ARESTIS, Philip; SAWYER, Malcolm (ed.). Frontiers of Heterodox Macroeconomics. Cham: Palgrave Macmillan, 2019.
SUMÁRIO
1 Crítica à Macroeconomia do Novo Consenso e uma Proposta para um Modelo Macroeconômico mais Keynesiano — Philip Arestis (1)
2 Abordando Déficits Orçamentários, Dívidas e Moeda de uma Maneira Socialmente Responsável — Malcolm Sawyer (45)
3 Avanços na Análise Pós-Keynesiana de Moeda e Finanças — Marc Lavoie (89)
4 Por que a Crise Financeira do Subprime Deveria Ter Sido Evitada e Implicações para a Atual Política Macroeconômica e Regulatória — J. S. L. McCombie e M. R. M. Spreafico (131)
5 Inflação: Falhas das Metas de Inflação — Uma Perspectiva Europeia — Elisabeth Springler (173)
6 Modelos Dinâmicos de Estoque-Fluxo Consistentes: Características, Limitações e Desenvolvimentos — Emilio Carnevali, Matteo Deleidi, Riccardo Pariboni e Marco Veronese Passarella (223)
7 Política Fiscal e Sustentabilidade Ecológica: Uma Perspectiva Pós-Keynesiana — Yannis Dafermos e Maria Nikolaidi (277)
8 Estagnação Secular e Estrutura de Classes de Renda na Europa: Implicações Políticas e Institucionais — Salvador Pérez-Moreno e Elena Bárcena-Martín (323)
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Cap. 01 - Crítica à Macroeconomia do Novo Consenso e uma Proposta para um Modelo Macroeconômico mais Keynesiano — Philip Arestis (1)
1 Introdução
Esta contribuição começa com a Macroeconomia do Novo Consenso (NCM) no caso de uma economia aberta (ver também, Arestis 2007a, b, 2009b, 2011; Arestis e González Martinez 2015), a qual é discutida criticamente. Devemos notar que a "Crise Financeira Global" (GFC) e a "Grande Recessão" (GR) forçaram a profissão a começar a reexaminar as proposições teóricas e de política da NCM. Blanchard (2011), por exemplo, argumenta que a crise “nos força a fazer um reexame total daqueles princípios” (p. 1). É verdade que, após a GR, alguns aspectos da NCM foram questionados e mudanças relevantes foram empreendidas. No entanto, os problemas permanecem.
Propomos um novo arcabouço teórico que vai muito além da NCM e de sua principal política de metas de inflação (ver também, Arestis 2007b, 2009b, 2010). Discutimos nosso arcabouço teórico juntamente com suas políticas econômicas e sugerimos que, além das políticas fiscal e monetária, que devem ser devidamente coordenadas, duas "novas" dimensões de política, que haviam sido ignoradas antes da GFC, sejam propostas. Essas políticas são os efeitos distributivos e a estabilidade financeira, ambos necessários para evitar crises semelhantes à GFC e à subsequente GR.
Prosseguimos na Seção 2 com o arcabouço teórico de economia aberta da NCM e suas implicações de política; avaliamos criticamente a NCM e suas implicações de política. A Seção 3 trata de nossa proposta de um arcabouço teórico diferente, juntamente com suas implicações de política econômica, enfatizando as políticas distributivas e de estabilidade financeira. A Seção 4 resume e conclui.
2 Novo Consenso Macroeconômico e Implicações de Política
Discutimos nesta seção o modelo NCM para uma economia aberta, juntamente com suas implicações de política.
2.1 O Modelo NCM para uma Economia Aberta
Utilizamos o seguinte modelo de seis equações para o modelo NCM de economia aberta [1]:
[1]: As seis equações baseiam-se em Arestis (2007b, 2011); ver também Angeriz e Arestis (2007) e Arestis e González Martinez (2015). Adicionamos revisões e argumentos relevantes conforme necessário.
Os símbolos têm o seguinte significado: a0,d0, e e0 são constantes; Yg é o hiato do produto doméstico (a diferença entre o produto atual e o de tendência; este último é o produto que prevalece quando os preços são perfeitamente flexíveis e, como tal, é uma variável de longo prazo, determinada pelo lado da oferta da economia); Ywg é o hiato do produto mundial; R é a taxa de juros nominal; Rw é a taxa de juros nominal mundial; p é a taxa de inflação doméstica; pw é a taxa de inflação mundial; e pT é a meta de inflação a ser alcançada pelo Banco Central independente. RR∗ é a taxa de juros real de "equilíbrio", ou seja, a taxa de juros consistente com um hiato do produto zero, o que implica, pela Eq. (2), uma taxa de inflação constante; (rer) representa a taxa de câmbio real e (er) a taxa de câmbio nominal, definida como na Eq. (6) e expressa como unidades de moeda estrangeira por unidade de moeda doméstica. CA é a conta corrente do balanço de pagamentos; si (com i=1,2,3,4,5) representa choques estocásticos; e Et refere-se às expectativas formadas no tempo t. Pw e P (ambos em logaritmos) são os níveis de preços mundial e doméstico, respectivamente. A variação na taxa de câmbio nominal pode ser derivada da Eq. (6) como em Δer=Δrer+ptw−pt.
A Equação (1) é a equação da demanda agregada, com o hiato do produto atual determinado pelo hiato do produto passado e futuro esperado, pela taxa de juros real e pela taxa de câmbio real (através dos efeitos sobre a demanda de exportações e importações). A Equação (1) emana da otimização intertemporal da utilidade vitalícia esperada do agente representativo que nunca entra em inadimplência em suas dívidas, e sob a suposição de rigidez salarial e de preços de curto prazo ou fricções do tipo Calvo (1983). Esta otimização reflete a suavização do consumo ideal sujeita a uma restrição orçamentária e baseada na condição de transversalidade de que todas as dívidas são, em última instância, pagas integralmente. Esta última condição significa que todos os agentes econômicos, com suas expectativas racionais, possuem solvência perfeita e os agentes nunca entrariam em inadimplência. Não há, portanto, necessidade de um ativo monetário específico. Nessas circunstâncias, nenhum agente econômico ou empresa individual possui restrição de liquidez, o que implica que não há necessidade de intermediários financeiros (bancos comerciais/de investimento ou outros intermediários financeiros não bancários) e moeda (ver também, Goodhart 2004, 2007, 2009).
A não aparição da moeda no modelo é justificada pela suposição de que o Banco Central permite que o estoque de moeda seja um resíduo para atingir a taxa de juros real desejada (Woodford 2008). Desse modo, a moeda não desempenha outro papel além de ser uma unidade de conta (Galí e Gertler 2007). Além disso, há a questão do papel do investimento, introduzido em termos da expansão do estoque de capital necessária para sustentar o crescimento da renda. Assume-se, então, que não há uma função de investimento independente que surja das decisões das empresas (Woodford 2003, Capítulo 4).
A Equação (3) é uma regra de política monetária do tipo Taylor (1993, 1999, 2001). Ela é derivada da otimização da função de perda das autoridades monetárias sujeita ao modelo utilizado. A taxa de juros nominal assim derivada está relacionada à taxa de juros de equilíbrio (RR∗), definida como a "taxa de retorno real de equilíbrio quando os preços são totalmente flexíveis" (Woodford 2003, p. 248), à inflação esperada, ao hiato do produto, ao desvio da inflação em relação à meta e com a taxa de juros defasada representando a suavização (smoothing) da taxa de juros das autoridades monetárias. Assume-se que a taxa de câmbio não desempenha papel na fixação das taxas de juros (exceto na medida em que as mudanças na taxa de câmbio afetam a taxa de inflação, o que claramente alimentaria a regra da taxa de juros). Quando a inflação está na meta e o hiato do produto é zero, a taxa real atual é igual à taxa de juros de equilíbrio RR∗. Isso implica que, desde que o Banco Central tenha uma estimativa precisa de RR∗, a economia pode ser guiada para um equilíbrio na forma de hiato do produto zero e taxa de inflação meta constante. Nesse caso, a Eq. (1) indica que a demanda agregada está em um nível consistente com um hiato do produto zero. Isso implicaria que a taxa de juros real RR∗ traz a igualdade entre poupança e investimento (ex ante), o que corresponde à "taxa natural" de juros wickselliana (Wicksell 1898).
A Equação (4) determina a taxa de câmbio como uma função da diferença entre as taxas de juros doméstica e mundial, da conta corrente e das expectativas de taxas de câmbio futuras. A Equação (5) determina a conta corrente como uma função da taxa de câmbio real e dos hiatos do produto doméstico e mundial. A Equação (6) expressa a taxa de câmbio nominal em termos da taxa de câmbio real. Deve-se enfatizar que, como a taxa de câmbio não desempenha nenhum papel direto na fixação das taxas de juros pelo Banco Central (como na Eq. 3), o arcabouço NCM tem sido criticado por, por exemplo, Angeriz e Arestis (2007). A crítica é que, ao ignorá-la, corre-se o risco de uma combinação de estabilidade de preços internos e instabilidade da taxa de câmbio. Sugere-se, portanto, que a taxa de câmbio deva ser incluída na Eq. (3).
Existem seis equações e seis incógnitas: produto, taxa de juros, inflação, taxa de câmbio real, conta corrente e taxa de câmbio nominal.
Procedemos na Seção 2.2 à discussão das implicações de política econômica do modelo NCM.
2.2 Implicações de Política Econômica do Modelo NCM
O modelo NCM é um arcabouço no qual não há papel para ‘bancos e moeda’, e existe apenas uma única taxa de juros. A estabilidade de preços é o objetivo primário da política monetária. A inflação é vista como um fenômeno monetário e, como tal, só pode ser controlada pela política monetária; sendo esta a taxa de juros fixada pelo Banco Central. A política monetária é, portanto, realizada por meio do regime de metas de inflação (IT), que exige que os Bancos Centrais utilizem a inflação como um indicador de quando expandir ou contrair a política monetária. Os Bancos Centrais devem ser independentes e não devem ser afetados por políticos. A política monetária é, assim, elevada, tendo como seu principal objetivo a manutenção da ‘estabilidade de preços’. Assume-se também que, uma vez alcançada a estabilidade de preços, a estabilidade macroeconômica e financeira emergirá. A política fiscal é rebaixada como um instrumento ativo de política econômica. Ela deve basear-se apenas em estabilizadores automáticos, mas, mais importante, deve preocupar-se em equilibrar amplamente o orçamento do governo. Isso se baseia no crowding out (efeito deslocamento) dos déficits governamentais, na hipótese de expectativas racionais e no Teorema da Equivalência Ricardiana.
Outra suposição importante é a existência de rigidezes nominais de curto prazo na forma de salários, preços e informação rígidos (sticky). Isto ocorre porque as empresas fixam seus preços com base nos custos marginais atuais e futuros. Os custos marginais futuros, entretanto, são relativamente pouco afetados pela política monetária; a inflação, portanto, não é afetada por mudanças na taxa nominal de juros no curto prazo (Christiano et al. 2018, p. 116). No entanto, as mudanças na taxa de juros real, que afetam o consumo atual, levam a uma mudança na renda do trabalho, afetando assim contemporaneamente o consumo e o emprego. O emprego influencia os salários e os custos marginais, influenciando, por sua vez, a inflação no médio e longo prazo. O papel da ‘inflação esperada’, incluído na Eq. (3), também é importante. A própria meta de inflação e as previsões do Banco Central são consideradas como fornecedoras de uma forte orientação para a percepção da inflação esperada. Dados os atrasos no mecanismo de transmissão da taxa de juros para a inflação e o controle imperfeito da inflação, as previsões de inflação tornam-se o alvo intermediário da política monetária, sendo o alvo final a taxa de inflação real (Svensson 1997, 1999).
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