ser derivada da Eq. (6) como em Δer=Δrer+ptw−pt.

3. A Equação (1) é a equação da demanda agregada, com o hiato do produto atual determinado pelo hiato do produto passado e futuro esperado, pela taxa de juros real e pela taxa de câmbio real (através dos efeitos sobre a demanda de exportações e importações). A Equação (1) emana da otimização intertemporal da utilidade vitalícia esperada do agente representativo que nunca entra em inadimplência em suas dívidas, e sob a suposição de rigidez salarial e de preços de curto prazo ou fricções do tipo Calvo (1983). Esta otimização reflete a suavização do consumo ideal sujeita a uma restrição orçamentária e baseada na condição de transversalidade de que todas as dívidas são, em última instância, pagas integralmente. Esta última condição significa que todos os agentes econômicos, com suas expectativas racionais, possuem solvência perfeita e os agentes nunca entrariam em inadimplência. Não há, portanto, necessidade de um ativo monetário específico. Nessas circunstâncias, nenhum agente econômico ou empresa individual possui restrição de liquidez, o que implica que não há necessidade de intermediários financeiros (bancos comerciais/de investimento ou outros intermediários financeiros não bancários) e moeda (ver também, Goodhart 2004, 2007, 2009).

4. A não aparição da moeda no modelo é justificada pela suposição de que o Banco Central permite que o estoque de moeda seja um resíduo para atingir a taxa de juros real desejada (Woodford 2008). Desse modo, a moeda não desempenha outro papel além de ser uma unidade de conta (Galí e Gertler 2007). Além disso, há a questão do papel do investimento, introduzido em termos da expansão do estoque de capital necessária para sustentar o crescimento da renda. Assume-se, então, que não há uma função de investimento independente que surja das decisões das empresas (Woodford 2003, Capítulo 4).

5. A Equação (2) é uma curva de Phillips, derivada da firma representativa de otimização intertemporal em um modelo de escalonamento de preços (staggered price setting), como, por exemplo, em Calvo (1983). A inflação na Eq. (2) baseia-se no hiato do produto atual, na inflação passada e futura, nas mudanças esperadas na taxa de câmbio nominal e nos preços mundiais esperados; este último fator contabiliza a inflação importada. O modelo permite preços rígidos no curto prazo, o nível de preços defasado nesta relação e flexibilidade total de preços no longo prazo. Assume-se que b2+b3+b4=1, implicando, assim, uma curva de Phillips vertical no longo prazo no ponto da Taxa de Desemprego que não Acelera a Inflação (NAIRU). O termo Et(pt+1) captura o aspecto prospectivo (forward-looking) da determinação da inflação. Isso implica que o sucesso do Banco Central em atingir sua meta de inflação não depende apenas de sua postura política atual, mas também do que os agentes econômicos percebem que será essa postura no futuro. A suposição de expectativas racionais é importante a esse respeito. Os agentes estão em posição de conhecer as consequências das ações políticas atuais sobre a taxa de inflação futura. Consequentemente, o termo Et (pt+1) é visto como reflexo da credibilidade do Banco Central. Se o Banco Central conseguir atingir sua meta de inflação, as expectativas de inflação serão contidas. As mudanças esperadas nos preços de importação e na taxa de câmbio nominal são outros dois determinantes importantes da inflação, como mostrado na Eq. (2).

6. A Equação (3) é uma regra de política monetária do tipo Taylor (1993, 1999, 2001). Ela é derivada da otimização da função de perda das autoridades monetárias sujeita ao modelo utilizado. A taxa de juros nominal assim derivada está relacionada à taxa de juros de equilíbrio (RR∗), definida como a "taxa de retorno real de equilíbrio quando os preços são totalmente flexíveis" (Woodford 2003, p. 248), à inflação esperada, ao hiato do produto, ao desvio da inflação em relação à meta e com a taxa de juros defasada representando a suavização (smoothing) da taxa de juros das autoridades monetárias. Assume-se que a taxa de câmbio não desempenha papel na fixação das taxas de juros (exceto na medida em que as mudanças na taxa de câmbio afetam a taxa de inflação, o que claramente alimentaria a regra da taxa de juros). Quando a inflação está na meta e o hiato do produto é zero, a taxa real atual é igual à taxa de juros de equilíbrio RR∗. Isso implica que, desde que o Banco Central tenha uma estimativa precisa de RR∗, a economia pode ser guiada para um equilíbrio na forma de hiato do produto zero e taxa de inflação meta constante. Nesse caso, a Eq. (1) indica que a demanda agregada está em um nível consistente com um hiato do produto zero. Isso implicaria que a taxa de juros real RR∗ traz a igualdade entre poupança e investimento (ex ante), o que corresponde à "taxa natural" de juros wickselliana (Wicksell 1898).

7. A Equação (4) determina a taxa de câmbio como uma função da diferença entre as taxas de juros doméstica e mundial, da conta corrente e das expectativas de taxas de câmbio futuras. A Equação (5) determina a conta corrente como uma função da taxa de câmbio real e dos hiatos do produto doméstico e mundial. A Equação (6) expressa a taxa de câmbio nominal em termos da taxa de câmbio real. Deve-se enfatizar que, como a taxa de câmbio não desempenha nenhum papel direto na fixação das taxas de juros pelo Banco Central (como na Eq. 3), o arcabouço NCM tem sido criticado por, por exemplo, Angeriz e Arestis (2007). A crítica é que, ao ignorá-la, corre-se o risco de uma combinação de estabilidade de preços internos e instabilidade da taxa de câmbio. Sugere-se, portanto, que a taxa de câmbio deva ser incluída na Eq. (3).

Existem seis equações e seis incógnitas: produto, taxa de juros, inflação, taxa de câmbio real, conta corrente e taxa de câmbio nominal.

Procedemos na Seção 2.2 à discussão das implicações de política econômica do modelo NCM.

2.2 Implicações de Política Econômica do Modelo NCM

O modelo NCM é um arcabouço no qual não há papel para ‘bancos e moeda’, e existe apenas uma única taxa de juros. A estabilidade de preços é o objetivo primário da política monetária. A inflação é vista como um fenômeno monetário e, como tal, só pode ser controlada pela política monetária; sendo esta a taxa de juros fixada pelo Banco Central. A política monetária é, portanto, realizada por meio do regime de metas de inflação (IT), que exige que os Bancos Centrais utilizem a inflação como um indicador de quando expandir ou contrair a política monetária. Os Bancos Centrais devem ser independentes e não devem ser afetados por políticos. A política monetária é, assim, elevada, tendo como seu principal objetivo a manutenção da ‘estabilidade de preços’. Assume-se também que, uma vez alcançada a estabilidade de preços, a estabilidade macroeconômica e financeira emergirá. A política fiscal é rebaixada como um instrumento ativo de política econômica. Ela deve basear-se apenas em estabilizadores automáticos, mas, mais importante, deve preocupar-se em equilibrar amplamente o orçamento do governo. Isso se baseia no crowding out (efeito deslocamento) dos déficits governamentais, na hipótese de expectativas racionais e no Teorema da Equivalência Ricardiana.

Outra suposição importante é a existência de rigidezes nominais de curto prazo na forma de salários, preços e informação rígidos (sticky). Isto ocorre porque as empresas fixam seus preços com base nos custos marginais atuais e futuros. Os custos marginais futuros, entretanto, são relativamente pouco afetados pela política monetária; a inflação, portanto, não é afetada por mudanças na taxa nominal de juros no curto prazo (Christiano et al. 2018, p. 116). No entanto, as mudanças na taxa de juros real, que afetam o consumo atual, levam a uma mudança na renda do trabalho, afetando assim contemporaneamente o consumo e o emprego. O emprego influencia os salários e os custos marginais, influenciando, por sua vez, a inflação no médio e longo prazo. O papel da ‘inflação esperada’, incluído na Eq. (3), também é importante. A própria meta de inflação e as previsões do Banco Central são consideradas como fornecedoras de uma forte orientação para a percepção da inflação esperada. Dados os atrasos no mecanismo de transmissão da taxa de juros para a inflação e o controle imperfeito da inflação, as previsões de inflação tornam-se o alvo intermediário da política monetária, sendo o alvo final a taxa de inflação real (Svensson 1997, 1999).

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Preferência pela Liquidez e a Teoria dos Juros e da Moeda - F. Modigliani

MODIGLIANI, Franco. Liquidity Preference and the Theory of Interest and Money. Econometrica, v. 12, n. 1, p. 45–88, jan. 1944.

Preferência pela Liquidez e a Teoria dos Juros e da Moeda

O objetivo deste artigo é reconsiderar criticamente algumas das mais importantes teorias antigas e recentes sobre a taxa de juros e a moeda e formular, eventualmente, uma teoria mais geral que leve em conta as contribuições vitais de cada análise, bem como o papel desempenhado por diferentes hipóteses básicas.

A análise procederá de acordo com o seguinte plano:

I. Começamos reexaminando brevemente a teoria keynesiana. Ao fazê-lo, nosso objetivo principal é determinar qual é o papel desempenhado no sistema keynesiano pela "preferência pela liquidez", por um lado, e pelas suposições muito especiais sobre a oferta de trabalho, por outro. Isso nos permitirá distinguir os resultados que se devem a uma melhoria real da análise das conclusões que dependem da diferença de suposições básicas.

II. Prosseguimos então para considerar as propriedades de sistemas nos quais uma ou ambas as hipóteses keynesianas são abandonadas. Assim, verificamos nossos resultados anteriores e testamos a consistência lógica da teoria "clássica" do dinheiro e a dicotomia entre economia real e monetária.

III. Desta análise emergirá gradualmente nossa teoria geral da taxa de juros e da moeda; e poderemos proceder ao uso desta teoria para testar criticamente algumas teorias "keynesianas" recentes e, mais especialmente, aquelas formuladas por J. R. Hicks em Value and Capital e por A. P. Lerner em diversos artigos.

IV. Finalmente, para deixar claras as conclusões que decorrem da nossa teoria, tomamos posição na questão controversa sobre se a taxa de juros é determinada por fatores "reais" ou por fatores monetários.

Para simplificar a tarefa, nossa análise procede, em geral, sob suposições "estáticas"; isso não significa que negligenciamos o tempo, mas apenas que assumimos que a "elasticidade de expectativa" (total) hicksiana seja sempre a unidade. Nas próprias palavras de Hicks, isso significa que "uma mudança nos preços correntes mudará os preços esperados na mesma direção e na mesma proporção". Como mostrado por Oscar Lange, isso implica que assumimos que as "funções de expectativa", que conectam os preços esperados com os atuais, sejam homogêneas de primeiro grau.

Visto que todas as teorias que examinamos ou formulamos neste artigo tratam dos determinantes do equilíbrio e não da explicação dos ciclos econômicos, esta simplificação, embora seja séria em alguns aspectos, não parece injustificada.


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Modelo de Gerações Sobrepostas - Macroeconomia Avançada

CAMPANTE, Filipe; STURZENEGGER, Federico; VELASCO, Andrés. Overlapping generations models. In: CAMPANTE, Filipe; STURZENEGGER, Federico; VELASCO, Andrés. Advanced Macroeconomics: An Easy Guide. London: LSE Press, 2021. cap. 8, p. 115–132. DOI: https://doi.org/10.31389/lsepress.ame.

SUMÁRIO

8. Modelos de Gerações Sobrepostas

8.1 | O modelo de Samuelson-Diamond

8.1.1 | O equilíbrio descentralizado

    Indivíduos

    Firmas

8.1.2 | Equilíbrio nos mercados de bens e fatores

8.1.3 | A dinâmica do estoque de capital

8.1.4 | Um exemplo operacional

    Os efeitos de um choque

8.2 | Otimalidade

8.2.1 | O produto marginal do capital no estado estacionário

8.2.2 | Por que existe ineficiência dinâmica?

8.2.3 | As economias reais são dinamicamente ineficientes?

8.2.4 | Por que isso é importante?

8.3 | Gerações sobrepostas em tempo contínuo

8.3.1 | A economia fechada

8.3.2 | Uma extensão simples

8.3.3 | Revisitando a conta corrente na economia aberta

8.4 | O que aprendemos?

8. Modelo

O modelo de crescimento neoclássico (NGM), com seus indivíduos idênticos e de vida infinita, é muito útil para analisar um grande número de tópicos em macroeconomia, como vimos e continuaremos a ver no restante do livro. No entanto, existem algumas questões que exigem um distanciamento dessas premissas. Um exemplo óbvio envolve as questões relacionadas à compreensão da interação de indivíduos que estão em diferentes estágios de seus ciclos de vida. Se as vidas são finitas e não infinitas, como no NGM, os indivíduos não são iguais (ou, no mínimo, não estão no mesmo momento de suas vidas). Essa diversidade abre um conjunto totalmente novo de questões, como a do consumo e investimento ideais ao longo do ciclo de vida e o papel das heranças. Também exige uma redefinição de otimalidade. Não apenas porque precisamos abordar a questão de como avaliar o bem-estar quando os agentes têm funções de utilidade diferentes, mas também porque precisaremos verificar se as propriedades de otimalidade do NGM prevalecem. Por exemplo, se existem instrumentos precários para poupar, e ainda assim as pessoas precisam poupar para a aposentadoria, seria possível que as pessoas acumulassem capital em excesso?

Este arcabouço mais rico fornecerá novas perspectivas para avaliar decisões de políticas, como pensões e tributação, e para discutir o impacto de mudanças demográficas. É claro que a análise se torna mais matizada, mas a dificuldade adicional não é uma desculpa para não abordar a questão, particularmente porque, em muitos casos, o fato de os indivíduos serem diferentes é o aspecto fundamental que exige atenção.

Para estudar essas questões tão importantes, nos próximos três capítulos desenvolveremos o modelo de gerações sobrepostas (OLG), a segunda estrutura de trabalho fundamental da macroeconomia moderna. Veremos que, ao trazer algumas dessas nuances, as implicações do modelo revelam-se muito diferentes daquelas do NGM. Este arcabouço também nos permitirá abordar muitos dos debates de política mais relevantes da macroeconomia atual, incluindo taxas de juros baixas, estagnação secular e tópicos de política fiscal e monetária.

8.1 | O modelo de Samuelson-Diamond

O modelo de Samuelson-Diamond simplifica ao assumir duas gerações: jovens e idosos. Os jovens poupam para a aposentadoria, e isso constitui o estoque de capital no período seguinte. A dinâmica do capital será resumida por uma equação de poupança da forma s(w,r). Esta equação de poupança nos permitirá rastrear a evolução do capital ao longo do tempo.

s = poupança  (savings) realizada pelos indivíduos durante o primeiro período de suas vidas (quando são jovens) para financiar o consumo na velhice;

w =  salário real (wage) recebido pelo indivíduo no primeiro período de sua vida pelo seu trabalho. A poupança é uma função crescente do salário, pois um aumento na renda do trabalho permite aumentar o consumo em ambos os períodos da vida;

r = taxa de juros (interest rate) ou taxa de aluguel do capital que o indivíduo receberá sobre suas economias no período seguinte (quando for idoso).

___________________________________________________________________________________

Aqui apresentamos um modelo de tempo discreto inicialmente desenvolvido por Diamond (1965), baseando-se em trabalhos anteriores de Samuelson (1958), no qual os indivíduos vivem por dois períodos (jovens e idosos). A economia dura para sempre, à medida que novos jovens entram em cada período. Primeiro, caracterizamos o equilíbrio competitivo descentralizado do modelo. Em seguida, questionamos se a solução de mercado é a mesma que a alocação que seria escolhida por um planejador central, focando no significado da regra de ouro, o que nos permitirá discutir a possibilidade de ineficiência dinâmica (ou seja, acumulação excessiva de capital).

8.1.1 | O equilíbrio descentralizado

A economia de mercado é composta por indivíduos e firmas. Os indivíduos vivem por dois períodos. Eles trabalham para as firmas, recebendo um salário. Eles também emprestam sua poupança para as firmas, recebendo uma taxa de aluguel (pelo capital).

Um indivíduo nascido no tempo t consome c1t no período t e c2t+1 no período t+1, e deriva utilidade:

(Função de utilidade intertemporal de um indivíduo no modelo de Samuelson-Diamond)

c1t: nível de consumo do indivíduo no primeiro período de sua vida (enquanto jovem), ocorrido no tempo t;

c2t+1: nível de consumo do indivíduo no seu segundo período de vida (quando idoso ou aposentado), que ocorre no tempo t+1;

σ (sigma):  elasticidade de substituição intertemporal no consumo, que indica a disposição do agente em trocar consumo entre os dois períodos da vida (σ ≥ 0)

ρ (rô): taxa de preferência temporal (ou taxa de desconto), que mede o quanto o indivíduo valoriza o consumo presente em relação ao futuro (ρ ≥ 0)

Observe que o subscrito “1” refere-se ao consumo quando jovem, e o “2” rotula o consumo quando idoso. Os indivíduos trabalham apenas no primeiro período da vida, ofertando inelasticamente uma unidade de trabalho e recebendo um salário real de wt. Eles consomem parte de sua renda do primeiro período e poupam o restante para financiar seu consumo de aposentadoria no segundo período. A poupança dos jovens no período t gera o estoque de capital que é usado para produzir o produto no período t+1 em combinação com o trabalho ofertado pela geração jovem do período t+1.

A estrutura temporal do modelo aparece na Figura 8.1. 

O número de indivíduos nascidos no tempo t e que trabalham no período t é Lt. A população cresce à taxa n, de modo que Lt = L0(1 + n)^t.

Lt = número de indivíduos nascidos e trabalhando no período t;

L0 = população inicial;

n = taxa de crescimento populacional;

t = índice de tempo (período discreto)


As empresas atuam competitivamente e utilizam a tecnologia de retornos constantes Y=F(K,L). Por simplicidade, assume-se que o capital deprecia-se totalmente após o uso, o que equivale a assumir que F(⋅,⋅) é uma função de produção líquida, com a depreciação já contabilizada. Como anteriormente, o produto por trabalhador, Y/L, é dado pela função de produção y=f(k), onde k é a razão capital-trabalho. Assume-se que esta função de produção satisfaz as condições de Inada. Cada empresa maximiza os lucros, tomando a taxa salarial, wt, e a taxa de aluguel do capital, r t, como dadas. 

Agora examinamos o problema de otimização de indivíduos e empresas e derivamos o equilíbrio de mercado.

INDIVÍDUOS

Considere um indivíduo nascido no tempo t. Seu problema de maximização é

sujeito a

c1t + st = wt   (8.3)

c1t: nível de consumo do indivíduo no primeiro período de sua vida (enquanto jovem), ocorrido no tempo t;

st =  poupança realizada pelo indivíduo jovem no período t.

wt = salário recebido no período t.

c2t+1 = (1 + rt+1)st   (8.4)

Onde wt é o salário recebido no período t e rt+1 é a taxa de juros paga sobre a poupança mantida do período t para o período t+1. No segundo período, o indivíduo consome toda a sua riqueza, tanto os juros quanto o principal. (Observe que isso assume que não há altruísmo entre gerações, no sentido de que as pessoas não se preocupam em deixar legados (heranças) para as gerações vindouras. Isso é crucial). 

A condição de primeira ordem para um máximo é.


que pode ser reescrita como


Esta é a equação de Euler para a geração nascida no tempo t. Observe que ela possui a mesmíssima intuição, em tempo discreto, que a equação de Euler (regra de Ramsey) que derivamos no contexto do NGM. 

Em seguida, utilizando (8.3) e (8.4) para substituir c1t e c2t+1 e reorganizando os termos, obtemos:

Podemos pensar nisto como uma função de poupança:


A poupança é uma função crescente da renda salarial, visto que a suposição de separabilidade e concavidade da função utilidade garante que ambos os bens (isto é, o consumo em ambos os períodos) sejam normais. O efeito de um aumento na taxa de juros é ambíguo, entretanto, devido aos efeitos renda e substituição padrão com os quais você está familiarizado na teoria microeconômica. Um aumento na taxa de juros diminui o preço relativo do consumo do segundo período, levando os indivíduos a deslocarem o consumo do primeiro para o segundo período, ou seja, a substituir o consumo do primeiro período pelo do segundo; este é o efeito substituição. Mas ele também aumenta o conjunto de consumo viável, tornando possível aumentar o consumo em ambos os períodos; este é o efeito renda. O efeito líquido desses efeitos de substituição e renda é ambíguo. Se a elasticidade de substituição entre o consumo em ambos os períodos for maior que um, então, neste modelo de dois períodos, o efeito substituição domina e um aumento nas taxas de juros leva a um aumento na poupança.

FIRMAS

As empresas atuam competitivamente, alugando capital até o ponto em que o produto marginal do capital é igual à sua taxa de aluguel, e contratando trabalho até o ponto em que o produto marginal do trabalho é igual ao salário.

f′ (kt) = rt   (8.9)

f(kt) - kt f′ (kt) = wt   (8.10)

Onde kt é a razão capital-trabalho da empresa. Observe que f(kt) − kt f′ (kt) é o produto marginal do trabalho, devido aos retornos constantes de escala.

8.1.2 | Equilíbrio nos mercados de bens e fatores

O equilíbrio do mercado de bens exige que a demanda por bens em cada período seja igual à oferta ou, equivalentemente, que o investimento seja igual à poupança:

Kt+1 - Kt = Lts(wt, rt+1) - Kt   (8.11)

O lado esquerdo é o investimento líquido: a mudança no estoque de capital entre t e t+1. O lado direito é a poupança líquida: o primeiro termo é a poupança dos jovens; o segundo é a despoupança (consumo da poupança) dos idosos. 

Eliminando Kt de ambos os lados, observa-se que o capital no tempo t+1 é igual à poupança dos jovens no tempo t. Dividindo ambos os lados por Lt, obtemos a equação de movimento do capital em termos per capita:

(1 + n) kt+1 = s (wt, rt+1)   (8.12)

Os serviços de trabalho são ofertados inelasticamente; a oferta de serviços de capital no período t é determinada pela decisão de poupança dos jovens tomada no período t − 1. O equilíbrio nos mercados de fatores ocorre quando o salário e a taxa de aluguel do capital são tais que as empresas desejam utilizar as quantidades disponíveis de serviços de trabalho e de capital. As condições de equilíbrio do mercado de fatores são, portanto, dadas pelas equações (8.9) e (8.10).

8.1.3 | A dinâmica do estoque de capital

A equação de acumulação de capital (8.12), juntamente com as condições de equilíbrio do mercado de fatores (8.9) e (8.10), implica o comportamento dinâmico do estoque de capital:

ou



O numerador desta expressão é positivo, refletindo o fato de que um aumento no estoque de capital no período t aumenta o salário, o que aumenta a poupança. O denominador possui sinal ambíguo porque os efeitos de aumentos na taxa de juros sobre a poupança são ambíguos. Se sr ≥ 0, então o denominador em (8.15) é positivo, e então o mesmo ocorre com dkt+1/dkt
O lugar geométrico da poupança na Figura 8.2 resume tanto o comportamento dinâmico quanto o de estado estacionário da economia. A linha de 45 graus na Figura 8.2 é a linha ao longo da qual os estados estacionários, nos quais kt+1 = kt, devem situar-se. Qualquer ponto em que o lugar geométrico da poupança s cruza essa linha é um estado estacionário. Desenhamos um lugar geométrico que cruza a linha de 45 graus apenas uma vez e, portanto, garante que o estoque de capital de estado estacionário exista e seja único. Mas esta não é a única configuração possível. O modelo não garante, sem restrições adicionais sobre as funções de utilidade e/ou de produção, nem a existência nem a unicidade de um equilíbrio de estado estacionário com estoque de capital positivo.

Se existir um equilíbrio único com estoque de capital positivo, ele será estável? Para responder a isso, avalie a derivada em torno do estado estacionário:

A estabilidade (local) exige que (dkt+1/dkt) ∣SS seja menor que um em valor absoluto.


Figura 8.2 - O estoque de capital de estado estacionário



Novamente, sem restrições adicionais ao modelo, a condição de estabilidade pode ou não ser satisfeita. Para obter resultados definidos sobre as propriedades de dinâmica comparativa e de estado estacionário do modelo, é necessário ou especificar formas funcionais para as funções de utilidade e produção subjacentes, ou impor condições suficientes para a unicidade de um estoque de capital de estado estacionário positivo.

8.1.4 | Um exemplo operacional

Nesta subseção, analisamos as propriedades do modelo OLG sob um conjunto de suposições bastante simples: utilidade logarítmica (isto é, o caso limite onde σ = 1) e produção Cobb-Douglas. (Isso é às vezes referido como o modelo OLG canônico.) Isso permite uma caracterização simples tanto da dinâmica quanto do estado estacionário.

Com esta suposição sobre as preferências, a função poupança é


de modo que a poupança seja proporcional à renda salarial. Observe que a taxa de juros se cancela no caso da utilidade logarítmica, mas não de outra forma. Este é um caso em que a taxa de poupança será constante ao longo do tempo (como no modelo de Solow), embora, mais uma vez, aqui isso seja o resultado de uma escolha ótima (como na versão do modelo AK que estudamos no Capítulo 5).

Com a tecnologia Cobb-Douglas, as regras da empresa para o comportamento ótimo (8.9) e (8.10) tornam-se


O uso de (8.17) e (8.19) em (8.12) resulta em:


que é a nova lei de movimento para o capital.

Defina, como de costume, o estado estacionário como a situação na qual kt+1 = kt = k∗. A equação (8.20) implica que o estado estacionário é dado por:





Modelos de Gerações Sobrepostas - Duncan Foley

SUMÁRIO

16.1 Finanças Governamentais e Acumulação

16.2 Restrições Orçamentárias do Governo e do Setor Privado

16.3 Poupança e Consumo com Famílias Egoístas (1 - 8)

16.4 Contabilidade no Modelo de Gerações Sobrepostas (8 - 20)

16.5 Um Modelo Clássico de Crescimento com Gerações Sobrepostas

16.6 Um Modelo Neoclássico de Crescimento com Gerações Sobrepostas

16.7 Eficiência de Pareto no Modelo de Gerações Sobrepostas

16.8 Analisando a Previdência Social e os Déficits Orçamentários (20 - 31)

16.9 Previdência Social no Modelo de Gerações Sobrepostas

    16.9.1 Previdência social totalmente financiada

    16.9.2 Previdência social não financiada

16.10 Dívida Pública no Modelo de Gerações Sobrepostas

16.11 As Lições do Modelo de Gerações Sobrepostas

16.12 Leituras Sugeridas

16.1 Finanças Governamentais e Acumulação

Neste capítulo, estudaremos o impacto das finanças governamentais, na forma de programas de seguridade social e gastos deficitários, sobre a acumulação de capital. Os benefícios da seguridade social e a dívida pública são ativos para as famílias privadas, mas não correspondem necessariamente a nenhum investimento real por parte do governo. A questão fundamental é se a existência desses ativos criados pelo governo pode reduzir a poupança privada e a formação de capital.

Impostos e transferências governamentais podem ter efeitos na alocação de recursos se estiverem vinculados a variáveis de decisão econômica, como poupança ou lucro. Isso ocorre porque esses impostos afetam as taxas de retorno percebidas pelos tomadores de decisão e influenciarão suas decisões de poupar e investir ao alterar essas taxas. Neste capítulo, no entanto, o interesse recai sobre se os programas governamentais podem desviar a poupança privada do financiamento do investimento real. Para focar a atenção nesse impacto particular da política fiscal governamental, serão considerados apenas programas financiados por impostos e transferências de montante fixo (lump-sum), que não dependem da riqueza ou renda dos agentes e, portanto, não alteram seus incentivos econômicos na margem.

Os efeitos de um sistema de seguridade social ou de uma política de gastos deficitários do governo sobre os planos de poupança das famílias dependem criticamente de se assumirmos que cada geração leva em conta o bem-estar das gerações futuras ao elaborar seus planos de gastos. Conforme Robert Barro apontou, se o bem-estar das gerações futuras entrar na função de utilidade da geração atual, não haverá efeitos macroeconômicos de déficits ou planos de seguridade social. A suposição de que a geração atual considera o bem-estar da geração futura em seus planos de gastos é chamada de equivalência ricardiana. Essa suposição tem sido utilizada em todos os modelos onde as decisões de poupança são tomadas por um capitalista representativo que maximiza a utilidade em um horizonte infinito.

É intuitivo compreender por que a equivalência ricardiana implica que os gastos deficitários do governo não terão efeitos reais. Sob essas premissas, a família típica da geração atual pode garantir qualquer nível de consumo para a próxima geração que considere ideal, alterando seu legado (bequest) para a geração seguinte e, assim, anular qualquer efeito de gastos deficitários ou seguridade social na poupança social. Na seção seguinte, o problema é examinado com rigor através das restrições orçamentárias do governo e da família capitalista típica sob a suposição de equivalência ricardiana.

Ao considerar a importância da equivalência ricardiana no mundo real, deve-se lembrar que, do ponto de vista econômico, um legado não precisa ser necessariamente uma herança no momento da morte. A equivalência ricardiana também se aplica se a geração atual investir na educação de seus filhos (já que esse investimento é uma transferência intergeracional), ou se os filhos sustentarem seus pais na aposentadoria (o que funciona como um legado negativo). Se as famílias forem racionais e voltadas para o futuro, as políticas de seguridade social e os déficits governamentais terão impacto na poupança social apenas se cada geração agir de forma egoísta.

16.2 Restrições Orçamentárias Governamentais e Privadas

A diferença entre as receitas e as despesas do governo é o superávit fiscal. Se as despesas excederem as receitas, o superávit fiscal é negativo e é frequentemente referido como um déficit fiscal. (É fundamental não confundir o superávit e o déficit fiscal com o superávit ou déficit do balanço de pagamentos de um país. O superávit ou déficit do balanço de pagamentos reflete as transações de todos os setores de uma economia, tanto privados quanto públicos, com o resto do mundo. O superávit fiscal reflete as transações do setor público com o setor privado). Receitas e despesas incluem pagamentos de juros recebidos e realizados pelos governos. A diferença entre as receitas e despesas do governo, excluindo os pagamentos de juros, é chamada de superávit fiscal primário, e mede o grau em que as receitas correntes não provenientes de juros estão financiando as despesas correntes não provenientes de juros.

Quando os governos gastam mais do que sua receita tributária, eles devem financiar o déficit fiscal primário resultante por meio de empréstimos. Nesses modelos, onde os preços e as taxas de lucro são conhecidos com certeza, o governo terá de pagar a mesma taxa de juros real que os capitalistas podem obter ao investir seu dinheiro em capital. Neste capítulo, assumiremos que o nível de preços é constante, de modo que as quantidades reais e monetárias são as mesmas. Também assumiremos que o único ativo ou passivo detido pelo governo é sua própria dívida, B. O crescimento da dívida governamental sob essas suposições dependerá do superávit fiscal primário, E, e de seus pagamentos de juros sobre a dívida acumulada, rB:


A partir desta série, podemos ver que:

O significado econômico desta forma de encarar a restrição orçamentária do governo é que o governo efetivamente tem de pagar um custo de oportunidade por manter um déficit fiscal primário (−E) igual a todos os juros futuros que economizaria se financiasse as despesas com impostos correntes. Se definirmos o fator de retorno total ao longo do horizonte T, RT = (1+rT−1)(1+rT−2)…(1+r0), podemos dividir a equação por RT e escrevê-la como:


O valor da dívida pública no período atual é igual ao valor presente descontado dos superávits fiscais primários ao longo do horizonte T mais o valor presente descontado da dívida no tempo T.





domingo, 3 de maio de 2026

Macroeconomia dos Gastos Governamentais - Thomas Palley

1. Introdução: Atualizando a macroeconomia dos gastos do governo

2. O modelo renda-gasto (IE) keynesiano

3. O modelo renda-gasto (IE) keynesiano com produção governamental: uma interpretação de dois setores

4. O modelo renda-gasto (IE) keynesiano com um programa de garantia de emprego: uma interpretação de três setores

5. O modelo renda-gasto (IE) kaleckiano

6. O modelo renda-gasto (IE) kaleckiano com produção governamental

7. O modelo renda-gasto (IE) kaleckiano com um programa de garantia de emprego

8. Conclusão

1. Introdução: Atualizando a Macroeconomia dos Gastos Governamentais

Os gastos governamentais são um componente significativo da demanda agregada (DA). Nos anos vindouros, eles podem aumentar consideravelmente devido ao renovado interesse político na renovação da infraestrutura e à necessidade de novas infraestruturas para enfrentar o desafio das mudanças climáticas. Há também interesse político em mais gastos para atender às necessidades de saúde e educação.

Este artigo busca atualizar a macroeconomia keynesiana para incluir diferentes tipos de gastos governamentais. O trabalho introduz distinções entre os gastos governamentais convencionais (ou seja, a aquisição de produtos do setor privado), a produção governamental (por exemplo, serviços municipais e de educação) e o emprego em programas de garantia de emprego (PGE) do governo. Esses diferentes tipos de gastos são incluídos no modelo canônico de renda-gasto (RG) keynesiano (Samuelson 1948), que é então alterado para incluir os efeitos kaleckianos de distribuição de renda. O exercício confirma o valor duradouro do modelo RG e produz descobertas não triviais. O que é teoricamente claro ex-post não é óbvio ex-ante. O exercício também fornece importantes percepções políticas e estratégicas sobre o debate da privatização e programas de emprego do governo.

Modificar o modelo RG keynesiano melhora-o analiticamente e transforma a concepção de governo. O modelo RG padrão é um modelo de setor único no qual os gastos do governo são um componente da DA. A distinção entre os tipos de gastos governamentais transforma o modelo em um modelo multissetorial.

Em relação aos multiplicadores de gastos governamentais, o grande impacto analítico surge com a introdução dos efeitos kaleckianos de distribuição de renda. A versão kaleckiana do modelo RG reconstruído gera dois multiplicadores de gastos governamentais diferentes, um para compras de produtos do setor privado e outro para a produção do setor público. Demonstra-se que este último é maior. O modelo também gera um novo multiplicador de orçamento equilibrado kaleckiano que se baseia na mudança da composição dos gastos governamentais [1]. 

[1]: O multiplicador de orçamento equilibrado original foi introduzido por Samuelson (1948) e baseia-se no impacto diferencial sobre a demanda agregada decorrente do aumento dos gastos do governo e do aumento dos impostos.

Como demonstrado no artigo, os dois canais críticos que geram diferenças nos multiplicadores de produto e emprego dos gastos governamentais são os efeitos funcionais da distribuição de renda e a estrutura de produção (ou seja, a função de produção). Esses efeitos podem ser observados pela inspeção das expressões dos multiplicadores. Os efeitos funcionais da distribuição de renda operam via margem de lucro (markup) e impactam o vazamento de poupança associado a diferentes tipos de gastos governamentais. A estrutura de produção impacta o emprego criado por diferentes tipos de gastos governamentais.

O foco do artigo é a macroeconomia, o que significa que ele se preocupa com o impacto dos gastos governamentais na demanda agregada (DA) e na determinação do produto e do emprego. Isso é diferente da economia do bem-estar neoclássica, cujas preocupações não são abordadas no presente artigo. A macroeconomia se preocupa com o produto e o emprego agregados. A economia do bem-estar se preocupa com a utilidade. Na macroeconomia, os bens públicos fornecidos pelo governo aparecem ao seu custo de produção. Na economia do bem-estar, eles têm uma posição ampliada, pois são consumidos simultaneamente por muitos, o que aumenta sua contribuição para a utilidade.

Da mesma forma, o artigo não se preocupa com as implicações do investimento público para o estoque de capital público. Essa é uma preocupação da teoria do crescimento, na qual o investimento público pode impactar a trajetória de crescimento. Em vez disso, o foco atual é exclusivamente nas implicações de curto prazo para o emprego e o produto dos gastos governamentais. 

Em suma, a principal contribuição do artigo é tripla. Primeiro, mostra como expandir o modelo macroeconômico RG keynesiano canônico para incorporar um setor governamental mais elaborado que realiza atividades produtivas próprias, as quais podem incluir um programa de garantia de emprego (PGE) organizado pelo governo. Segundo, mostra que fazer isso gera multiplicadores de gastos governamentais de tamanhos diferentes, em que os gastos na produção governamental têm um multiplicador mais alto do que os gastos governamentais na produção do setor privado. Existe algum apoio empírico para essa proposição. Assim, Gechert (2015, p. 574) relata que uma análise de meta-regressão da política fiscal mostra que o emprego público tem um multiplicador um tanto maior do que os gastos públicos em geral. Terceiro, gera um novo multiplicador de orçamento equilibrado kaleckiano.

A estrutura do restante do artigo é a seguinte. A Seção Dois apresenta o modelo RG keynesiano canônico que serve de referência para o artigo. A Seção Três adiciona a produção governamental ao modelo RG keynesiano. A Seção Quatro adiciona o emprego PGE ao modelo keynesiano com produção governamental. A Seção Cinco apresenta o modelo RG kaleckiano canônico. A Seção Seis adiciona a produção governamental ao modelo kaleckiano, e a Seção Sete adiciona o emprego PGE. A Seção Oito conclui o artigo.

2. O Modelo renda-gasto (IE) Keynesiano

O ponto de partida é o modelo IE keynesiano padrão (Samuelson 1948). Embora bem conhecido, o modelo é reproduzido abaixo porque fornece o ponto de referência a partir do qual a análise subsequente se articula. A comparação com o modelo de referência torna claro o que é necessário para gerar multiplicadores de gastos governamentais keynesianos de tamanhos diferentes.

As equações do modelo de referência são dadas por:


Nesta formulação: Y = produto, E = demanda agregada, D = demanda do setor privado, C = gastos de consumo, I = gastos de investimento, G = gastos governamentais, A = gastos de consumo autônomo, b = propensão a consumir, t = alíquota do imposto de renda, T = transferências, a = produtividade do trabalho, N = emprego, NF = oferta de trabalho, p = nível de preços, m = margem de lucro (mark-up), w = salário do setor privado. Todas as variáveis de quantidade estão em termos reais. O investimento e os gastos governamentais são dados exogenamente.

A Equação (1) é a condição de equilíbrio do mercado de bens. A Equação (2) é a definição de DA. A Equação (3) é a definição da demanda do setor privado [2]. A Equação (4) é a função consumo[3]. A Equação (5) é uma função de produção agregada linear. A Equação (6) determina o nível de preços e apresenta firmas cobrando uma margem de lucro sobre os custos unitários do trabalho. A configuração do modelo distingue entre DA (E) e demanda do setor privado (D). DA é a demanda total recebida pelas firmas. A demanda do setor privado é a demanda por bens dos agentes do setor privado (ou seja, famílias e firmas). Além disso, no modelo de referência, os gastos governamentais consistem exclusivamente na aquisição de bens produzidos por firmas do setor privado.

[2]: O investimento é considerado autônomo e dado exogenamente. Poderia ser especificado como I = c0 + c1Y, caso em que teria um componente induzido (c1Y) que afetaria o tamanho dos multiplicadores de gastos e de emprego. Alternativamente, poderia ser especificado como determinado pelo crescimento da demanda dado exogenamente (g) e pelo estoque de capital (K) de acordo com a teoria do supermultiplicador (Cesaratto, Serrano e Stirati 2003), como segue: I = gK.

[3]: A especificação da função consumo considera os pagamentos de transferência sujeitos ao imposto de renda, mas isso não precisa ser necessariamente o caso.

A resolução do modelo produz as seguintes soluções para produto e emprego: