Sumário
1 Economia Clássica Antiga e Moderna
1.1 Introdução
1.2 Economia Clássica
1.3 Representação por Variáveis de Estado e Teoria do Capital
1.4 Considerações Finais
2 Teoria Clássica Moderna de Preços e Produtos
2.1 Introdução
2.2 Preliminares
2.2.1 O Sistema de Preços de Produção Estacionários
2.2.2 Um Sistema Dinâmico
2.2.3 Taxas de Lucro Diferenciais, Capital Fixo e Produção Conjunta
2.2.4 Economia Aberta
2.3 Limites Normativos
2.3.1 Limites para a Curva Salário-Taxa de Lucro Relativa
2.3.2 Limites para as Curvas Preço-Taxa de Lucro Relativa
2.4 Efeitos sobre os Preços Relativos
2.4.1 Efeitos de Preços das Mudanças na Distribuição de Renda
2.4.2 Efeitos de Preços da Mudança na Produtividade Total
2.5 Considerações Finais
Apêndice: A Abordagem Böhm-Bawerkiana
3 Valores, Preços e Distribuição de Renda em Economias Reais
3.1 Introdução
3.2 Um Exemplo Numérico da Tabela de Insumo-Produto dos EUA
3.2.1 Valores-Trabalho e Preços Diretos
3.2.2 Preços Atuais e Taxas de Lucro
3.2.3 Curvas Salário-Preço de Produção-Taxa de Lucro
3.3 Estimativas de Preços para Várias Economias Reais
3.3.1 Grécia
3.3.2 Japão
3.3.3 Canadá, China, Coreia, Reino Unido e EUA
3.4 A Aproximação Polinomial de Steedman
3.5 Comparações de Preços Intertemporais
3.6 Diferenças entre Preços de Produção e Preços Diretos e Diferenças de Intensidade de Capital
3.7 Ilustração Empírica dos Limites para os Preços de Produção
3.8 A Monotonicidade das Curvas Preço de Produção-Taxa de Lucro
3.8.1 China
3.8.2 Grécia
3.8.3 Japão
3.8.4 Finlândia
3.9 Ilustração Empírica da Curva Salário-Taxa de Lucro
3.10 Considerações Finais
Apêndice 1: Fontes de Dados e Construção de Variáveis
Apêndice 2: Uma Nota sobre as Tabelas de Oferta e Utilização
4 Medidas de Desvio entre Preço de Produção e Valor-Trabalho e Condições de Produção
4.1 Introdução
4.2 Análise Teórica de uma Economia de Dois Setores
4.3 Generalização
4.4 Ilustração Empírica
4.5 Considerações Finais
Apêndice: Medidas Livres de Numéraire
5 Decomposições Espectrais de Economias de Produto Único
5.1 Introdução
5.2 Decomposições Espectrais
5.2.1 Numéraire Arbitrário
5.2.2 Mercadoria-Padrão de Sraffa
5.3 Evidência Empírica
5.3.1 Distribuições de Autovalores e Valores Singulares
5.3.2 Aproximações da Taxa de Lucro-Preço-Salário
5.3.3 Efeitos de Preços Relativos da Mudança na Produtividade Total
5.3.4 Auto-desvio dos Preços Commandados pelo Trabalho em relação aos Valores-Trabalho
5.4 Considerações Finais
6 Estabilidade e Perturbações de Bródy
6.1 Introdução
6.2 A Conjectura de Bródy: Fatos e Números da Economia dos EUA
6.3 Procedimentos Iterativos Marxianos
6.4 Flutuações Agregadas a partir de Choques Setoriais
6.5 Considerações Finais
Apêndice 1: Sobre o Multiplicador Sraffiano
Apêndice 2: Efeitos de Preços da Desvalorização Cambial
1.1 Introdução
O termo "economia política clássica" foi cunhado originalmente por Karl Marx para caracterizar todos os economistas que começam com William Petty, na Inglaterra, e Pierre Le Pesant de Boisguilbert, na França, e terminam com Ricardo, na Inglaterra, e Simonde de Sismondi, na França. Segundo Marx, o foco dos economistas clássicos era a determinação do excedente (valor), definido como a diferença entre o valor da produção total e o valor dos insumos (de trabalho e não trabalho) utilizados na produção.
O principal problema com o qual a teoria clássica do valor e da distribuição se deparou foi a relação entre a criação do excedente e o funcionamento do sistema de preços das mercadorias, que permite o surgimento do excedente sob a forma de lucro, renda, juros e impostos, ao passo que o salário real, ou seja, a cesta de mercadorias que os trabalhadores normalmente adquirem, aparece sob a forma de salário monetário.Na abordagem clássica, o excedente é definido como a diferença entre as mercadorias produzidas e aquelas que são necessárias para a reprodução da sociedade. Formalmente falando, o excedente é igual ao vetor do produto bruto menos o vetor dos insumos intermediários e dos salários reais. Essa diferença é chamada de excedente porque é uma quantidade determinada residualmente e, portanto, pode ser consumida ou investida. Se todo o excedente for consumido, a sociedade estará em seu estado estacionário ou de reprodução simples, o que, no entanto, só pode ser concebido como um caso teórico interessante, e não como uma possibilidade realista, uma vez que o capitalismo é, por sua própria natureza, um sistema inerentemente propenso ao crescimento. Quanto mais o excedente for destinado ao investimento líquido, maior será o crescimento da economia; e se todo o excedente for investido, a economia se expandirá à sua taxa máxima de crescimento ou, em termos de reprodução, a economia atingirá sua reprodução ampliada máxima.
Com esse contexto em mente, quando investigamos a quantificação do excedente, percebemos que não estamos lidando com uma quantidade homogênea, mas sim com um vetor de mercadorias heterogêneas a partir do qual não podemos nos referir às suas formas específicas. Uma saída que foi tentada por David Ricardo (1815) é teorizar a produção como ocorrendo em um único setor, onde a mesma mercadoria serve simultaneamente como insumo e produto produzido. O milho, por exemplo, poderia ser tal mercadoria, e a taxa de lucro do setor do milho seria igual à razão entre o excedente de milho e os insumos de milho (semente de milho e salários reais dos trabalhadores). Além disso, a concorrência garantiria que a taxa de lucro se equalizasse nos demais setores da economia. Assim, dada a taxa de lucro uniforme da economia e a taxa de salário real, poderíamos, em princípio pelo menos, determinar os preços reais das mercadorias. A segunda saída é expressar tanto os insumos quanto os produtos em termos de tempo de trabalho ("teoria pura do valor-trabalho"). No entanto, por mais simples que seja essa alternativa, havia uma série de problemas para os quais os economistas clássicos não chegaram a nenhuma solução satisfatória (particularmente para aqueles problemas relacionados à interação entre as parcelas da renda e os preços das mercadorias). A terceira forma é expressar a produção de mercadorias como um sistema de n equações com n preços de mercadorias (sempre assumindo indústrias de produto único). O problema desse tratamento é a determinação das variáveis distributivas, o que já não é trivial ao se assumir apenas duas classes sociais, ou seja, capitalistas e trabalhadores. Embora os antigos economistas clássicos estivessem alinhados a esse tratamento, eles não conseguiram chegar a uma solução completa porque muitos dos preliminares matemáticos necessários ainda não haviam sido descobertos (por exemplo, os teoremas de Perron-Frobenius para matrizes semipositivas).
A premissa de que a livre concorrência tenderá a equalizar as taxas de lucro intersetoriais à taxa geral da economia é de suma importância para a análise clássica. O mecanismo para essa equalização tendencial é a aceleração ou desaceleração da acumulação de capital. Por exemplo, se uma indústria obtém uma taxa de lucro acima da geral da economia, a acumulação de capital nesse setor se acelera e a expansão de sua produção reduz o preço ao nível que confere a taxa de lucro geral. O inverso é verdadeiro para as indústrias que obtêm uma taxa de lucro menor. Nesse caso, a desaceleração da acumulação e a redução da produção elevam o preço do produto a um nível em que ele incorpora a taxa de lucro geral. Essa posição em direção à qual o sistema econômico gravita, na qual os preços, os produtos e a taxa de lucro estão em seus níveis normais, é chamada de equilíbrio de longo período, e a análise de tais posições é chamada de método de longo período. Deve-se ressaltar, de início, que o termo "longo período" refere-se ao tempo analítico, que é necessário até que o sistema atinja sua posição normal.
Este capítulo introdutório serve para delineiar as relações centrais entre as teorias clássica, neoclássica tradicional e clássica moderna do valor, da distribuição e do capital.¹ Com base tanto na teoria mais recente quanto na representação moderna de variáveis de estado de sistemas lineares, ele também define a premissa básica do presente livro.
¹ Para uma discussão na história do pensamento econômico sobre as estruturas das abordagens clássica e neoclássica, veja Tsoulfidis (2010, Caps. 6 e 7, 2011).
O restante do capítulo está estruturado da seguinte forma. A Seção 1.2 expõe as relações entre as referidas teorias e aponta a fonte das dificuldades conceituais e analíticas para as teorias tradicionais. A Seção 1.3 esboça a importância da representação por variáveis de estado de sistemas lineares de produção para a teoria do capital. Finalmente, a Seção 1.4 conclui.
1.2 Economia Clássica
Embora nenhum dos antigos economistas clássicos tenha especificado o "núcleo" de sua teoria de forma explícita, pode-se teorizar, tanto em bases lógicas quanto textuais, que as contribuições clássicas para a teoria do valor e da distribuição compartilham um conjunto comum de variáveis determinadas exogenamente. Este conjunto inclui apenas quantidades observáveis e mensuráveis (ou calculáveis) e diz respeito (Kurz e Salvadori 1998, p. 8)²:
² Considere também Pasinetti (1959–1960, 1981), Eatwell (1983), Garegnani (1984) e Steedman (1979a, Caps. 1–3, 1998).
(i) O conjunto de alternativas técnicas a partir das quais os produtores minimizadores de custos podem escolher
(ii) O tamanho e a composição do produto social, refletindo as necessidades e desejos dos membros das diferentes classes da sociedade e os requisitos de reprodução e acumulação de capital
(iii) A(s) taxa(s) de salário real vigente(s)
(iv) As quantidades de diferentes qualidades de terra disponíveis e os estoques conhecidos de recursos esgotáveis (como depósitos minerais)
As referidas variáveis independentes são suficientes para determinar completamente as incógnitas ou variáveis dependentes do sistema, ou seja, a taxa de lucro, as taxas de renda da terra e os preços relativos das mercadorias de longo período (ou preços de (re-)produção).
Os economistas clássicos tinham tudo o acima exposto implícito em suas análises, mesmo que não tivessem uma visão única. Por exemplo, a teoria do valor de Ricardo não era a mesma que a de Marx, enquanto também havia os economistas pró-trabalho (por exemplo, Robert Owen, William Thompson e Thomas Hodgskin), que — inspirados pela teoria ricardiana do valor-trabalho — afirmavam que todo o excedente deveria pertencer aos trabalhadores, pois são eles os criadores do excedente; segue-se, portanto, que o lucro do capitalista e a renda do proprietário de terras são deduções diretas do valor das mercadorias. Em suma, o valor de uma mercadoria deve ser igual ao trabalho que entrou em sua produção, o que equivale a dizer que nem os lucros nem as rendas são rendas justificadas em termos morais. O valor das mercadorias é criado apenas pelo trabalho e, portanto, todo o valor de uma mercadoria deveria pertencer aos trabalhadores. Essa variante bastante normativa da teoria do valor-trabalho deu origem a um movimento anticapitalista. Um problema dessa natureza, que se desenvolveu no âmbito da teoria do valor-trabalho, juntamente com a incapacidade dos proponentes dos antigos economistas clássicos de fornecer respostas satisfatórias a certas questões espinhosas (ou seja, o papel da demanda, a quantidade de capital empregado, etc.), levou à "desintegração da escola ricardiana" e, com ela, do pensamento clássico.
Gradualmente, muitos economistas descartaram a ideia de preço determinado por "forças" de mercado sistemáticas e, portanto, persistentes, e, em vez disso, aderiram à ideia de que os preços das mercadorias são determinados pelas forças efêmeras da oferta e da demanda, ou seja, pela concorrência. Marx caracterizou essa abordagem como "vulgar" simplesmente porque atribuía a determinação dos preços de mercado à mera operação da concorrência e não a algo mais fundamental "por trás" das forças de demanda e oferta que pudesse estabelecer uma relação causal.
Com esse contexto, não chega a ser surpresa que um número crescente de economistas tenha começado a se afastar do pensamento clássico, embora não de muitas das ideias clássicas, e até mesmo a teoria do valor-trabalho tenha permanecido por algum tempo (especialmente entre os economistas britânicos). O que estava realmente em jogo era a causalidade, que, para os antigos economistas clássicos, ia da determinação do custo por meio da quantidade de tempo de trabalho até os preços de equilíbrio, ao passo que, para os economistas neoclássicos, a "seta da causalidade" parte da demanda, que é determinada pela "utilidade" (cardinal ou ordinal). A oferta (ou custo de produção), por outro lado, era determinada pela utilidade negativa ou desutilidade e, ao fazer isso, os economistas neoclássicos conseguiram expressar a oferta em termos de uma unidade de medida comum. Por exemplo, o salário é a compensação pela desutilidade que os trabalhadores sofrem ao oferecer parte de sua dotação de serviços de trabalho. Da mesma forma, os lucros e as rendas são as compensações pela desutilidade que os proprietários de capital e terra, respectivamente, sofrem ao contribuir com suas dotações para a produção de bens e (outros) serviços. Tendo expressado a oferta como desutilidade, os economistas neoclássicos puderam juntar demanda e oferta para a determinação simultânea do preço e da quantidade de equilíbrio. Para a determinação desse equilíbrio, os indivíduos se comportam racionalmente, ou seja, exibem um comportamento otimizador. Não há dúvida de que este é um problema de otimização, onde o ganho total é maximizado uma vez que o benefício marginal (utilidade) é igual ao sacrifício marginal (desutilidade) (ver também Eatwell 1983; Kurz e Salvadori 2015). É interessante notar que, nesta nova teoria "neoclássica ou marginalista", o individualismo somado ao subjetivismo é a principal característica tanto das decisões de demanda quanto de oferta. Nesse sentido, a teoria neoclássica, por se referir ao longo período e reconhecer forças sistemáticas que estão por baixo das curvas de demanda e oferta, não pode ser caracterizada como vulgar.
Claramente, a diferença substancial entre a antiga teoria clássica e a nova teoria não foi totalmente compreendida nem mesmo pelos principais proponentes da "revolução marginalista" da década de 1870 (considere também Milgate e Stimson 2011, Cap. 13).
Por exemplo, Léon Walras ([1874–1877] 1954) afirmou que o sistema clássico é, no melhor dos casos, subdeterminado:
Devemos agora discutir a teoria [inglesa, ou seja, clássica] matematicamente para mostrar quão ilusória ela é. Seja P o preço agregado recebido pelos produtos de uma empresa; sejam S, I e F, respectivamente, os salários, os encargos de juros e a renda desembolsados pelos empreendedores, no curso da produção, para pagar os serviços das faculdades pessoais, do capital e da terra.
Lembremo-nos agora de que, de acordo com a Escola Inglesa, o preço de venda dos produtos é determinado pelos seus custos de produção, ou seja, é igual ao custo dos serviços produtivos empregados. Assim, temos a equação P = S + I + F, e P está determinado para nós. Resta apenas determinar S, I e F. Certamente, se não é o preço dos produtos que determina o preço dos serviços produtivos, mas o preço dos serviços produtivos que determina o preço dos produtos, devemos ser informados sobre o que determina o preço dos serviços. É precisamente isso que os economistas ingleses tentam fazer. Para esse fim, eles constroem uma teoria da renda de acordo com a qual a renda não está incluída nas despesas de produção, mudando assim a equação acima para P = S + I.
Tendo feito isso, eles determinam S diretamente pela teoria dos salários. Então, finalmente, eles nos dizem que "a quantia de juros ou lucro é o excesso do preço agregado recebido pelos produtos sobre os salários desembolsados em sua produção", em outras palavras, que é determinada pela equação I = P - S.
Está claro agora que os economistas ingleses estão completamente perplexos com o problema da determinação do preço; pois é impossível que I determine P ao mesmo tempo em que P determina I. Na linguagem da matemática, uma equação não pode ser usada para determinar duas incógnitas. Esta objeção é levantada sem qualquer referência à nossa posição sobre a maneira pela qual a Escola Inglesa elimina a renda antes de se propor a determinar os salários.³ (pp. 424–425)
³ Como Kurz (2014, p. 11) observa, "o mesmo tipo de crítica pode ser encontrado também nos tempos mais recentes" (e refere, como exemplo, dois artigos de Kenneth J. Arrow, publicados em 1972 e 1991).
Esta objeção crucial fornece o ponto de partida para a construção de um sistema de determinação bastante diferente, conhecido como o sistema neoclássico (tradicional), no qual as variáveis determinadas exogenamente são (Kurz e Salvadori 1998, p. 10):
(i) O conjunto de alternativas técnicas a partir das quais os produtores minimizadores de custos podem escolher
(ii) As preferências dos consumidores (que não são diretamente observáveis)
(iii) As dotações iniciais da economia com todos os "fatores de produção", incluindo o "capital", e a distribuição dos direitos de propriedade entre os agentes individuais
Dentro desse sistema, tanto os preços quanto as variáveis distributivas são explicados simultânea e simetricamente em termos de demanda e oferta de "bens" e serviços dos "fatores de produção", respectivamente e, assim, refletem as "escassezes relativas" desses "bens e fatores".
Quase três décadas depois, Vladimir K. Dmitriev (1898), "uma figura romântica e sombria, que fundou a economia matemática russa" (Samuelson 1975, p. 491), começou explicitamente com a objeção de Walras e então demonstrou que, em sistemas de produção lineares fechados envolvendo apenas produtos únicos, capital circulante e duas variáveis distributivas, ou seja, as taxas de salário e de lucro, o conjunto de dados clássico (ou, mais precisamente, ricardiano) é suficiente para uma determinação simultânea da taxa de lucro e dos preços relativos das mercadorias (ver também Kurz e Salvadori (2002)). Em particular, ele mostrou que:
(i) A relação entre a taxa de salário monetário e a taxa de lucro é estritamente decrescente, independentemente do numerário escolhido.
(ii) A taxa de lucro é determinada pela taxa de salário real e pelas condições técnicas de produção nas indústrias que produzem mercadorias-salário e meios de produção usados, direta ou indiretamente, na produção de mercadorias-salário. De acordo com Dmitriev (1898):
Dificilmente alguém contestará que o único processo que determina o nível do lucro no momento presente é o processo [de insumo de fluxo - ponto de produto] de produção dos meios de subsistência dos trabalhadores (capitale alimento [Achille Loria]). [...] [A] investigação das condições que afetam o nível [da taxa de salário real] está fora do escopo (e da competência) da economia política e dentro de outras disciplinas [...] [A] economia política deve tomar [a taxa de salário real] como dada em sua análise.⁴ (pp. 73–74)
⁴ Para críticas a esta afirmação, e à forma de fechar o sistema, ver, por exemplo, Samuelson (1975, p. 493) e Fan (1983).
(iii) A taxa de lucro é positiva se, e somente se, o mais-valor (ou o trabalho excedente) for positivo ou, equivalentemente, se, e somente se, os requisitos totais de insumos da mercadoria i (i = 1, 2, ..., n) necessários para produzir 1 unidade de produto bruto da mercadoria i forem menores que 1.
(iv) Os preços podem ser reduzidos a quantidades físicas de trabalho, ponderadas pela taxa de lucro composta apropriada às suas datas conceituais de aplicação. Logo, os preços relativos são independentes das condições de demanda.
(v) Os preços são proporcionais aos valores-trabalho apenas quando a taxa de lucro é zero ou quando a "composição de valor do capital" (Marx) é uniforme em todas as indústrias (retornaremos a todas essas questões no Cap. 2).
(vi) O sistema neoclássico é, na verdade, baseado na extensão do "princípio da escassez", que Ricardo (e outros economistas clássicos) haviam limitado apenas aos recursos naturais, para todos os "bens e fatores de produção" (considere também Mühlpfordt 1895, pp. 92–93 e 98–99).
Assim, Dmitriev (1898) finalmente concluiu que
Dirigir à teoria de Ricardo a reprovação batida de que ela "define o preço em termos de preço" é manifestar uma completa falta de compreensão dos escritos deste teórico econômico muito grandioso. (p. 61)
A economia clássica moderna é fundada sobre a obra de Piero Sraffa. Como Garegnani (1998) enfatiza:
A importância do trabalho de [Sraffa] para a teoria econômica de hoje parece repousar essencialmente nos seguintes três elementos: (1) sua redescoberta da abordagem teórica característica dos economistas clássicos; (2) sua solução de algumas dificuldades analíticas chave que não foram resolvidas por Ricardo e Marx; (3) sua crítica à teoria marginal. (p. 395)
As proposições da economia clássica moderna que são particularmente importantes para o presente livro podem ser resumidas da seguinte forma⁵:
⁵ Ver Bhaduri (1966), Pasinetti (1966), Garegnani (1970), Steedman (1979a, b), Kurz e Salvadori (1995) e as referências therein. No sistema da economia clássica moderna, a(s) taxa(s) de salário real não é necessariamente uma variável dada exogenamente. Esse sistema determina relações entre, por um lado, variáveis distributivas e preços de mercadorias e, por outro lado, crescimento, produtos físicos e alocações de trabalho. Assim, existem formas alternativas de fechá-lo (considere, por exemplo, a "teoria monetária da distribuição", ou seja, a possível determinação da taxa de lucro pela taxa de juros monetária; Sraffa 1960, p. 33, Panico 1988, Pivetti 1991).
(i) Dada a taxa de salário real, os preços relativos das mercadorias dependem da taxa de lucro, e a taxa de lucro depende dos preços relativos das mercadorias. Consequentemente, "a distribuição do excedente deve ser determinada através do mesmo mecanismo e ao mesmo tempo que os preços das mercadorias" (Sraffa 1960, p. 6).
(ii) Mesmo com métodos de produção inalterados, mudanças na distribuição de renda ativam efeitos de retroalimentação de preços, o que implica que as direções dos movimentos de preços relativos são governadas não apenas pelas diferenças nas intensidades de capital relevantes, mas também pelos movimentos das intensidades de capital relevantes. Assim, a direção dos movimentos de preços relativos não pode ser conhecida a priori.
(iii) A "intensidade de capital" das técnicas de produção não precisa diminuir (aumentar) à medida que a taxa de lucro (salário) sobe.
(iv) As referidas proposições implicam que as tentativas da escola neoclássica tradicional ou austríaca de partir de uma dada "quantidade de capital" ou de um "período médio de produção" para determinar a taxa de lucro ou de juros são mal fundamentadas. Elas também minam a análise neoclássica de demanda e oferta por "capital" e trabalho e, assim, a explicação das variáveis distributivas como os preços dos serviços dos "fatores de produção" que refletem suas "escassezes". Com efeito, todas as afirmações e relações derivadas de uma função de produção agregada ou de uma estrutura de período médio de produção não podem, em geral, ser estendidas para além de um mundo onde (a) não há meios de produção produzidos; ou (b) há meios de produção produzidos, enquanto a taxa de lucro sobre o valor desses meios de produção é zero (ver também Samuelson 1953–1954, pp. 17–19); ou, finalmente, (c) essa taxa de lucro é positiva, enquanto a economia produz uma e apenas uma mercadoria, simples ou composta (ver também Steedman 1994). Naquele mundo, também existem afirmações clássicas e marxianas tradicionais que são necessariamente válidas. Burmeister (1975) observou:
Não há dúvida de que a economia seria uma disciplina mais fácil se Deus tivesse imposto a restrição de "composição de capital [de valor] orgânica igual" ao mundo, uma restrição tecnológica da natureza tão imutável quanto as leis da física. (p. 456)
Pode-se, portanto, concluir que as dificuldades conceituais e analíticas das teorias tradicionais do valor e da distribuição surgem da existência de complexas ligações intersetoriais no caso realista de produção de mercadorias e lucros positivos por meio de mercadorias.