sábado, 8 de agosto de 2026

Cap. 04 - Produção e Custos (Anwar Shaikh)

Capítulo 4: Produção e Custos (Production and Costs)

I. Introdução (Introduction)

II. Produção nas Teorias Econômicas (Production in Economic Theories)

    Investimento circulante versus investimento fixo (Circulating versus fixed investment)

    Contas nacionais clássicas e convencionais (Classical and conventional national accounts)

    Trabalho produtivo e trabalho improdutivo (Production and non-production labor)

III. Relações de Produção versus Funções de Produção (Production Relations versus Production Functions)

    Dimensões estruturais e temporais da produção (Structural and temporal dimensions of production)

    Determinantes sociais e históricos da duração e intensidade da jornada de trabalho (Social and historical determinants of the length and intensity of the working day)

    Evidência empírica sobre as relações entre condições de trabalho e produtividade do trabalho (Empirical evidence on the relations between work conditions and labor productivity)

IV. Produção no Nível da Firma (Production at the Level of a Firm)

    Condições de trabalho e "re-switching" ao longo da fronteira de possibilidades de produção microeconômica (Work conditions and "re-switching" along the microeconomic production possibilities frontier)

    Produto e coeficientes de produção sob condições de trabalho socialmente determinadas (Output and production coefficients under socially determined work conditions)

V. Custos, Preços e Lucros (Cost, Prices, and Profits)

    Formas assumidas das curvas de custo nas teorias neoclássica, neoricardiana e pós-keynesiana (Assumed shapes of cost curves in neoclassical, neo-Ricardian, and post-Keynesian theories)

    Curvas de custo sob condições gerais do processo de trabalho (Cost curves under general conditions of the labor process)

    Implicações das curvas de custo gerais para diversos argumentos econômicos (Implications of general cost curves for various economic arguments)

VI. Evidência Empírica sobre Curvas de Custo (Empirical Evidence on Cost Curves)

I. INTRODUÇÃO

À primeira vista, o capitalismo parece ser um sistema de trocas generalizadas. De fato, a economia neoclássica apresenta a troca como o princípio organizador central da sociedade capitalista e trata a produção como um meio de troca indireta entre o presente e o futuro (Alchian e Allen 1969, 197–199; Kirman 1989, 135). Mas a visão clássica é muito diferente. Sob a superfície reluzente da troca encontram-se os túneis subterrâneos nos quais se conduz a luta eterna dentro da produção para determinar por quanto tempo e com que intensidade o trabalho pode ser feito trabalhar. A produção leva tempo (Davidson 1991, 130) e, portanto, deve preceder a distribuição do produto social. A troca, por sua vez, é apenas um dos muitos modos possíveis de distribuição. Retornaremos a essa questão no capítulo 5.

A primeira parte deste capítulo elabora sobre o tratamento da produção nas análises econômicas. A ênfase clássica no papel ativo do trabalho e na importância do tempo no processo de produção é contrastada com a metodologia passiva e atemporal de insumos-para-produtos da maioria das outras tradições econômicas. A divisão do investimento total em investimento circulante e investimento fixo demonstra ter implicações importantes para a dinâmica econômica. As medidas clássicas e convencionais do produto total mostram diferir quanto ao produto total e ao valor adicionado, mas não quanto ao excedente operacional. Um mapeamento formal entre as contas nacionais clássicas e convencionais é desenvolvido no apêndice 4.1. Finalmente, a importante distinção entre atividades produtivas e improdutivas é introduzida e suas implicações são brevemente examinadas.

A segunda parte do capítulo examina mais de perto as implicações estruturais e temporais do processo de produção microeconômico. A utilização de materiais, capital fixo e trabalho está vinculada à duração e à intensidade da jornada de trabalho. Essas conexões são usadas para desconstruir diversas representações padrão da produção, desde coeficientes fixos até funções de produção.

Demonstra-se que diferentes combinações possíveis de trabalho em turnos alternarão para frente e para trás ao longo da fronteira de possibilidades de produção correspondente à plena utilização técnica de uma máquina. Esse novo tipo de "re-switching" destrói qualquer possibilidade de construir uma função de produção microeconômica neoclássica. Inversamente, se durações de turnos socialmente determinadas forem introduzidas na análise, os padrões de produto resultantes não serão puramente técnicos e geralmente contradirão tanto as representações de coeficientes fixos quanto as neoclássicas da produção.

A terceira parte mostra que os achados precedentes dão origem a curvas de custo muito diferentes daquelas postuladas nos textos padrão de microeconomia. A noção de curvas de custo em forma de U é particularmente atingida, porque as mudanças normais de custo de um turno para o seguinte dão origem a picos nos custos variáveis médios e a saltos abruptos correspondentes nos custos marginais. Uma implicação direta dessa natureza pontiaguda é que um dado preço pode intersectar a curva de custo marginal múltiplas vezes, de modo que a regra p = cm é inútil para determinar o ponto de produção que maximiza o lucro. A abordagem de coeficientes fixos pode acomodar os resultados de forma um pouco melhor, mas apenas tratando cada combinação potencial de turnos, operada em durações e intensidades socialmente determinadas da jornada de trabalho, como uma "tecnologia" separada. 

O capítulo termina com uma revisão da evidência empírica sobre a duração e a intensidade da jornada de trabalho, sobre a produtividade do trabalho e sobre as formas das curvas de custo reais. Verificamos então que o tratamento teórico da produção desenvolvido neste capítulo é bastante consistente com a evidência empírica, e que as curvas de custo teóricas resultantes são bastante familiares em nível empírico e sensatas do ponto de vista empresarial. Por outro lado, a representação neoclássica não é nem empiricamente familiar nem praticamente sensata.

A esse respeito, é particularmente importante notar que a teoria neoclássica e seus derivados definem "custo" de maneira diferente da economia clássica e da prática empresarial. Estas últimas definem custo da maneira usual, como gastos com custos primários (materiais e salários) e custos fixos (amortização do capital fixo). Aderirei a essa definição ao longo deste livro. Mas a teoria neoclássica acrescenta o "lucro normal ao empresário" aos custos fixos, sob o argumento de que isso reflete um montante ao qual o empresário tem "direito" (Liebhafsky e Liebhafsky 1968, 266–267). Textos mais recentes rotulam esse elemento adicional como um custo de oportunidade que representa "a taxa de lucro normal, em toda a economia, no sentido contábil [empresarial]" (Varian 1993, 203). A intenção é claramente justificar o lucro como um direito dos proprietários do capital. Em termos práticos, isso é realizado expandindo a definição de custo fixo para englobar tanto a amortização quanto o lucro normal (a taxa de lucro normal vezes o estoque de capital). Dito de outra forma, a economia neoclássica assume que o "custo" médio consiste no custo primário mais uma margem bruta normal. Isso altera as medidas neoclássicas de custo total e custo médio, mas não as de custo variável (primário) médio ou custo marginal, nenhum dos quais depende de custos fixos de qualquer tipo.

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