sábado, 8 de agosto de 2026

Cap. 03 - Fundamentos Microeconômicos e Padrões Macroeconômicos - Anwar Shaikh

Capítulo 3: Micro fundações e padrões macro (Micro Foundations and Macro Patterns)

  • I. Introdução (Introduction)

  • II. Microprocessos e macro padrões (Micro-processes and macro-patterns)

    1. Representando o comportamento humano individual (Representing individual human behavior)

    2. Representando o comportamento agregado (Representing aggregate behavior)

    3. Relações agregadas, microfundações e a questão do rigor (Aggregate relations, micro-foundations and the question of rigor)

  • III. Estruturas de Contenção, Gradientes Econômicos e Propriedades Emergentes Agregadas (Shaping Structures, Economic Gradients and Aggregate Emergent Properties)

    1. Estrutura analítica para uma microeconomia robusta (Analytical framework for robust microeconomics)

    2. Curvas de demanda inclinadas para baixo (Downward sloping demand curves)

    3. Elasticidades de renda e Lei de Engel (Income elasticities and Engel’s Law)

    4. Funções de consumo e poupança agregadas (Aggregate consumption and saving functions)

    5. Simulações: Insensibilidade das relações agregadas às microfundações (Simulations: Insensitivity of aggregate relations to micro foundations)

  • IV. Metodologia para a Análise Econômica (Methodology for Economic Analysis)

  • V. Gravitação turbulenta (Turbulent gravitation)

    1. Equilíbrio como um processo turbulento versus equilíbrio como um estado alcançado (Equilibrium as a turbulent process versus equilibrium as an achieved state)

    2. Estática, dinâmica e ciclos de crescimento (Statics, dynamics and growth cycles)

    3. Diferenças nas dimensões temporais das principais variáveis econômicas (Differences in the time dimensions of key economic variables)

  • VI. Resumo e implicações centrais (Summary and core implications)

I. INTRODUÇÃO  

O capítulo anterior demonstrou que economias capitalistas bem-sucedidas são caracterizadas por alguns padrões de longo prazo muito poderosos, nos quais ordem e desordem aparecem lado a lado. Isso levanta imediatamente duas questões metodológicas fundamentais. Em primeiro lugar, dado que o capitalismo é um sistema social dinâmico cujas culturas, instituições e políticas mudam substancialmente no longo prazo, como é possível que as interações contínuas de sucessivas gerações de milhões de indivíduos possam gerar padrões recorrentes e estáveis? E, caso respondamos com sucesso à primeira pergunta, surge logo em seguida uma segunda: quais noções teóricas de equilíbrio, processo de ajuste e dinâmica são apropriadas para os tipos de padrões turbulentos que efetivamente encontramos?  

A primeira questão nos leva à relação entre microprocessos e padrões macro. A microeconomia é importante porque os agentes individuais tomam decisões, e essas escolhas têm consequências pessoais e sociais. Incentivos importam e afetam de fato as escolhas individuais. Mas disso não decorre que a tomada de decisão individual seja caracterizada pelas regras da chamada escolha racional e das expectativas racionais, nem pelos incentivos redutivos que elas incorporam (isto é, do comportamento hiper-racional). Tampouco decorre que os agregados possam ser analisados em termos de agentes representativos. Veremos que as evidências históricas, empíricas e analíticas contra o comportamento hiper-racional e os agentes representativos são avassaladoras. Além disso, uma explicação para os principais achados empíricos pode ser derivada de uma ampla gama de modos de tomada de decisão individual, uma vez que estruturas condicionantes — como restrições orçamentárias e influências sociais — desempenham o papel decisivo na produção dos padrões agregados. Os constructos tradicionais não são sustentáveis nem necessários.  

Uma vez compreendido que tipos muito diferentes de microfundamentos podem dar origem aos mesmos padrões no nível do mercado ou de toda a economia, podemos dividir a microeconomia em dois tipos de proposições: (1) proposições empiricamente fundamentadas que podem ser derivadas de uma ampla variedade de microfundamentos: curvas de demanda negativamente inclinadas, elasticidades-renda diferenciadas para bens necessários, funções de consumo orientadas pela renda e assim por diante; e (2) proposições que dependem da caracterização específica do comportamento individual: onde o fundamento assumido é a escolha racional (este último conjunto inclui os teoremas habituais sobre eficiência, harmonia e otimalidade geral dos processos de mercado). A vantagem de proceder dessa maneira é que isso amplia enormemente o espaço para possíveis caracterizações do comportamento econômico individual, ao mesmo tempo em que retém padrões microeconômicos chave que desempenham um papel importante na análise econômica.  

Nada disso implica que os microprocessos sejam irrelevantes. Pelo contrário, eles desempenham um papel central na determinação das trajetórias individuais e na avaliação das implicações sociais dos resultados macro. Além disso, eles podem se tornar decisivos no nível agregado se as pessoas optarem por agir em concerto, como no caso de uma paralisação geral do trabalho, de um boicote de consumidores ou de um protesto de massa. A agência está sempre presente, nas decisões individuais e, por vezes, nas coletivas. Precisamos, portanto, entender como os agentes individuais realmente se comportam, como eles reagem de fato às mudanças no ambiente macro e em que medida esse ambiente é, por sua vez, afetado.  

Duas conclusões podem ser extraídas até este ponto. Primeiramente, que uma correspondência com os fatos empíricos agregados não privilegia qualquer visão particular dos microprocessos: muitos caminhos levam a Roma. Em segundo lugar, quando se examina como os indivíduos realmente se comportam, a hipótese do modelo do homo economicus revela-se devastadoramente ruim.  

Vale notar que a divisão atual da teoria econômica em micro e macro é relativamente recente. A teoria clássica tipicamente começava com a teoria dos preços, que fornecia a base para a análise do crescimento, do emprego e do comércio exterior. Foi Keynes quem primeiro sugeriu a partição moderna entre a análise do comportamento dos agentes individuais e a dos agregados econômicos (Janssen 1993, 5). Nas mãos de Keynes, os agregados operam por regras diferentes das dos resultados individuais. Veremos que Kalecki e Friedman fazem a mesma distinção (ver seção IV deste capítulo).  

Lucas tomou a direção oposta: a macro deve ser dissolvida na micro. A resultante crítica de Lucas à macroeconomia de tipo keynesiana incorporava quatro proposições. Diz-se que a estrutura emerge das regras de decisão individuais do agente. Uma mudança no ambiente (por exemplo, na política econômica) alterará o comportamento individual e, portanto, modificará a estrutura. Assim, modelos baseados em padrões passados não podem ser usados para prever os efeitos de potenciais mudanças no ambiente, porque a própria estrutura será diferente. Segue-se que as regras do comportamento micro governam os resultados macro (Salehnejad 2009, 22-25). A conclusão central de Lucas foi a de que, se a integração da macro na micro fosse feita adequadamente, "o termo 'macroeconômico' simplesmente desaparecerá do uso e o modificador 'micro' se tornará supérfluo. Falaremos simplesmente... de teoria econômica" (Lucas 1987, 107-108).  

O projeto moderno neoclássico de microfundamentação se constrói sobre essa base geral ao adicionar cinco alegações adicionais.  

- Assume-se que os agentes individuais maximizam a utilidade ou os lucros esperados.  

- Suas expectativas estão essencialmente corretas no equilíbrio.  

- Assume-se que o equilíbrio é alcançado na prática.  

- O comportamento coletivo de um determinado tipo de agente pode ser modelado em termos de um único agente representativo com comportamento racional e expectativas racionais.  

- E apenas a macroeconomia derivada da microeconomia dessa maneira pode ser considerada rigorosa.  

Entendia-se que essa abordagem particular da economia ainda precisava ser consistente com as leis empíricas agregadas da microeconomia, tais como os efeitos-preço e efeitos-renda sobre a demanda, bem como com os padrões macroeconômicos observados no produto, no consumo e no investimento. Mas, curiosamente, essa abordagem não se sentia obrigada a mimetizar os padrões empíricos nos comportamentos individuais. Nesse nível, a suposição do comportamento hiper-racional individual é sempre o ponto de partida (capítulo 12).  

A primeira parte deste capítulo aborda as questões relevantes: escolha racional, teoria da complexidade e propriedades "emergentes" dos agregados (sendo esta última uma expressão moderna da antiga noção de que o todo pode ser maior do que a soma das partes). Argumenta-se que não há razão para ficar preso ao modelo padrão de comportamento hiper-racional, o qual não é nem descritivo do comportamento real nem útil como padrão normativo. A caracterização dos resultados agregados por meio de um "agente representativo" não funciona, exceto em casos triviais. A verdadeira função da noção de um agente representativo hiper-racional é servir à declaração de missão da economia neoclássica, que é retratar o capitalismo como eficiente e ótimo. Nesse sentido, ela é perfeitamente instrumental. Por fim, demonstra-se que padrões agregados estáveis emergem das estruturas condicionantes subjacentes (restrições orçamentárias e distribuições de renda), e não dos detalhes dos comportamentos individuais. A título de ilustração, mostro que os principais padrões empíricos da teoria do consumidor (curvas de demanda negativamente inclinadas, curvas de Engel para bens necessários e de luxo, e funções de consumo agregadas) e da teoria da produção (funções de produção agregadas) podem todos ser derivados de uma variedade de microfundamentos diferentes. Um tratamento semelhante dos salários reais é realizado no capítulo 14. Sob circunstâncias normais, os resultados macro são "robustamente insensíveis" aos detalhes dos microprocessos. Isso não significa que os microprocessos sejam irrelevantes. Os fatores micro mostram sua força na determinação das trajetórias individuais, podem se tornar decisivos se as pessoas optarem por agir em concerto para (por exemplo) produzir uma paralisação geral do trabalho ou um boicote de consumidores, e são particularmente importantes na avaliação das implicações sociais dos resultados macro. Tudo o que isso implica é que uma correspondência com os fatos empíricos agregados não privilegia qualquer visão particular dos microprocessos. Se alguém deseja examinar se o homo economicus é um bom modelo do comportamento humano real, deve olhar, em vez disso, para a sua correspondência com o comportamento individual real. E, aí, a evidência é devastadoramente negativa.  

A segunda questão proposta pela consideração dos padrões empíricos reais nos leva à distinção crucial entre o conceito convencional de equilíbrio como um estado atingido e o conceito clássico de equilíbrio como um processo gravitacional. Na primeira noção, o tempo e a turbulência desaparecem de vista e o foco se desloca para estados de equilíbrio e trajetórias regulares (steady paths). Na última, o balanço exato nunca existe como tal, porque o processo equalizador é inerentemente cíclico e turbulento. A consideração de vários tipos de atratores estáveis e de seu comportamento sob choques recorrentes mostra que a gravitação turbulenta é o caso geral. O centro de gravitação, a trajetória de equilíbrio, é considerado a seguir, e demonstra-se que o crescimento turbulento nas variáveis primárias pode ser acomodado expressando-se um sistema dinâmico em termos das razões entre as variáveis, ou pelo menos de suas taxas de crescimento. Por fim, são consideradas as dimensões temporais envolvidas nos processos de gravitação turbulenta, variando desde a equalização das taxas de lucro até a oferta e demanda agregadas nos mercados financeiro, de mercadorias e de trabalho. Estabelecem-se conexões entre esses processos e vários ciclos econômicos, propondo-se uma tipologia geral de velocidades de ajuste.

Nenhum comentário:

Postar um comentário