GODLEY, Wynne; LAVOIE, Marc. Monetary Economics: an integrated approach to credit, money, income, production and wealth. 2. ed. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2012.
SUMÁRIO
1 Introdução
1.1 Dois paradigmas
1.2 Aspiração
1.3 Empreendimento
1.4 Origem
1.5 Algumas ligações com a "antiga" escola de Yale
1.6 Ligações com a escola pós-keynesiana
1.7 Um esboço do livro
A1.1 Falhas empíricas contundentes da função de produção neoclássica
A1.2 Relações estoque-fluxo e os pós-keynesianos
2 Balanços Patrimoniais, Matrizes de Transações e o Circuito Monetário
2.1 Contabilidade estoque-fluxo coerente
2.2 Balanços patrimoniais ou matrizes de estoques
2.3 A matriz convencional de renda e despesas
2.4 A matriz de fluxo de transações
2.5 Integração completa das matrizes de balanço patrimonial e de fluxo de transações
2.6 Aplicações da matriz de fluxo de transações: o circuito monetário
3 O Modelo Mais Simples com Moeda Governamental
3.1 Moeda governamental versus moeda privada
3.2 A economia de serviços com moeda governamental e sem escolha de portfólio
3.3 Formalizando o Modelo SIM
3.4 Um exemplo numérico e o multiplicador keynesiano padrão
3.5 Soluções de estado estacionário
3.6 A função consumo como uma norma estoque-fluxo
3.7 Erros de expectativa em um modelo estoque-fluxo simples
3.8 Fora do estado estacionário
3.9 Uma ilustração gráfica do Modelo SIM
3.10 Conclusão preliminar
A3.1 Lista de equações do Modelo SIM
A3.2 Lista de equações do Modelo SIM com expectativas (SIMEX)
A3.3 O teorema da defasagem média
A3.4 Déficits governamentais em uma economia em crescimento
4 Moeda Governamental com Escolha de Portfólio
4.1 Introdução
4.2 As matrizes do Modelo PC
4.3 As equações do Modelo PC
4.4 Expectativas no Modelo PC
4.5 As soluções de estado estacionário do modelo
4.6 Implicações de mudanças nos valores dos parâmetros sobre a renda temporária e de estado estacionário
4.7 Uma meta governamental para a razão dívida/renda
A4.1 Lista de equações do Modelo PC
A4.2 Lista de equações do Modelo PC com expectativas (PCEX)
A4.3 Moeda endógena
A4.4 Fechamentos alternativos da corrente principal
5 Títulos de Longo Prazo, Ganhos de Capital e Preferência pela Liquidez
5.1 Novas características do Modelo LP
5.2 O valor de uma perpetuidade
5.3 A taxa esperada de retorno dos títulos de longo prazo
5.4 Avaliação dos ganhos de capital por métodos algébricos e geométricos
5.5 Matrizes com títulos de longo prazo
5.6 Equações do Modelo LP
5.7 O impacto de curto e longo prazo de taxas de juros mais altas sobre a demanda real
5.8 O efeito da preferência pela liquidez das famílias sobre as taxas de longo prazo
5.9 Tornando os gastos do governo endógenos
A5.1 Equações do Modelo LP
A5.2 A armadilha da liquidez
A5.3 Uma representação alternativa, mais ortodoxa, do mercado de títulos
6 Introduzindo a Economia Aberta
6.1 Um arcabouço coerente
6.2 As matrizes de uma economia com duas regiões
6.3 As equações de uma economia com duas regiões
6.4 As soluções de estado estacionário do Modelo REG
6.5 Experimentos com o Modelo REG
6.6 As matrizes de uma economia com dois países
6.7 As equações de uma economia com dois países
6.8 Rejeitando a abordagem Mundell-Fleming e adotando a abordagem da compensação
6.9 Mecanismos de ajuste
6.10 Considerações finais
A6.1 Equações do Modelo REG
A6.2 Equações do Modelo OPEN
A6.3 Evidências históricas e empíricas sobre o princípio da compensação
A6.4 Outros arranjos institucionais: o *currency board*
A6.5 Como construir facilmente um modelo aberto
7 Um Modelo Simples com Moeda Bancária Privada
7.1 Moeda privada e empréstimos bancários
7.2 As matrizes do modelo mais simples com moeda privada
7.3 As equações do Modelo BMW
7.4 O estado estacionário
7.5 Valores fora do equilíbrio e análise de estabilidade
7.6 O papel da taxa de juros
7.7 Um olhar para o futuro
A7.1 As equações do Modelo BMW
8 Tempo, Estoques, Lucros e Formação de Preços
8.1 O papel do tempo
8.2 A mensuração dos lucros
8.3 Formação de preços
8.4 Exemplos numéricos de flutuações dos estoques
A8.1 Um exemplo numérico de contabilidade de estoques
9 Um Modelo com Moeda Bancária Privada, Estoques e Inflação
9.1 Introdução
9.2 As equações do Modelo DIS
9.3 Propriedades adicionais do modelo
9.4 Valores de estado estacionário do Modelo DIS
9.5 Tratando a inflação no Modelo DIS (ligeiramente modificado)
A9.1 Lista de equações do Modelo DIS
A9.2 O papel peculiar das expectativas dadas
A9.3 Lista de equações do Modelo DISINF
10 Um Modelo com Moeda Interna e Externa
10.1 Um modelo com bancos comerciais ativos
10.2 Balanços patrimoniais e matrizes de transações
10.3 Empresas produtoras
10.4 Famílias
10.5 O setor governamental e o banco central
10.6 O sistema bancário comercial
10.7 Fazendo tudo funcionar com simulações
10.8 Conclusão
A10.1 Sistemas bancários com cheque especial
A10.2 Exemplo aritmético de uma mudança na preferência por portfólio
11 Um Protótipo de Modelo de Crescimento
11.1 Prolegômenos
11.2 Matrizes de balanço patrimonial, reavaliação e fluxo de transações
11.3 Decisões tomadas pelas empresas
11.4 Decisões tomadas pelas famílias
11.5 O setor público
11.6 O setor bancário
11.7 Políticas fiscal e monetária
11.8 As famílias no modelo como um todo
11.9 Decisões financeiras no modelo como um todo
11.10 Recapitulação final
12 Um Modelo Mais Avançado de Economia Aberta
12.1 Introdução
12.2 As duas matrizes
12.3 Equações do modelo genérico
12.4 Fechamentos alternativos
12.5 Experimentos com o principal fechamento de taxa de câmbio fixa
12.6 Experimentos com fechamentos alternativos de taxa de câmbio fixa
12.7 Experimentos com o fechamento de taxa de câmbio flexível
12.8 Lições a serem extraídas
A12.1 Uma identidade fundamental e útil do fluxo de fundos em economia aberta
A12.2 Um fechamento alternativo de taxa de câmbio flexível
13 Conclusão Geral
13.1 Características únicas dos modelos apresentados aqui
13.2 Um resumo
1. Introdução
Descobri o que é a economia: é a ciência de confundir estoques com fluxos.
Declaração verbal de Michal Kalecki, por volta de 1936, citada por Joan Robinson em "Shedding Darkness", Cambridge Journal of Economics, v. 6, n. 3, setembro de 1982, p. 295-296.
Durante os mais de sessenta anos transcorridos desde a morte de Keynes, coexistiram dois paradigmas fundamentalmente distintos de pesquisa macroeconômica, cada um com sua própria interpretação, igualmente fundamental, da obra de Keynes [1]. De um lado, encontra-se o paradigma dominante, ou neoclássico, baseado na premissa de que a atividade econômica é motivada exclusivamente pelas aspirações dos agentes individuais. No cerne desse paradigma está a função de produção neoclássica, que postula que o produto resulta da combinação de trabalho e capital de tal modo que, desde que todos os mercados estejam em equilíbrio (markets clear), não haverá desemprego involuntário, enquanto a renda nacional será distribuída de forma ótima e automática entre salários e lucros. Se os mercados não entrarem em equilíbrio porque salários ou preços são "rígidos" (sticky), a mesma estrutura produzirá resultados de desequilíbrio determinados, embora subótimos e, para muitos economistas, é justamente essa possibilidade de rigidez que define a economia keynesiana. A hipótese central de que a maximização do bem-estar individual constitui a força motriz universal não é compatível com a visão de que as empresas possuem existência autônoma e motivações próprias, pois os preços ótimos, o produto e o emprego são todos determinados para elas pela posição das curvas agregadas de oferta e demanda. Além disso, como a produção é instantânea e a oferta é igualada à demanda por meio do processo de ajuste dos mercados, não existe necessidade sistêmica e, portanto, tampouco um papel essencial para empréstimos, moeda de crédito ou bancos. O conceito de moeda é indispensável, porém ela é tratada como um ativo que, em geral, não possui um passivo correspondente e que frequentemente não mantém qualquer relação contábil com as demais variáveis. A teoria macroeconômica dominante constitui um sistema dedutivo que não necessita recorrer aos fatos empíricos (embora possa ser "calibrado" com dados numéricos) e que se presta à obtenção de soluções analíticas.
[1]: Para uma excelente revisão de todo esse campo, ver Lance Taylor (2004b).
O paradigma alternativo, que passou a ser conhecido como pós-keynesiano ou estruturalista, deriva originalmente dos economistas que estiveram, em maior ou menor grau, pessoalmente associados a Keynes, como Joan Robinson, Richard Kahn, Nicholas Kaldor e James Meade, bem como de Michal Kalecki, que desenvolveu a maior parte de suas ideias de forma independente. Longe de constituir um sistema dedutivo, a visão pós-keynesiana fundamenta-se em fatos estilizados, reconhecendo a existência manifesta de instituições, juntamente com regularidades e magnitudes nos dados econômicos que podem ser verificadas empiricamente. No centro desse sistema de ideias está a concepção de que, em uma economia industrial moderna, as empresas possuem existência autônoma e um conjunto próprio de objetivos, como, por exemplo, obter lucros suficientes para financiar investimentos que maximizem o crescimento. Rejeitando como quimérico o conceito da função de produção neoclássica [2], os pós-keynesianos sustentam que, em um mundo de incerteza, as empresas, operando sob condições de concorrência imperfeita e retornos crescentes de escala, precisam decidir quanto produzir, quantos trabalhadores empregar, quais preços cobrar, quanto investir e como obter financiamento. É a decisão de fixação de preços que, em geral, determina a distribuição da renda nacional entre salários e lucros. E, como a produção e o investimento demandam tempo, ao passo que as expectativas, em geral, se revelam equivocadas, existe uma necessidade sistêmica de empréstimos provenientes de fora do setor produtivo, o que gera endogenamente uma oferta adequada de moeda de crédito; em outras palavras (em conformidade com a observação comum), deve existir um setor bancário. Segundo a perspectiva pós-keynesiana, não há tendência natural para que as economias alcancem o pleno emprego e, por essa e outras razões, o crescimento e a estabilidade requerem a participação ativa do governo por meio das políticas fiscal, monetária e de rendas. Além disso, provavelmente é impossível derivar soluções analíticas que descrevam a evolução das economias como um todo, sobretudo porque as instituições e os padrões de comportamento se transformam profundamente ao longo da história.
[2] O Apêndice 1.1 apresenta razões convincentes para essa rejeição.
Pasinetti (2005) lamenta o fato de que os pós-keynesianos tenham progressivamente deixado de estabelecer "um paradigma vencedor permanente". E, de fato, embora ainda existam focos de resistência obstinada, a tradição pós-keynesiana foi praticamente excluída da literatura; perdeu espaço para a corrente dominante na forma como a disciplina é ensinada, no que os principais periódicos acadêmicos aceitam para publicação, na alocação de recursos para pesquisa, nos critérios de contratação de docentes e pesquisadores e na construção de modelos empíricos. Pasinetti atribui esse declínio, em grande medida, às características pessoais dos notáveis economistas que sucederam diretamente Keynes, sustentando (corretamente, em nossa opinião) que eles não admitiam pesquisadores externos em seu círculo nem patrocinavam seus trabalhos. Contudo, Pasinetti também aponta para "a falta de coesão teórica entre os diversos elementos que emergiram da escola keynesiana", os quais "deram pouca atenção aos fundamentos sobre os quais um paradigma alternativo, mas coerente, poderia ser construído". Ele sugere que "ainda falta um projeto satisfatório que possa abrigar, sob um mesmo teto, o desenvolvimento das ideias existentes ao longo das linhas keynesianas..." e que há necessidade de "uma explicação do que acontece — como Keynes afirmou — em uma 'economia monetária de produção', que é mais complexa do que uma economia estacionária de trocas puras, por ser intrinsecamente dinâmica, continuamente afetada pela história e sujeita a mudanças tanto de escala quanto de estrutura". Trata-se do reconhecimento de que a economia pós-keynesiana, até o presente momento, simplesmente ainda não abrange todo esse campo.
Geoffrey Harcourt (2001, p. 277), em sentido semelhante, observa que os pós-keynesianos têm seguido o método marshalliano-keynesiano, que "consiste em examinar, sucessivamente, partes da economia, mantendo constantes ou abstraindo, por ora, os acontecimentos — ou, ao menos, os efeitos do que ocorre — em outros setores", na esperança de que, ao final, fosse possível "reunir todos os resultados para obter um quadro geral e completo". Harcourt considera que "essa pode ser uma das razões pelas quais, em última instância, tanto Marshall quanto Joan Robinson acreditaram ter fracassado — não por perceberem que, ao seguir esse procedimento, estavam tentando o impossível, mas porque o próprio procedimento era falho". Enquanto os economistas neoclássicos dispõem da teoria do equilíbrio geral e dos modelos computáveis de equilíbrio geral, que os ajudam a captar as implicações globais de sua visão e a interdependência entre mercados e setores, a economia pós-keynesiana pôde oferecer apenas o modelo sraffiano como instrumento formal para tratar das interdependências produtivas e dos preços relativos, mas que, ironicamente, não tratava — nem poderia tratar — das questões keynesianas cruciais relativas ao produto, ao desemprego, à inflação, aos fluxos financeiros e ao endividamento. Os modelos pós-keynesianos que abordavam esses temas encontravam-se dispersos, sem apresentar uma explicação de como o sistema funcionava como um todo. Não existe uma formulação que caracterize de que maneira a teoria pós-keynesiana pode servir de fundamento para compreender o funcionamento da economia capitalista industrial como um organismo integrado. Apesar de esforços notáveis, como o livro de Eichner (1987), não existe um manual pós-keynesiano que abranja, de forma coerente, todo o campo da macroeconomia monetária [3].
[3]: Isso já havia sido assinalado por Godley (1993, p. 63), que lamentava a ausência de um manual kaldoriano, afirmando que "as ideias de Kaldor, em sua formulação positiva, não foram reunidas de modo a abranger todo o programa da disciplina". Em nota de rodapé, o autor acrescentava que uma exceção a essa generalização era o livro de Eichner, de 1987 (infelizmente inacabado) (Godley, 1993, p. 80).
1.2 Aspiração
Ao escrever este livro, nossa aspiração foi lançar as bases de uma metodologia que torne possível começar a investigar, de maneira rigorosa, como sistemas econômicos reais, dotados de instituições realistas, funcionam como um todo. Nosso ponto de partida, embora um pouco intricado para uma introdução, é, ainda assim, tão simples que propomos entrar diretamente no cerne da questão [4].
[4] Expressão latina que significa "no meio das coisas".
Os manuais tradicionais introduzem os conceitos macroeconômicos por meio da identidade da renda nacional. Assim, a produção total, ou produto interno bruto (PIB), é definida como a soma de todos os gastos com bens e serviços ou, alternativamente, como a soma de todas as rendas geradas pela produção de bens e serviços. Mais precisamente, o PIB (supondo uma economia fechada) é composto pelo consumo das famílias, pelo investimento e pelos gastos do governo com bens e serviços; sob a ótica da renda, é composto pela massa salarial e pelos lucros. Todos esses conceitos são introduzidos como variáveis "reais", sendo o PIB entendido como o volume total de produção de uma economia. Escrevendo formalmente essas identidades, temos:
C + I + G = Y = WB + F (1.1)
em que Consumo (C) representa o consumo, Investimento (I) o investimento, Gastos do Governo (G) as despesas governamentais, Produto Interno Bruto (Y) o PIB, Massa Salarial (WB) o total de salários pagos (wage bill) e Lucros (F) os lucros das empresas.
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