Capítulo 01 - Introdução
1.1 Uma microeconomia heterodoxa
Este livro foi concebido para servir de complemento a um curso de microeconomia básica ou avançada que tenha como base um livro-texto marginalista ou neoclássico. A teoria neoclássica ensinada nas carreiras de Economia cobre os seguintes tópicos: preferências e utilidade, teoria da firma e produção, análise de equilíbrio parcial e geral (este último em modelos de troca pura ou com produção). A isso se somam modelos de incerteza, informação imperfeita, modelos de concorrência não perfeita (monopólio, monopsônio, oligopólio, concorrência monopolística), externalidades, bens públicos, temporalidade e modelos de teoria dos jogos.
O conteúdo é bastante abrangente e muito útil para entender o comportamento individual maximizador, bem como para modelar uma economia capitalista com indivíduos que maximizam sua utilidade e/ou lucros. Veja-se, por exemplo, Mas-Colell, Whinston e Green (1995), Varian (2015) e Jehle e Reny (2011) como livros-texto representativos. Não faremos uma distinção histórica ou teórica entre os termos marginalista e neoclássico e, em todo caso, nos referimos ao conjunto de modelos encontrados nos livros-texto mencionados anteriormente. O tópico central deste livro é a análise do valor e da distribuição no chamado núcleo de uma economia (veja-se a discussão em Garegnani, 1984) com base na consideração dos economistas clássicos. Em particular, este livro estuda os chamados modelos sraffianos e marxistas. Enquadramos esses modelos sob o rótulo de heterodoxos, embora este último termo seja mais abrangente, incluindo modelos pós-keynesianos, sobretudo kaleckianos (veja-se a discussão nos capítulos introdutórios de Lavoie, 2009, 2014). Os livros que cobrem tópicos semelhantes e dos quais este livro se nutre são os textos clássicos de Piero Sraffa (Sraffa, 1960) e Karl Marx (Marx, 1894), e os estudos específicos sobre a matéria de Sweezy (1942), Morishima (1973, 1989), Pasinetti (1977, 1980), Steedman (1977), Roemer (1981), Mainwaring (1984), Petri (1989), Woods (1990), Kurz e Salvadori (1995), Abraham-Frois e Berrebi (1997) e Fiorito (2019), entre outros.
Esses modelos se diferenciam em dois grandes pontos em relação aos modelos neoclássicos ou marginalistas. Primeiro, na determinação dos preços; pode-se pensar que o livro estuda a determinação dos preços de uma forma alternativa aos modelos de equilíbrio geral walrasianos ou competitivos estáticos, desenvolvendo, em particular, a teoria dos preços de produção. Segundo, na determinação da taxa de lucro a partir do conceito de excedente e de exploração, e não como remuneração a um "fator capital".
1.2 A teoria dos preços
Em linha com a definição de Lionel Robbins, para a teoria neoclássica, a ciência econômica é “a ciência que estuda o comportamento humano quanto à relação entre fins e meios escassos que possuem usos alternativos”. A oferta e a demanda, mediadas pelo custo de oportunidade e pelas preferências, respectivamente, são os principais determinantes dos preços dos bens. A escassez desempenha um papel central para explicar os preços de bens não reproduzíveis (ex: uma pintura original). Se tivermos dotações que caem do céu, e que se distribuem de forma arbitrária, a troca desses bens será regulada pelas preferências dos indivíduos. Alfred Marshall analisa este aspecto enfatizando seu aspecto temporal: tal análise corresponde a um “período curto” onde predomina a demanda. A quantidade é considerada fixa, e resta apenas limpar o mercado por meio do preço. E o que determinará seu valor de troca será, então, sua escassez. Podemos, assim, pensar que a determinação última do valor na teoria marginalista corresponde às preferências dos diferentes indivíduos.
No entanto, a determinação de preços para bens reproduzíveis (as chamadas mercadorias) não se encaixa sem fissuras na análise walrasiana e marshalliana. Na teoria clássica, os preços das mercadorias reproduzíveis são determinados pela complexidade do processo produtivo e pela distribuição do excedente. As preferências dos consumidores desempenham um papel secundário. Nos modelos sraffianos e marxistas, assume-se (a princípio) que a economia se reproduz em escala invariante em todos os períodos, no que se costuma chamar de reprodução simples. Os preços devem ser determinados simultaneamente como produtos e insumos, dada uma determinada relação de forças entre classes para ficar com mais ou menos excedente. Se não houver limites à reprodução, não está claro que a escassez e a utilidade marginal decrescente possam explicar os preços das mercadorias.
O anterior não implica que não se deva considerar a escassez e as preferências dos indivíduos. A diferença é que isso é considerado de uma maneira complementar ao modelo de reprodução simples, como um apêndice ao modelo básico. Em particular, os modelos de renda diferencial (Quadrio Curzio e Pellizzari, 1999) estudam o mesmo problema da escassez com ferramentas alternativas.
1.3 A teoria do lucro
A teoria neoclássica considera que o preço é também a soma das retribuições de diferentes fatores de produção, entendidos em um sentido amplo. Isto é, deve-se levar em conta todo o esforço dos sujeitos envolvidos no processo de produção. Nestas duas citações de Marshall, toda a teoria neoclássica da formação do lucro poderia ser exposta. Esta nada mais é do que a soma do esforço de todas as partes que intervêm no processo de produção. “Não é verdade que a fiação de algodão em uma fábrica, após descontar o desgaste do maquinário, seja o produto do trabalho dos operários. É o produto de seu trabalho, conjuntamente com o do patrão e dos diretores subordinados a este, e do capital empregado, e este é o produto do trabalho e da espera” (Marshall, 1890, p. 482). “... Se é verdade que o adiamento de satisfações supõe, em geral, um sacrifício por parte de quem as aplica, assim como um esforço adicional por parte de quem trabalha, e se é verdade que este adiamento permite ao homem utilizar métodos de produção cujo custo primário é grande, mas mediante os quais o gozo total é aumentado, como aconteceria mediante um aumento de trabalho, não pode ser verdade que o valor de uma coisa dependa apenas da quantidade de trabalho gasto nela” (ibidem, p. 483). E, certamente, tudo tem um preço, cuja magnitude nada mais é do que o resultado da interação da oferta e da demanda. Tal preço expressa as relações marginais de substituição, ou seja, o valor de troca na margem.
Podemos identificar três modelos para explicar o lucro ou o benefício na teoria neoclássica [1].
(Nota 1: Ver Howard (1983) para uma discussão sobre as diferentes teorias do lucro e Dobb (1973) para uma discussão sobre como estas se relacionam com a distribuição de renda).
I. Por um lado, a remuneração aos proprietários do capital entendido como meios de produção. Em uma economia de propriedade privada, se a produção necessita de um elemento sobre o qual existem direitos de propriedade claros, o lucro é a remuneração exigida pelo proprietário para que esses elementos sejam disponibilizados para o processo de produção. Esta análise é determinada majoritariamente em uma economia de troca, e a transição para uma de produção não apresenta grandes diferenças conceituais. “Agora devemos levar em conta o fato de que às vezes podem obter novas mercadorias de forma diferente: por meio de transformação técnica, ou produção. É evidente que não adotarão este método a menos que seja mais benéfico do que a simples troca; isto quer dizer que só será vantajoso converter um grupo de bens trocáveis em outro grupo por meio da produção, se o grupo adquirido tiver um valor de mercado superior ao do grupo que é entregue” (Hicks, 1939, p. 86). Esta nada mais é do que uma reafetação dos bens existentes de tal forma que a utilidade resultante seja maior que a soma de seus componentes. E isso pressupõe quebrar a unicidade do sujeito-consumidor maximizador na troca para integrar a “classe dos empresários”, que se distingue do anterior unicamente pelas qualidades dos bens que troca e sobre os quais detém propriedade exclusiva. O empresário “adquire fatores e vende produtos; sua finalidade consiste em levar ao máximo a diferença entre o valor de ambos”. Ele se converterá a tal classe se decidir usar os recursos na produção de forma que lhe reste um excedente positivo. “Além dos fatores adquiridos no mercado, uma empresa pode utilizar também fatores fornecidos pelo próprio empresário” (ibidem, p. 87). Este ponto é essencial para considerar o surgimento do lucro do empresário como proprietário de um “fator capital”, neste caso como um fator (bem) adicional. Neste mesmo marco entra a renda da terra, já que é um fator necessário para a produção.
II. Outra explicação é a remuneração à espera. Sendo proprietários de algo necessário para a produção, entende-se que se remunera o sacrifício de não desfrutar do gozo imediato que seu consumo geraria. Por outro lado, processos que levam mais tempo são, em geral, mais produtivos. Uma conjunção de ambas as formas de considerar que o tempo exige uma remuneração faz parte da explicação do lucro. Wicksell (1901), seguindo Eugen von Böhm-Bawerk, expõe claramente esta concepção: a capacidade criativa do capital deve ser encontrada no elemento tempo. Este pressupõe dois fatores originais: o homem e a natureza (trabalho e terra). “A produtividade de ambos torna-se maior se forem empregados para fins mais distantes do que se forem empregados para a produção imediata de mercadorias” (Wicksell, 1901, p. 150). “O capital é trabalho poupado e terra poupada” (ibidem, p. 154).
III. Finalmente, podemos considerar o lucro como remuneração ao risco. O lucro se realiza (ou não) na circulação caso os palpites dos empresários correspondam efetivamente à valorização da sociedade. Segundo Knight (1921), o produtor assume a responsabilidade de prever as necessidades dos consumidores. E este risco tem seu preço: o lucro do empresário ou seu “salário”. Para Schumpeter (1939), é esta busca incessante por lucros extraordinários que leva ao progresso do capitalismo, graças à inovação (não sem antes passar por processos destrutivos de valor). A teoria neoclássica pressupõe esta separação, já que a otimização delimita as funções de cada um. Esta análise pressupõe direitos de propriedade sobre tais capacidades e sobre os frutos dos ganhos associados à inovação. A relação jurídica que se apresenta então como condição necessária para que exista um fator remunerado desta maneira é a propriedade privada.
Marx considera que as explicações anteriores, em qualquer um de seus formatos, correspondem à “tendência apologética de apresentar o lucro, não como mais-valia, isto é, como trabalho não pago, mas como um salário recebido pelo próprio capitalista em troca do trabalho realizado por ele” (Marx, 1894, p. 371). “O desdobramento do lucro em benefício do empresário e juro levam a termo a substantivação da forma da mais-valia, a cristalização de sua forma frente à sua substância, ao seu ser” (ibidem, p. 767).
O produto bruto de uma economia possui duas partes fundamentais. Por um lado, aquela parte que deve ser reutilizada para continuar o processo produtivo, que inclui os insumos necessários para o ciclo produtivo e o consumo dos trabalhadores, que poderíamos considerar também como parte destes requisitos (ou seja, para a reprodução da força de trabalho). Por outro lado, o chamado excedente ou produto líquido, que se destina ao consumo dos proprietários dos meios de produção ou para expandir as capacidades produtivas (investimento). Uma economia pode ser analisada com base nestes dois componentes quanto à sua magnitude e em como se distribui entre determinadas classes ou grupos. Neste caso, o que mais interessa é a distribuição entre os proprietários dos meios de produção que adiantam seu capital (capitalistas) e os trabalhadores que possuem apenas sua força de trabalho. Neste ponto, há uma discrepância colossal entre a teoria neoclássica, com sua abordagem atomística, e a análise de classes da teoria clássica.
Segundo Garegnani (1984), a abordagem baseada no excedente (surplus approach) é o ponto de partida correto para uma análise econômica do valor e da distribuição. Tanto os modelos sraffianos quanto os marxistas têm como fundamento que os lucros são resultado deste excedente, entendido como a diferença entre os requisitos para produzir e o produto total. A teoria econômica clássica deve estudar como, através de uma economia capitalista, onde as mercadorias são trocadas livremente no mercado usando preços, se explica a determinação conjunta dos preços e das variáveis que compõem a distribuição do excedente.
1.4 Diferenças epistemológicas
Seguindo Lavoie (2009, cap. 1), podemos caracterizar outras diferenças epistemológicas entre a microeconomia heterodoxa e a neoclássica. Nas seções anteriores, sinalizamos as diferenças entre análises centradas na escassez vs. aquelas centradas na produção ou reprodução. A seguir, são assinaladas outras diferenças.
Individualismo vs. holismo. A visão neoclássica baseia-se em um individualismo metodológico onde o indivíduo autônomo e soberano é o centro da análise. Os mercados não são mais do que a soma das contribuições individuais, mesmo considerando as potenciais interações e comportamentos estratégicos. Cabe destacar que, se assumirmos heterogeneidade entre os indivíduos, os componentes agregados herdam poucas atribuições dos elementos individuais, com o que, mesmo quando se justifica a necessidade de agregar indivíduos, em geral há um corte metodológico ao passar do indivíduo ao fenômeno social. No enfoque heterodoxo, no entanto, assume-se que os indivíduos, como seres sociais, pertencem a entidades (classes, instituições, etc.) das quais não necessariamente se pode estabelecer uma derivação metodológica. O todo é mais do que a soma das partes. Estas entidades não são imperfeições do ideário de um mercado atomizado, mas parte central do sistema econômico, proporcionando estabilidade e estrutura. Podemos chamar a visão heterodoxa de holística ou organicista.
O princípio da uniformidade. A partir da análise heterodoxa, assume-se que os produtos são trocados por meio de preços que são consistentes com a reprodução simples e com uma determinada distribuição do excedente entre as classes sociais, em particular, trabalhadores e capitalistas, agregando depois os donos dos fatores fixos (terra). Estes preços são os mesmos para todas as unidades produzidas. Vamos considerar, assim, uma economia no longo prazo, ou equilíbrio, ou também chamado centro de gravidade, onde vamos assumir uma taxa de lucro e salários para trabalho homogêneo uniforme entre todos os setores. Se não houvesse uniformidade, haveria mobilidade de capitais e trabalhadores entre setores em busca de maiores benefícios ou salários. Para que este processo funcione, assume-se livre mobilidade de capitais e trabalhadores, e ausência de barreiras à entrada (ver a discussão de Petri (1989) e Kurz e Salvadori (1995)). Os preços das mercadorias que cumprem estas condições de uniformidade denominam-se preços naturais, preços normais ou também preços de produção. Estes preços são concebidos como valores teóricos e, como tais, distintos dos preços observados em cada momento do tempo, que são chamados preços de mercado.
Racionalidade substantiva. A microeconomia neoclássica parte do pressuposto que estabelece que os indivíduos são dotados de uma racionalidade substantiva. A maioria dos desenvolvimentos baseia-se em um processo de maximização ou otimização, fazendo uso frequente desta racionalidade. No enfoque heterodoxo, a racionalidade expressa desta maneira não desempenha um papel tão central. No entanto, embora em muitos casos não se considere explicitamente o processo de otimização que se atribui a todos os atores econômicos (um tema muito importante na teoria neoclássica), a uniformidade nos modelos heterodoxos assume que, implicitamente, os indivíduos estão maximizando lucros e/ou bem-estar. As firmas que compõem os setores fluem em busca dos maiores ganhos, entendidos estes como uma porcentagem que se aplica ao capital investido. Por outro lado, os trabalhadores também se mobilizam para encontrar o melhor salário, dado seu esforço. Finalmente, consideramos que os consumos observados são também resultado de um processo de otimização, dentro das possibilidades técnicas da economia. Então não é, como muitas vezes se argumenta, que a teoria sraffiana e marxista não têm um processo de otimização adequado, mas, pelo contrário, este desempenha um papel central na determinação do equilíbrio. No entanto, ao não partir de processos de maximização individuais que são agregados, esta não é explicitada.
Atitude perante o mercado. A maioria dos modelos neoclássicos pressupõe que o melhor resultado é alcançado com a livre empresa e o laissez-faire, e que, para isso, o livre mercado e a concorrência pura são a melhor opção. Nos modelos heterodoxos, em particular nos sraffianos e marxistas, o livre mercado não tem associado resultados de eficiência. A concorrência é assumida como uma característica dada de uma economia capitalista. Neste livro, não vamos considerar diferenças no poder de mercado das firmas (ex: monopólio, oligopólio), embora isso desempenhe um papel central na análise neoclássica e na kaleckiana. A posição de longo prazo que se assume nos modelos analisados aqui implicitamente assume que posições de mercado monopólicas ou oligopólicas são suscetíveis de desaparecer eventualmente.
1.5 Percurso deste livro
Os primeiros capítulos desenvolvem o modelo clássico de preços de produção em sua versão sraffiana. O Cap. 2 começa com uma análise do efeito das condições técnicas sobre os modelos de reprodução simples e os limites da taxa de lucro. Neste capítulo, surge um conceito central: o de excedente. O Cap. 3 considera explicitamente a distribuição entre trabalho e capital, ou melhor, entre os capitalistas e os trabalhadores. Estes dois primeiros capítulos baseiam-se em um modelo de duas mercadorias, no qual se pode determinar analiticamente todos os preços e a relação entre a taxa de lucro e o salário. O Cap. 4 generaliza essa análise para uma quantidade genérica de mercadorias, desenvolvendo a ideia da mercadoria padrão. O Cap. 5 analisa uma economia com mais de uma técnica, dando lugar a uma discussão sobre o conceito de capital (com base na Controvérsia do Capital de Cambridge), focando particularmente nos efeitos de preço e reais de Wicksell.
Os capítulos 6 e 7 desenvolvem o modelo marxista em termos da centralidade do valor-trabalho. Diferentemente dos anteriores, utiliza-se uma cesta básica de mercadorias para determinar o salário real, modelo este também empregado nos modelos sraffianos e na concepção clássica da determinação salarial. A partir daí, definem-se os conceitos básicos de mais-valia e exploração, com destaque para o Teorema Fundamental Marxiano, que demonstra que não há lucro sem exploração. Dentro do marco marxista, debate-se a forma correta de realizar a conexão entre os valores-trabalho e os preços de produção, o que se denominou o problema da transformação.
Nos últimos capítulos, são consideradas extensões do modelo de reprodução simples. O Cap. 8 estuda modelos de produção conjunta, puros, de capital fixo e os de determinação de renda diferencial para fatores primários escassos. O Cap. 9 utiliza o modelo sraffiano básico incorporando preferências sobre os bens. Finalmente, o Cap. 10 apresenta uma aproximação simples a modelos de inflação baseados nestes esquemas econômicos, que dão lugar à chamada inflação por conflito distributivo (puja distributiva), típica dos modelos pós-keynesianos.