SHAIKH, Anwar. Capitalism: Competition, Conflict, Crises. Oxford: Oxford University Press, 2016.
CONTENTS
I. INTRODUCTION
1. Macroeconomics as the aggregate consequences of individual actions
2. Central tendencies versus idealized worlds
3. Macroeconomics, emergent properties, and turbulent laws
4. Neoclassical macroeconomics and representative agents
5. Ten critical issues in macroeconomic analysis
i. Microeconomic features need not carry over
ii. Macro has always grounded itself in micro behavior
iii. Many micro foundations are consistent with some given macro pattern
iv. Notion of turbulent equalization requires corresponding tools
v. Temporal dimensions differ: Fast and slow processes
vi. Growth is the normal state
vii. Expectations, actuals, and fundamentals are reflexively related
viii. Real competition implies downward sloping demand curves
ix. Real competition does not imply continuous market clearing
x. Say’s Law and the split in the classical tradition on external demand and neutrality of money
6. Accounting for aggregate demand, supply, and capacity
i. Ex ante three balances
ii. Ex post balances
iii. Equilibrium balances
iv. Time dimensions
v. Basic savings–investment relation
vi. Output and capacity
vii. Normal capacity utilization does not imply Say’s Law
II. PRE-KEYNESIAN MACROECONOMICS
1. The displacement of classical economics by neoclassical economics
2. Walrasian roots of neoclassical economics
3. Pre-Keynesian neoclassical orthodoxy
i. Core orthodox propositions attacked by Keynes
ii. The neoclassical argument on full employment supply
iii. The neoclassical argument on aggregate demand and the interest rate
III. KEYNES’S BREAKTHROUGH
1. Keynes’s practical experience after World War I
2. Keynes’s new formulation
i. Production takes time so ruled by expected profit
ii. Aggregate demand has autonomous components
iii. Savings adjusts to investment
iv. Derivation of the investment–savings relation and the multiplier
v. Effects of profitability and interest rates on level of output
3. The Hicksian IS–LM representation of Keynesian economics
4. The rise and fall of Keynesian theory and policy
5. The rise and fall of the IS–LM/Phillips-Curve model
IV. THE RETURN OF NEO-WALRASIAN ECONOMICS
1. Monetarism
i. The old Quantity Theory of Money
ii. The new Quantity Theory of Money
iii. Friedman on the Great Depression
2. The natural rate of unemployment and inflation in the context of adaptive expectations
i. The problem facing macro theories in the 1970s
ii. Frictional employment in Keynesian and neoclassical theories
iii. Natural rates of employment and unemployment
iv. Short-run versus long-run effects of changes in aggregate demand
v. The link to inflation
vi. Non-accelerating inflation rate of unemployment
3. Rational expectations and the New Classical Theory
i. Role of expectations in Friedman and Phelps
ii. The New Classicals build upon this framework
iii. Hyper-rational expectations
iv. Lucas
4. Real Business Cycle Theory
i. Analytical structure of the Real Business Cycle Theory model
ii. Policy implications of the Real Business Cycle Theory
iv. Further considerations on empirical relevance of the Real Business Cycle Theory
5. New Keynesian economics
6. Conventional behavioral economics
V. KALECKI
VI. POST-KEYNESIAN ECONOMICS
1. Introduction
2. Davidson
3. The Kaleckian-Structuralist wing of post-Keynesian theory
i. Godley
ii. Taylor
4. General themes in post-Keynesian theory
i. Wage-led and profit-led growth: Alternate short-run outcomes or successive long-run phases?
ii. Long-run growth limits
iii. Unemployment can be eliminated through appropriate policy
SUMÁRIO
I. INTRODUÇÃO
1. Macroeconomia como as consequências agregadas das ações individuais
2. Tendências centrais versus mundos idealizados
3. Macroeconomia, propriedades emergentes e leis turbulentas
4. Macroeconomia neoclássica e agentes representativos
5. Dez questões cruciais na análise macroeconômica
i. As características microeconômicas não precisam se refletir no macro
ii. O macro sempre se baseou no comportamento micro
iii. Muitas fundações micro são consistentes com um dado padrão macro
iv. A noção de equalização turbulenta requer ferramentas correspondentes
v. As dimensões temporais diferem: processos rápidos e lentos
vi. O crescimento é o estado normal
vii. Expectativas, resultados reais e fundamentos estão relacionados reflexivamente
viii. A concorrência real implica curvas de demanda com inclinação negativa
ix. A concorrência real não implica um market clearing (ajuste contínuo do mercado)
x. A Lei de Say e a divisão na tradição clássica sobre demanda externa e neutralidade da moeda
6. Estrutura contábil para a demanda agregada, oferta e capacidade
i. Três balanços Ex ante
ii. Balanços Ex post
iii. Balanços de equilíbrio
iv. Dimensões do tempo v. Relação básica poupança–investimento
vi. Produto e capacidade
vii. A utilização normal da capacidade não implica a Lei de Say
II. MACROECONOMIA PRÉ-KEYNESIANA
1. O deslocamento da economia clássica pela economia neoclássica
2. As raízes Walrasianas da economia neoclássica
3. Ortodoxia neoclássica pré-Keynesiana
i. Principais proposições ortodoxas atacadas por Keynes
ii. O argumento neoclássico sobre a oferta de pleno emprego
iii. O argumento neoclássico sobre a demanda agregada e a taxa de juros
III. O AVANÇO DE KEYNES
1. A experiência prática de Keynes após a Primeira Guerra Mundial
2. A nova formulação de Keynes
i. A produção leva tempo, sendo regida pelo lucro esperado
ii. A demanda agregada tem componentes autônomos
iii. A poupança se ajusta ao investimento
iv. Derivação da relação investimento–poupança e o multiplicador
v. Efeitos da lucratividade e das taxas de juros no nível de produto
3. A representação IS–LM Hicksiana da economia Keynesiana
4. A ascensão e queda da teoria e política Keynesiana
5. A ascensão e queda do modelo IS–LM/Curva de Phillips
IV. O RETORNO DA ECONOMIA NEO-WALRASIANA
1. Monetarismo
i. A antiga Teoria Quantitativa da Moeda
ii. A nova Teoria Quantitativa da Moeda
iii. Friedman sobre a Grande Depressão
2. A taxa natural de desemprego e a inflação no contexto de expectativas adaptativas
i. O problema enfrentado pelas teorias macro nos anos 1970
ii. Emprego friccional nas teorias Keynesiana e neoclássica
iii. Taxas naturais de emprego e desemprego
iv. Efeitos de curto versus longo prazo das mudanças na demanda agregada
v. O link para a inflação
vi. Taxa de desemprego não aceleradora de inflação (NAIRU)
3. Expectativas racionais e a Nova Teoria Clássica
i. O papel das expectativas em Friedman e Phelps
ii. Os New Classicals constroem sobre esta estrutura
iii. Expectativas hiper-racionais
iv. Lucas
4. Teoria Real do Ciclo de Negócios (Real Business Cycle Theory - RBCT)
i. Estrutura analítica do modelo da Teoria Real do Ciclo de Negócios
ii. Implicações políticas da Teoria Real do Ciclo de Negócios
iii. Calibração para imitar alguns padrões reais versus teste econométrico
iv. Considerações adicionais sobre a relevância empírica da Teoria Real do Ciclo de Negócios
5. Economia Novo Keynesiana (New Keynesian economics)
6. Economia Comportamental Convencional
V. KALECKI
Capítulo 12: Ascensão e queda da macroeconomia moderna (The Rise and Fall of Modern Macroeconomics)
I. Introdução (Introduction)
Macroeconomia como as consequências agregadas de ações individuais (Macroeconomics as the aggregate consequences of individual actions)
Tendências centrais versus mundos idealizados (Central tendencies versus idealized worlds)
Macroeconomia, propriedades emergentes e leis turbulentas (Macroeconomics, emergent properties, and turbulent laws)
Macroeconomia neoclássica e agentes representativos (Neoclassical macroeconomics and representative agents)
Dez questões críticas na análise macroeconômica (Ten critical issues in macroeconomic analysis)
i. Características microeconômicas não precisam se transferir (Microeconomic features need not carry over)
ii. A macro sempre se fundamentou no comportamento micro (Macro has always grounded itself in micro behavior)
iii. Muitos microfundamentos são consistentes com algum padrão macro dado (Many micro foundations are consistent with some given macro pattern)
iv. A noção de equalização turbulenta requer ferramentas correspondentes (Notion of turbulent equalization requires corresponding tools)
v. Dimensões temporais diferem: Processos rápidos e lentos (Temporal dimensions differ: Fast and slow processes)
vi. O crescimento é o estado normal (Growth is the normal state)
vii. Expectativas, resultados efetivos e fundamentos são reflexivamente relacionados (Expectations, actuals, and fundamentals are reflexively related)
viii. Competição real implica curvas de demanda descendentes (Real competition implies downward sloping demand curves)
ix. Competição real não implica compensação contínua de mercado (Real competition does not imply continuous market clearing)
x. A Lei de Say e a divisão na tradição clássica sobre demanda externa e neutralidade da moeda (Say's Law and the split in the classical tradition on external demand and neutrality of money)
Contabilização da demanda agregada, oferta e capacidade (Accounting for aggregate demand, supply, and capacity)
i. Três balanços ex ante (Ex ante three balances)
ii. Balanços ex post (Ex post balances)
iii. Balanços de equilíbrio (Equilibrium balances)
iv. Dimensões temporais (Time dimensions)
v. Relação básica poupança–investimento (Basic savings–investment relation)
vi. Produto e capacidade (Output and capacity)
vii. Utilização normal da capacidade não implica a Lei de Say (Normal capacity utilization does not imply Say's Law)
II. Macroeconomia pré-keynesiana (Pre-Keynesian Macroeconomics)
O deslocamento da economia clássica pela economia neoclássica (The displacement of classical economics by neoclassical economics)
Raízes walrasianas da economia neoclássica (Walrasian roots of neoclassical economics)
Ortodoxia neoclássica pré-keynesiana (Pre-Keynesian neoclassical orthodoxy)
i. Proposições ortodoxas centrais atacadas por Keynes (Core orthodox propositions attacked by Keynes)
ii. O argumento neoclássico sobre a oferta de pleno emprego (The neoclassical argument on full employment supply)
iii. O argumento neoclássico sobre demanda agregada e taxa de juros (The neoclassical argument on aggregate demand and the interest rate)
III. A ruptura de Keynes (Keynes's Breakthrough)
A experiência prática de Keynes após a Primeira Guerra Mundial (Keynes's practical experience after World War I)
A nova formulação de Keynes (Keynes's new formulation)
i. A produção leva tempo, portanto é governada pelo lucro esperado (Production takes time so ruled by expected profit)
ii. A demanda agregada tem componentes autônomos (Aggregate demand has autonomous components)
iii. A poupança se ajusta ao investimento (Savings adjusts to investment)
iv. Derivação da relação investimento–poupança e o multiplicador (Derivation of the investment–savings relation and the multiplier)
v. Efeitos da lucratividade e das taxas de juros sobre o nível de produto (Effects of profitability and interest rates on level of output)
A representação hicksiana IS–LM da economia keynesiana (The Hicksian IS–LM representation of Keynesian economics)
Ascensão e queda da teoria e política keynesianas (The rise and fall of Keynesian theory and policy)
Ascensão e queda do modelo IS–LM/Curva de Phillips (The rise and fall of the IS–LM/Phillips-Curve model)
IV. O retorno da economia neo-walrasiana (The Return of Neo-Walrasian Economics)
Monetarismo (Monetarism)
i. A velha Teoria Quantitativa da Moeda (The old Quantity Theory of Money)
ii. A nova Teoria Quantitativa da Moeda (The new Quantity Theory of Money)
iii. Friedman sobre a Grande Depressão (Friedman on the Great Depression)
A taxa natural de desemprego e inflação no contexto de expectativas adaptativas (The natural rate of unemployment and inflation in the context of adaptive expectations)
i. O problema enfrentado pelas teorias macro nos anos 1970 (The problem facing macro theories in the 1970s)
ii. Emprego friccional nas teorias keynesianas e neoclássicas (Frictional employment in Keynesian and neoclassical theories)
iii. Taxas naturais de emprego e desemprego (Natural rates of employment and unemployment)
iv. Efeitos de curto prazo versus longo prazo de mudanças na demanda agregada (Short-run versus long-run effects of changes in aggregate demand)
v. A ligação com a inflação (The link to inflation)
vi. Taxa de desemprego não aceleradora da inflação (Non-accelerating inflation rate of unemployment)
Expectativas racionais e a Teoria Nova Clássica (Rational expectations and the New Classical Theory)
i. Papel das expectativas em Friedman e Phelps (Role of expectations in Friedman and Phelps)
ii. Os Novos Clássicos constroem sobre esse arcabouço (The New Classicals build upon this framework)
iii. Expectativas hiper-racionais (Hyper-rational expectations)
iv. Lucas (Lucas)
Teoria dos Ciclos Reais de Negócios (Real Business Cycle Theory)
i. Estrutura analítica do modelo da Teoria dos Ciclos Reais de Negócios (Analytical structure of the Real Business Cycle Theory model)
ii. Implicações de política da Teoria dos Ciclos Reais de Negócios (Policy implications of the Real Business Cycle Theory)
iii. Calibração para imitar alguns padrões reais versus testes econométricos (Calibration for mimicking some real patterns versus econometric testing)
iv. Considerações adicionais sobre a relevância empírica da Teoria dos Ciclos Reais de Negócios (Further considerations on empirical relevance of the Real Business Cycle Theory)
Economia Nova Keynesiana (New Keynesian economics)
Economia comportamental convencional (Conventional behavioral economics)
V. Kalecki (Kalecki)
VI. Economia pós-keynesiana (Post-Keynesian Economics)
1. Introdução (Introduction)
2. Davidson (Davidson)
3. A ala kaleckiana-estruturalista da teoria pós-keynesiana (The Kaleckian-Structuralist wing of post-Keynesian theory)
i. Godley (Godley)
ii. Taylor (Taylor)
4. Temas gerais na teoria pós-keynesiana (General themes in post-Keynesian theory)
i. Crescimento liderado por salários e liderado por lucros: Resultados alternativos de curto prazo ou fases sucessivas de longo prazo? (Wage-led and profit-led growth: Alternate short-run outcomes or successive long-run phases?)
ii. Limites do crescimento de longo prazo (Long-run growth limits)
iii. O desemprego pode ser eliminado por meio de política adequada (Unemployment can be eliminated through appropriate policy)
12. THE RISE AND FALL OF MODERN MACROECONOMICS
12. A Ascensão e Queda da Macroeconomia Moderna
Classical theory begins from the understanding that profit is central to both microeconomics and macroeconomics. Part II of this book argued that firms are active profit-seekers, not passive profit-maximizers. They generate new products and continually transform the production process in order to reduce costs so that they can cut prices and get a jump on others. They operate under conditions of conflict and uncertainty created by their own actions. This is competition as it actually exists, in which the profit motive drives pricing, production, technological change, relative prices, interest rates, the prices of finance assets, and exchange rates. Chapter 7 emphasized that individual capitals are constantly trying to expand by cutting costs and cutting prices. Growth originates at the cellular level, and the profit of an enterprise is both the measure of its success and the fuel for further growth. The expansion of the scale of production (circulating) investment and the expansion of capacity (fixed investment) are both driven by the net profit rate (r – i) operating over different time horizons. The determination of the interest rate by the profit rate was previously addressed in Part II, chapter 10, and will be picked up again shortly.
A teoria clássica começa a partir do entendimento de que o lucro é central tanto para a microeconomia quanto para a macroeconomia. A Parte II deste livro argumentou que as empresas são buscadoras ativas de lucro (profit-seekers), e não maximizadoras passivas de lucro (profit-maximizers). Elas geram novos produtos e transformam continuamente o processo de produção para reduzir custos, de modo que possam cortar preços e obter uma vantagem sobre as concorrentes. Elas operam sob condições de conflito e incerteza criadas por suas próprias ações. Esta é a competição tal como ela realmente existe (real competition), na qual o motivo do lucro (profit motive) impulsiona a precificação, a produção, a mudança tecnológica, os preços relativos, as taxas de juros, os preços dos ativos financeiros e as taxas de câmbio. O capítulo 7 enfatizou que capitais individuais estão constantemente tentando expandir, cortando custos e cortando preços. O crescimento se origina no nível celular, e o lucro de uma empresa é tanto a medida de seu sucesso quanto o combustível para um crescimento adicional. A expansão da escala de produção (investimento circulante) e a expansão da capacidade (investimento fixo) são ambas impulsionadas pela taxa de lucro líquida (r – i), operando em diferentes horizontes temporais. A determinação da taxa de juros pela taxa de lucro foi abordada anteriormente na Parte II, capítulo 10, e será retomada em breve.
This part of the book will analyze the manner in which the same forces manifest themselves at the macroeconomic level. The present chapter focuses on the rise of modern macroeconomics beginning with Keynes’s attempt to break away from the ruling orthodoxy of his day and ending in the recapture of macroeconomics by a resuscitated neo-Walrasian orthodoxy. Chapter 13 will lay out the foundations of a classical approach to the relations between profit, growth, effective demand, and unemployment. Chapter 14 will address the classical notion of persistent unemployment arising from competition itself and compare its implications to those of the conventional notion of persistent (“natural”) unemployment arising from supposed imperfections in competition. Chapter 15 will extend the classical argument to the theory of inflation under modern fiat money regimes. Chapter 16 will then trace the concrete links between the profit rate, the interest rate, and postwar long waves that led to the Great Stagflation of the 1970s, the subsequent great boom of the 1980s, and the eventual bust that gave rise to the current global economic crisis. As always, alternate theories will be discussed and empirical evidence will be examined. Chapter 17 will summarize the structure of the book and address some further implications, including the relation between recurrent general crises and long waves, between the turbulent equalization of wages and profit rates and the corresponding distributions of wage and property incomes, and between the dramatic rise in the profit-wage ratio in the neoliberal era (chapter 14) and sharp rise in inequality detailed in Piketty (2014).
Esta parte do livro analisará a maneira pela qual as mesmas forças se manifestam no nível macroeconômico. O presente capítulo foca na ascensão da macroeconomia moderna, começando com a tentativa de Keynes de romper com a ortodoxia dominante de sua época e terminando com a retomada da macroeconomia por uma ortodoxia neo-Walrasiana ressuscitada. O Capítulo 13 apresentará os fundamentos de uma abordagem clássica para as relações entre lucro, crescimento, demanda efetiva e desemprego. O Capítulo 14 abordará a noção clássica de desemprego persistente decorrente da própria concorrência e comparará suas implicações com as da noção convencional de desemprego persistente ('natural') decorrente de supostas imperfeições na concorrência. O Capítulo 15 estenderá o argumento clássico à teoria da inflação sob regimes modernos de moeda fiduciária. O Capítulo 16 rastreará, então, os vínculos concretos entre a taxa de lucro, a taxa de juros e as ondas longas do pós-guerra que levaram à Grande Estagflação dos anos 1970, ao subsequente grande boom dos anos 1980 e à eventual quebra que deu origem à crise econômica global atual. Como sempre, teorias alternativas serão discutidas e evidências empíricas serão examinadas. O Capítulo 17 resumirá a estrutura do livro e abordará algumas implicações adicionais, incluindo a relação entre crises gerais recorrentes e ondas longas, entre a equalização turbulenta de salários e taxas de lucro e as distribuições correspondentes de rendas salariais e de propriedade, e entre o aumento dramático na razão lucro-salário na era neoliberal (Capítulo 14) e o forte aumento na desigualdade detalhado em Piketty (2014).
1. Macroeconomics as the aggregate consequences of individual actions
1. Macroeconomia como as consequências agregadas das ações individuais
Macroeconomics is about the aggregate consequences of individual actions. Such outcomes will not generally mimic individual behaviors or fulfill individual intentions. On the contrary, economic theory has always emphasized that many fundamental outcomes are entirely unintended. The movement of labor in search of higher income ends up turbulently equalizing wage rates, the movement of capital in search of higher profits ends up turbulently equalizing profit rates, the desire to adopt cheaper methods may, in order to make more profit, lower the average profit rate, and so on. These central features of the invisible hand are certainly not intentional. As always, I will use the term “classical” to refer to Smith, Ricardo, Malthus, Mill, and Marx, and the terms “neoclassical” and “neo-Walrasian” to refer to all variants from the pre-Keynesian orthodoxy to the recent New Neoclassical Synthesis.
A Macroeconomia trata das consequências agregadas das ações individuais. Tais resultados geralmente não imitarão os comportamentos individuais nem realizarão as intenções individuais. Pelo contrário, a teoria econômica sempre enfatizou que muitos resultados fundamentais são inteiramente não intencionais. O movimento da mão de obra em busca de maior renda acaba equalizando turbulentamente as taxas salariais, o movimento do capital em busca de lucros mais altos acaba equalizando turbulentamente as taxas de lucro, o desejo de adotar métodos mais baratos para obter mais lucro pode, paradoxalmente, reduzir a taxa de lucro média, e assim por diante. Estas características centrais da mão invisível certamente não são intencionais. Como sempre, usarei o termo 'clássico' para me referir a Smith, Ricardo, Malthus, Mill e Marx, e os termos 'neoclássico' e 'neo-Walrasiano' para me referir a todas as variantes, desde a ortodoxia pré-Keynesiana até a recente Nova Síntese Neoclássica.
2. Central tendencies versus idealized worlds
2. Tendências Centrais versus Mundos Idealizados
Classical political economy attempted to get underneath the tempestuous surface of capitalism to identify the central tendencies of the actual system. Neoclassical economics took the opposite tack. From the very start, it was focused on the task of constructing a vision of perfect capitalism, optimal, efficient, and thoroughly idealized—all under the guise of “analytical refinement.” Real competition was replaced by perfect competition, the aggressive cost-cutting firm turned into a passive price-taker, and the turbulent movement of real markets was substituted with the smooth path of equilibrium-as-bliss. In the midst of the Great Depression of 1873–1896, Jevons (1871) and Edgeworth (1881) were refining the list of requirements for “perfect competition,” while Walras (1874, 1877) was weaving these elements into the general equilibrium model which still dominates orthodox macroeconomics. It is a particular historical irony that Walras, a French socialist who looked to the state for “proper guidance” on the installation and maintenance of “free competition,” would become the patron saint of conservatives who defend corporate capitalism and revile the state (Friedman 1955, 900, 908–909). We will see that even those who seek to return to the task of analyzing the actual system generally begin from the Walrasian framework in order to introduce selective “imperfections” here or there.
A economia política clássica procurou penetrar na superfície tempestuosa do capitalismo para identificar as tendências centrais do sistema real. A economia neoclássica tomou o caminho oposto. Desde o início, ela se concentrou na tarefa de construir uma visão de um capitalismo perfeito, idealizado, ótimo e eficiente — tudo sob o disfarce de 'refinamento analítico'. A concorrência real foi substituída pela competição perfeita, a firma agressiva na redução de custos se transformou em uma tomadora de preços passiva, e o movimento turbulento dos mercados reais foi substituído pelo caminho suave do equilíbrio como felicidade. Em meio à Grande Depressão de 1873–1896, Jevons (1871) e Edgeworth (1881) estavam refinando a lista de requisitos para a 'competição perfeita', enquanto Walras (1874, 1877) estava tecendo esses elementos no modelo de equilíbrio geral que ainda domina a macroeconomia ortodoxa. É uma ironia histórica particular que Walras, um socialista francês que buscava a 'orientação apropriada' do Estado para a instalação e manutenção da 'livre concorrência', se tornaria o santo padroeiro dos conservadores que defendem o capitalismo corporativo e atacam o Estado (Friedman 1955, 900, 908–909). Veremos que mesmo aqueles que procuram retornar à tarefa de analisar o sistema real geralmente partem da estrutura Walrasiana para introduzir seletivas 'imperfeições' aqui ou ali.
What a strange manner of proceeding! First, one invents a fictitious idealized world, a veritable Garden of Eden where even the snake of scarcity works for the general good. Most of the effort is then dedicated to explicating the properties of this paradise, although sometimes it becomes necessary to address the clamorous multitudes outside the gates. Then the intellectual problem becomes one of positing particular “imperfections” that can be used to account for otherwise inexplicable behaviors of the obdurate masses. This is the modus operandi of all orthodox economics after Keynes, with differences among the schools arising from disputes about specific attributions of imperfections. Proceeding in this manner ensures that orthodox theory can never be deemed to be wrong: it is only a matter of finding the right set of imperfections to explain each particular “deviation” from the ideal. I do not subscribe to this procedure because I reject its very starting point. I would argue that real macro dynamics is just as different from Walrasian general equilibrium as the classical theory of real competition is from perfect competition. The difference between classical and neoclassical approaches is not about abstraction itself, but rather about the method of abstraction. Abstraction-as-typification begins from the real in order to identify typical patterns and their underlying drivers; abstraction-as-idealization begins from the ideal and inevitably ends up with a vision of the real as a catalogue of imperfections (chapter 17).
Que estranha maneira de proceder! Primeiro, inventa-se um mundo idealizado fictício, um verdadeiro Jardim do Éden onde até mesmo a serpente da escassez trabalha para o bem geral. A maior parte do esforço é então dedicada a explicar as propriedades deste paraíso, embora às vezes se torne necessário abordar as multidões clamorosas fora dos portões. Em seguida, o problema intelectual se torna o de postular 'imperfeições' particulares que podem ser usadas para dar conta de comportamentos de outra forma inexplicáveis das massas obstinadas. Este é o modus operandi de toda a economia ortodoxa após Keynes, com as diferenças entre as escolas surgindo de disputas sobre atribuições específicas de imperfeições. Proceder desta maneira garante que a teoria ortodoxa nunca possa ser considerada errada: é apenas uma questão de encontrar o conjunto certo de imperfeições para explicar cada 'desvio' particular do ideal. Não sigo este procedimento porque rejeito seu ponto de partida. Eu argumentaria que a dinâmica macro real é tão diferente do equilíbrio geral Walrasiano quanto a teoria clássica da concorrência real é da competição perfeita. A diferença entre as abordagens clássica e neoclássica não é sobre a abstração em si, mas sim sobre o método de abstração. A abstração-como-tipificação parte do real para identificar padrões típicos e seus motores subjacentes; a abstração-como-idealização parte do ideal e inevitavelmente termina com uma visão do real como um catálogo de imperfeições (Capítulo 17).
3. Macroeconomics, emergent properties, and turbulent laws
3. Macroeconomia, Propriedades Emergentes e Leis Turbulentas
While Keynes may have originated the modern form of macroeconomics (Snowdon and Vane 2005, 698), the issues involved are much older. Like Keynes, classical economists understood that aggregate relations between demand and supply, output and capacity, population and employment, and exports and imports have their own relative autonomy. Neoclassical macroeconomics insists that aggregate results can, and must, directly mimic individual behaviors. In classical and Keynesian macroeconomics, aggregate relations are founded upon individual behavior but do not mimic it: the “average agent” will generally not behave in the manner of any single “representative” agent. I argued at length in chapter 3, section II, that the neoclassical claim rests on a fundamental methodological error because interaction among the individual elements causes aggregates to have different properties from their components (Delli Gatti, Gaffeo, Gallegati, Giulioni, and Palestrini 2008, 63). Aggregation is transformational. It is increasingly common nowadays to suggest that the recognition of aggregate “emergent properties” is somehow tied to the rise of quantum mechanics. But this is not so. Every culture in every time has known in both theory and practice that an interconnected whole may be greater than the sum of its parts. More interesting is the modern notion that “macroeconomic equilibrium [is] maintained by a large number of transitions in opposite directions” (Feller 1957, cited in Delli et al. 2008, 63). As a concept, this is perfectly compatible with both turbulent equalization and mere turbulence without equalizations, since both can imply a stable distribution of outcomes. I have already argued in chapter 8, section I.10, that real competition is completely consistent with a stable distribution of profit rates, and that authors such as Farjoun and Machover (1983, 39–40, 47–49, 52–53) fail to see equalization as consistent with a distribution of outcome because they retain the conventional notion of equilibrium as a state of equality.On the other hand, as elaborated upon in chapter 17, modern tools grounded in statistical thermodynamics are new and can provide powerful means of investigating observed patterns (Yakovenko 2007; Delli et al. 2008).
Embora Keynes possa ter originado a forma moderna da macroeconomia (Snowdon e Vane 2005, 698), as questões envolvidas são muito mais antigas. Assim como Keynes, os economistas clássicos entenderam que as relações agregadas entre demanda e oferta, produto e capacidade, população e emprego, e exportações e importações têm sua própria autonomia relativa. A macroeconomia neoclássica insiste que os resultados agregados podem, e devem, imitar diretamente os comportamentos individuais, mas na macroeconomia clássica e keynesiana, as relações agregadas são fundadas no comportamento individual, mas não o imitam: o "agente médio" geralmente não se comportará da mesma forma que qualquer agente "representativo" único. Argumentei longamente no Capítulo 3, seção II, que a afirmação neoclássica se baseia em um erro metodológico fundamental, porque a interação entre os elementos individuais faz com que os agregados tenham propriedades diferentes de seus componentes (Delli Gatti, Gaffeo, Gallegati, Giulioni, e Palestrini 2008, 63), ou seja, a agregação é transformacional. Atualmente, é cada vez mais comum sugerir que o reconhecimento das "propriedades emergentes" agregadas está, de alguma forma, ligado à ascensão da mecânica quântica, mas isso não é verdade, pois toda cultura, em todas as épocas, soube, tanto na teoria quanto na prática, que um todo interconectado pode ser maior do que a soma de suas partes. Mais interessante é a noção moderna de que o "equilíbrio macroeconômico [é] mantido por um grande número de transições em direções opostas" (Feller 1957, citado em Delli et al. 2008, 63); como conceito, isso é perfeitamente compatível tanto com a equalização turbulenta quanto com a mera turbulência sem equalizações, já que ambos podem implicar uma distribuição estável de resultados. Eu já argumentei no Capítulo 8, seção I.10, que a concorrência real é completamente consistente com uma distribuição estável de taxas de lucro, e que autores como Farjoun e Machover (1983, 39–40, 47–49, 52–53) falham em ver a equalização como consistente com uma distribuição de resultados porque mantêm a noção convencional de equilíbrio como um estado de igualdade. Por outro lado, como detalhado no Capítulo 17, as ferramentas modernas baseadas na termodinâmica estatística são novas e podem fornecer meios poderosos de investigar os padrões observados (Yakovenko 2007; Delli et al. 2008).
4. Neoclassical macroeconomics and representative agents
4. Macroeconomia neoclássica e agentes representativos
Neoclassical macroeconomics gets around the problem of the relative autonomy of aggregates by eliminating the very possibility. All consumers are assumed to be identical so that there is only one effective individual consumer. The same applies to firms. Capital and labor are also assumed to be uniform substances. Then the sole macroeconomic interaction is between a single representative consumer and a single representative firm, both endowed with infinite foresight and rational expectations. The bulk of chapter 3 was devoted to a critique of hyper-rationality as a representation of actual behavior or even as a norm (Sen 1977, 336). The real function of notion of hyper-rationality is to provide a foundation for the portrayal of capitalism as supremely efficient and optimal. It is, of course, true that individual agents make choices, that incentives matter, and that decisions have personal and social consequences. But it is equally true that individuals are socially situated, structured and shaped by nationality, gender, ethnicity, class, income, and wealth, slaloming along life paths that sometimes run parallel and other times collide. A central implication is that observed patterns can be explained without any reference to hyper-rationality because shaping structures such as budget constraints and social influences play the decisive roles in producing aggregate patterns. What we gain in starting from this basis is realism and relevance. What we lose is market worship, which is a loss only to the ideologues.
A macroeconomia neoclássica contorna o problema da autonomia relativa dos agregados ao eliminar a própria possibilidade disso. Assume-se que todos os consumidores são idênticos, de modo que existe apenas um consumidor individual efetivo. O mesmo se aplica às firmas. Também se assume que capital e trabalho são substâncias uniformes. Assim, a única interação macroeconômica se dá entre um único agente consumidor representativo e uma única firma representativa, ambos dotados de previsão infinita e expectativas racionais. A maior parte do Capítulo 3 foi dedicada a uma crítica da hiper-racionalidade como representação do comportamento real ou mesmo como norma (Sen 1977, 336). A função real da noção de hiper-racionalidade é fornecer uma base para retratar o capitalismo como supremamente eficiente e ótimo. É, claro, verdade que os agentes individuais fazem escolhas, que os incentivos são importantes e que as decisões têm consequências pessoais e sociais. Mas é igualmente verdade que os indivíduos estão socialmente situados, estruturados e moldados por nacionalidade, gênero, etnia, classe, renda e riqueza, ziguezagueando por caminhos de vida que às vezes correm paralelos e outras vezes colidem. Uma implicação central é que os padrões observados podem ser explicados sem qualquer referência à hiper-racionalidade, porque estruturas de modelagem, como restrições orçamentárias e influências sociais, desempenham papéis decisivos na produção de padrões agregados. O que ganhamos ao começar a partir desta base é realismo e relevância. O que perdemos é a adoração ao mercado, o que é uma perda apenas para os ideólogos.
5. Ten critical issues in macroeconomic analysis
5. Dez questões cruciais na análise macroeconômica
The preceding considerations give rise to ten critical issues in macroeconomic analysis.
As considerações precedentes dão origem a dez questões cruciais na análise macroeconômica.
i. Microeconomic features need not carry over
i. As características microeconômicas não precisam se refletir no macro
First, the existence of interacting and socially structured heterogeneous agents implies that microeconomic features such as Granger causality, cointegration among variables, over-identifying restrictions, and even particular dynamic properties do not necessarily carry over to the aggregate level.
Primeiro, a existência de agentes heterogêneos que interagem e são socialmente estruturados implica que características microeconômicas, como causalidade de Granger, cointegração entre variáveis, restrições de sobreidentificação e até mesmo propriedades dinâmicas específicas, não se transferem necessariamente para o nível agregado.
For the same reasons, fitted aggregate functions do not have to match the functional form assumed at the microeconomic level. Yet even though the functional form can change from micro to macro, certain key variables do generally carry over. For instance, in the four disparate models of microeconomic consumption behavior presented in chapter 3, income, prices, and the minimum level of necessary-good consumption continue to be relevant at the aggregate level, while other social factors show up through their effects on aggregate parameters.
Pelas mesmas razões, funções agregadas ajustadas não precisam corresponder à forma funcional assumida no nível microeconômico. No entanto, embora a forma funcional possa mudar do micro para o macro, certas variáveis-chave geralmente se mantêm. Por exemplo, nos quatro modelos díspares de comportamento de consumo microeconômico apresentados no Capítulo 3, a renda, os preços e o nível mínimo de consumo de bens necessários continuam a ser relevantes no nível agregado, enquanto outros fatores sociais se manifestam por meio de seus efeitos nos parâmetros agregados.
ii. Macro has always grounded itself in micro behavior
ii. O Macro sempre se baseou no comportamento micro
Viewed in this light, it becomes evident that macroeconomics has always grounded itself in models of individual behavior without conflating macro relations with micro ones. Keynes, Kalecki, and Friedman are eminent examples of this approach. At the microeconomic level, Keynes explicitly recognizes the influence on savings and consumption decisions of personal income, a variety of personal subjective and objective factors, and institutional and organizational structures. Yet, at the macro level, aggregate real consumption is reduced to a function of aggregate real income with a marginal propensity to consume of less than one. Kalecki’s theory of price displays a similar transition from micro to macro. He begins with a microeconomic specification in which the price of an individual firm depends on the relative size of the firm, its sales promotion apparatus, and the union power of its employees. Yet the industry price has a different functional form that relies on a reduced set of variables consisting of the industry’s average unit costs and average degree of monopoly power. Friedman also follows this path. At the micro level, the demand for money depends on individual preferences, wealth, the interest rate, and the expected rate of inflation. Yet, at the aggregate level, this is presented as a stable relation between the aggregate demand for money, real balances, and the real interest rate (Snowdon and Vane 2005, 166–169). Similar transitions can be traced in Smith, Marx, Schumpeter, and many others great macroeconomists. Macroeconomics was already rigorous long before it was diverted into the dead end of hyper-rational representative agents.
Visto sob esta luz, torna-se evidente que a macroeconomia sempre se fundamentou em modelos de comportamento individual, sem confundir as relações macro com as micro. Keynes, Kalecki e Friedman são exemplos eminentes desta abordagem. No nível microeconômico, Keynes reconhece explicitamente a influência na poupança e nas decisões de consumo da renda pessoal, de uma variedade de fatores subjetivos e objetivos pessoais, e de estruturas institucionais e organizacionais. No entanto, no nível macro, o consumo real agregado é reduzido a uma função da renda real agregada, com uma propensão marginal a consumir menor que um. A teoria de preços de Kalecki exibe uma transição micro-macro semelhante. Ele começa com uma especificação microeconômica na qual o preço de uma firma individual depende do tamanho relativo da firma, de seu aparato de promoção de vendas e do poder sindical de seus empregados. Contudo, o preço da indústria tem uma forma funcional diferente que se baseia em um conjunto reduzido de variáveis, consistindo nos custos unitários médios e no grau médio de poder de monopólio da indústria. Friedman também segue este caminho. No nível micro, a demanda por moeda depende de preferências individuais, riqueza, taxa de juros e taxa esperada de inflação. No nível agregado, no entanto, isso é apresentado como uma relação estável entre a demanda agregada por moeda, os encaixes reais e a taxa de juros real (Snowdon e Vane 2005, 166–169). Transições semelhantes podem ser rastreadas em Smith, Marx, Schumpeter e muitos outros grandes macroeconomistas. A macroeconomia já era rigorosa muito antes de ser desviada para o beco sem saída dos agentes representativos hiper-racionais.
iii. Many micro foundations are consistent with some given macro pattern
iii. Muitas fundações micro são consistentes com um dado padrão macro
A third implication is that there are generally many micro foundations consistent with some given macroeconomic pattern, so that empirical support for some aggregate form does not necessarily validate the associated micro foundation. To test the validity of competing microeconomic approaches, one must examine the implications of their differences, be they macroeconomic or microeconomic. Lucas himself points out that short-term macroeconomic forecasting models work perfectly well without choicetheoretic foundations (Snowdon and Vane 2005, 287). Of course, if one wishes to draw social or policy implications from (say) an increase in aggregate income, one must model the way people feel and behave about the change in national outcome, their own gains or declines, those of their friends and enemies, those of other nations, and so on. But then there is no reason whatsoever to derive policy implications from foundations that systematically misrepresent human behavior.
Uma terceira implicação é que geralmente há muitas fundações micro consistentes com um dado padrão macroeconômico, de modo que o apoio empírico a uma determinada forma agregada não valida necessariamente a fundação micro a ela associada. Para testar a validade de abordagens microeconômicas concorrentes, é preciso examinar as implicações de suas diferenças, sejam elas macroeconômicas ou microeconômicas. O próprio Lucas aponta que modelos de previsão macroeconômica de curto prazo funcionam perfeitamente bem sem fundamentos baseados na teoria da escolha (Snowdon e Vane 2005, 287). É claro que, se alguém deseja tirar implicações sociais ou de política a partir de (por exemplo) um aumento na renda agregada, deve-se modelar a forma como as pessoas se sentem e se comportam em relação à mudança no resultado nacional, seus próprios ganhos ou perdas, os de seus amigos e inimigos, os de outras nações, e assim por diante. Mas, então, não há razão alguma para derivar implicações de política a partir de fundamentos que sistematicamente distorcem o comportamento humano.
iv. Notion of turbulent equalization requires corresponding tools
iv. A noção de equalização turbulenta requer ferramentas correspondentes
Fourth, the classical notion of equilibrium-as-a-turbulent-process requires a compatible set of mathematical and econometric tools. Turbulent gravitation implies that balance is achieved only through recurrent and offsetting imbalances, so that the equilibrating process is inherently cyclical, noisy, and subject to “self-repeating fluctuations” of varying amplitudes and duration. Such processes will generally give rise to stable distributions of outcomes, not single points (chapter 17, 3).
Quarto, a noção clássica de equilíbrio-como-um-processo-turbulento exige um conjunto compatível de ferramentas matemáticas e econométricas. A gravitação turbulenta implica que o balanço é alcançado apenas através de desequilíbrios recorrentes e compensatórios, de modo que o processo de equilíbrio é inerentemente cíclico, ruidoso e sujeito a 'flutuações autorrepetitivas' de amplitudes e durações variáveis. Tais processos geralmente darão origem a distribuições estáveis de resultados, e não a pontos únicos (Capítulo 17, 3).
v. Temporal dimensions differ: Fast and slow processes
v. As dimensões temporais diferem: processos rápidos e lentos
Fifth, once we admit that equilibrating processes do not produces rest states, we must investigate the typical lengths of time involved in intrinsically turbulent paths. Fast and slow processes exist at the same time but operate at different speeds. Keynesians typically argue that quantities adjust faster than prices, monetarists say the opposite, and New Classicals assume that both adjust so rapidly that markets can be taken to be continuously in equilibrium. Different types of production processes take different lengths of time, and since commodities generally take more time to create than financial assets, the prices of goods prices generally adjust more slowly than financial prices and foreign exchanges (Gandolfo 1997, 533–535). Dornbusch’s famous overshooting model of exchange rates is built upon such a differential (Dornbusch 1976; Snowdon and Vane 2005, 377). A similar issue arises for the difference between the time of adjustment of aggregate demand and supply and that of aggregate output and capacity: the period of production is generally shorter than the lifetime of plant and equipment, so that the former can respond more rapidly than the latter. The difference between fast and slow variables is important to the analysis of stability because it permits us to investigate the adjustments one at a time. In “fast time,” the slow variables such as the capital stock in neoclassical analysis or the level of investment in Keynesian analysis may be taken as given. Conversely, in slow time the fast variable such as demand and supply can be taken to be (roughly) in equilibrium, so that the stability discussion shifts to the slow adjustment. Particularly in the case of nonlinear equations, this is an important methodological device (Gandolfo 1997, 533–535). From a classical perspective, temporal differences are features of reality. Insofar as this fact is problematic within a particular theory, the imperfection surely lies in the theory.
Quinto, uma vez que admitimos que os processos de equilíbrio não produzem estados de repouso, devemos investigar a duração de tempo típica envolvida em caminhos intrinsecamente turbulentos, pois processos rápidos e lentos coexistem, mas operam em velocidades diferentes. Os keynesianos tipicamente argumentam que as quantidades se ajustam mais rapidamente do que os preços, os monetaristas dizem o oposto, e os Novos Clássicos assumem que ambos se ajustam tão rapidamente que se pode considerar que os mercados estão continuamente em equilíbrio. Diferentes tipos de processos de produção levam diferentes períodos de tempo e, como as commodities geralmente levam mais tempo para serem criadas do que os ativos financeiros, os preços dos bens geralmente se ajustam mais lentamente do que os preços financeiros e as moedas estrangeiras (Gandolfo 1997, 533–535), sendo que o famoso modelo de overshooting (ultrapassagem) da taxa de câmbio de Dornbusch é construído com base em tal diferencial (Dornbusch 1976; Snowdon e Vane 2005, 377). Uma questão semelhante surge na diferença entre o tempo de ajuste da demanda e oferta agregadas e o de produto e capacidade agregadas, pois o período de produção é geralmente mais curto do que a vida útil de instalações e equipamentos, de modo que o primeiro pode responder mais rapidamente do que o segundo. A diferença entre variáveis rápidas e lentas é importante para a análise de estabilidade porque nos permite investigar os ajustes um de cada vez: no 'tempo rápido', as variáveis lentas, como o estoque de capital na análise neoclássica ou o nível de investimento na análise keynesiana, podem ser consideradas como dadas, e, inversamente, no 'tempo lento', a variável rápida, como demanda e oferta, pode ser considerada (grosseiramente) em equilíbrio, de modo que a discussão sobre estabilidade se desloca para o ajuste lento, um dispositivo metodológico importante particularmente no caso de equações não lineares (Gandolfo 1997, 533–535). De uma perspectiva clássica, as diferenças temporais são características da realidade; na medida em que este fato é problemático dentro de uma teoria específica, a imperfeição reside certamente na teoria.
5. Nova economia keynesiana
O impulso neoclássico sempre foi o de sustentar que a solução para o “aparente fracasso do modelo keynesiano orientado pela demanda em explicar adequadamente o aumento do desemprego acompanhado por uma inflação acelerada [...] consistia em dedicar esforços crescentes de pesquisa à construção de teorias macroeconômicas nas quais o lado da oferta possuísse microfundamentos coerentes” (Snowdon e Vane, 2005, p. 299). A Teoria dos Ciclos Reais de Negócios (RBCT) representa o ápice do consequente afastamento da própria realidade que a economia do lado da oferta inicialmente afirmava explicar melhor do que a teoria keynesiana. Inevitavelmente, diante da “patente falta de realismo das hipóteses da nova economia clássica”, surgiu um coro de vozes defendendo modelos com maior relevância empírica — desde que permanecessem dentro dos limites gerais da teoria neoclássica “rigorosa” (Mankiw, 2006, p. 38).
Os novos keynesianos aceitam os microfundamentos convencionais e a estrutura de equilíbrio geral na qual eles estão inseridos. A maioria deles também preserva a hipótese das expectativas racionais (Snowdon e Vane, 2005, p. 365). Sua caminhada na direção da realidade foi impulsionada pelo reconhecimento de que, se o ajuste contínuo dos mercados for abandonado, então perturbações nominais, como um aumento da oferta de moeda, podem afetar variáveis reais, como produto e emprego, mesmo quando os agentes possuem expectativas racionais. Assim, as expectativas racionais, por si sós, já não eram suficientes para justificar a tese da ineficácia das políticas econômicas, e essa proposição perdeu prestígio (Snowdon e Vane, 2005, p. 268). Os novos keynesianos rejeitam a informação perfeita, a concorrência perfeita, os custos de transação nulos e a hipótese de que existam mercados para todos os bens e serviços, substituindo-as por “informação assimétrica, agentes heterogêneos e mercados imperfeitos ou incompletos”. O ajuste contínuo dos mercados é rejeitado porque preços e salários são rígidos (sticky), o que abre espaço para efeitos quantitativos significativos. A concorrência perfeita também é abandonada para que as firmas possam ser tratadas como formadoras de preços. Em seu desenvolvimento mais recente, a “Nova Síntese Neoclássica” combina expectativas racionais com otimização intertemporal por agentes representativos, custos de ajuste de preços e concorrência imperfeita nos mercados de bens, trabalho e crédito (Snowdon e Vane, 2005, p. 29).
O ponto central é que diversas características do mundo real (consideradas, naturalmente, como “imperfeições”) são utilizadas para explicar alguns dos padrões observados. O objetivo geral passa a ser justificar a “racionalidade das rigidezes”, lançando verdadeiros “baldes de areia” no paradigma neoclássico, que supostamente funcionaria de maneira perfeitamente suave (Snowdon e Vane, 2005, p. 365). Dada a profunda inadequação da teoria subjacente, existe um grande número de imperfeições potenciais entre as quais se pode escolher. Assim, a nova economia keynesiana passou a “consistir em uma ‘desconcertante variedade’ de teorias [...] cuja adesão ‘quase religiosa’ aos microfundamentos tornou-se uma doença” (Snowdon e Vane, 2005, p. 343, 360–364, 429).
V. KALECKI
A teoria macroeconômica de Kalecki possui notáveis semelhanças com a de Keynes. No curto prazo, assume-se que a demanda agregada possui um componente autônomo (investimento) e um componente induzido (consumo) que responde à renda. Ele adota a visão de Keynes de que, no longo prazo, o investimento responde positivamente "ao hiato entre a taxa de lucro esperada e a taxa de juros" (Kalecki 1937, 85). A taxa de juros é determinada por fatores monetários (Sawyer 1985, 98) e a taxa de lucro é determinada pela participação dos salários e pela taxa de utilização da capacidade (discutido adiante). Deve-se dizer que Kalecki subsequentemente vincula o investimento corrente ao investimento passado e aos lucros correntes e passados de uma maneira inteiramente consistente com a noção de que o investimento é impulsionado pela taxa de retorno sobre o novo investimento, conforme aproximada pela taxa incremental de lucro (capítulo 7, seções VI.4) [14].
[14]: Kalecki (1968, 96–98) diz que o investimento agregado depende positivamente das finanças disponíveis (que, no seu caso, é proporcional ao lucro agregado corrente) e da variação do lucro, e negativamente da variação do estoque de capital (que tende a reduzir a taxa de lucro sobre qualquer nível dado de lucro criado pela demanda agregada). Isso implica uma função de investimento da forma geral It = f(Pt + , ΔPt + , ΔKt –). Note-se que isso é semelhante à proposição de que a participação do investimento no lucro depende da taxa de retorno sobre o novo investimento, onde esta última é representada pela taxa incremental de lucro: It /Pt = f(ΔPt /ΔKt) , onde (ΔPt /ΔKt) é a taxa incremental de lucro. Kalecki expressa sua função de forma linear, como era comum na análise matemática e estatística de sua época, mas isso não deve obscurecer a semelhança essencial das duas expressões (Shaikh 1998b, 399–401).
Ao contrário de Keynes, Kalecki incorpora a classe social em sua análise por meio da repartição da renda total em renda do trabalho e renda da propriedade. No caso mais simples, assume-se que os trabalhadores consomem toda a sua renda, de modo que a poupança agregada provém apenas do lucro agregado. Kalecki (1968, 96–99) afirma que as decisões de investimento são fortemente influenciadas pelo financiamento interno (poupança) das empresas, e que a poupança das empresas é de natureza diferente da poupança das famílias capitalistas. No entanto, ao final, ele funde ambos os tipos de poupança em uma única categoria vinculada ao lucro agregado por meio de uma propensão (marginal) a poupar fixa e geral (59). Com esse passo, ele abandona seu próprio argumento de que o montante que as empresas poupam está vinculado ao montante que planejam investir. A importância desse lapso será abordada no capítulo 13, seção II.3. Por ora, o ponto-chave é que, em Kalecki, a propensão média a poupar é a média ponderada pela participação na renda das propensões exogenamente dadas sw, sp a poupar a partir de salários e lucros, respectivamente. Então, a poupança agregada S = sw · W + sp · P e, como o valor agregado Y = W + P, P/Y = 1 – (W/Y), de modo que a taxa de poupança média é:
s = sw(W/Y) + sp[1 – (W/Y)] (12.19)
Dada a condição de equilíbrio de excesso de demanda zero, ou seja, poupança igual ao investimento como na equação (12.11), a relação do multiplicador kaleckiano Y* = [Ca + I(r^e – i)]/s é a mesma que a keynesiana na equação (12.12), exceto que agora a propensão agregada a poupar a partir da renda líquida depende da distribuição de renda entre as classes.
O argumento original de Kalecki sobre a demanda efetiva foi formulado em termos de "livre concorrência" (Kriesler 2002, 624–625), o que o tornava ainda mais congruente com Keynes. Mas a incorporação das parcelas das classes introduz uma variável que requer explicação adicional, razão pela qual a subsequente virada de Kalecki para a concorrência imperfeita se torna relevante para sua macroeconomia. Diz-se que as empresas individuais aplicam um markup sobre seus custos primários por um fator de monopólio a fim de determinar seus preços. Dado que os custos primários são a soma dos custos unitários de salários e materiais, a participação agregada dos salários e, por conseguinte, sua dual, a participação agregada dos lucros, "é determinada pelo grau de poder de monopólio e pela razão entre a conta de materiais e a folha de pagamento" (Kalecki 1968, 16–18, 28–29). Para qualquer nível dado de produtividade, o salário real é, portanto, também determinado da mesma maneira (Sawyer 1985, 108–109).
Para custos unitários de materiais, produtividade e grau de monopólio dados, os preços monetários são proporcionais aos salários monetários (Sawyer 1985, 109). Portanto, a inflação está enraizada nos aumentos dos salários monetários (ver capítulo 15). Essa característica é precisamente o que tornou a precificação por markup tão útil para a teoria keynesiana do pós-guerra em sua busca por uma teoria prática da inflação. Ela permitiu a transformação da curva de Phillips original, em termos da taxa de variação dos salários monetários, em uma curva em termos de inflação e taxa de desemprego (seção III.5). No entanto, mesmo que se aceite a curva de Phillips original de salários monetários, o argumento de Kalecki implica que o salário real e a participação dos salários não são afetados pela taxa de desemprego, desde que o grau de monopólio não seja afetado. Nesse caso, um aumento no salário monetário devido a um aperto no mercado de trabalho poderia, inicialmente, também elevar o salário real e a participação dos salários em dados níveis de preço e produtividade, mas, à medida que os preços se ajustam, essas duas últimas variáveis retornariam aos seus níveis originais. Pode-se detectar aqui uma possível inspiração para os argumentos subsequentes de Friedman e Phelps. Se verdadeiro, isso implicaria que a classe trabalhadora seria impotente para mudar até mesmo seu salário real, quanto mais sua participação nos salários. Kalecki esquiva-se dessa conclusão porque o registro histórico indica que um aumento nos salários monetários tende a andar de mãos dadas com um aumento no salário real e, às vezes, até mesmo na participação dos salários. Ele, portanto, levanta a possibilidade de que os aumentos salariais podem reduzir o grau de monopólio (Sawyer 1985, 111–112) [15]. Assim, uma redução na taxa de desemprego que leva a um salário monetário mais alto também pode levar a um salário real e a uma participação dos salários mais altos. A teoria modificada de Kalecki, portanto, admite a possibilidade de três tipos de curvas de Phillips, cujos fundamentos teóricos e empíricos serão examinados mais detalhadamente no capítulo 14.
[15]: Sawyer (1985, 112–113) aponta que, no argumento microeconômico de Kalecki, uma alta margem de lucro decorrente de um alto grau de monopólio encoraja os sindicatos a pressionar por salários mais altos, o que, por sua vez, leva as empresas a aumentar os preços para manter suas margens, e assim por diante. Assim, dentro da lógica de Kalecki, não está nada claro por que qualquer um dos lados acabaria recuando em vez de continuar ao longo da espiral salário-preço.
As relações do tipo Phillips dizem respeito ao efeito do desemprego sobre os salários. A outra metade desse ciclo tem a ver com o efeito reverso dos salários sobre o desemprego. A teoria neoclássica enfatiza que salários reais mais altos tendem a elevar a taxa de desemprego (capítulo 14, seção II). Mas Kalecki estava convencido, por motivos empíricos, de que salários mais altos não afetam a taxa de desemprego em nenhuma direção específica (Sawyer 1985, 112). Assim, como Keynes, ele avança uma série de argumentos contra a alegação padrão, sendo o principal deles que o efeito inicial de um aumento nos salários reais é elevar a demanda agregada. Isso ocorre porque salários mais altos aumentam imediatamente as despesas de consumo dos trabalhadores, enquanto o investimento é mais lento para reagir, uma vez que é realizado com base em decisões tomadas em períodos anteriores. Assim, mesmo que a rentabilidade (o markup) fosse afetada negativamente, o efeito inicial seria elevar o emprego agregado e a utilização da capacidade. Em seguida, a taxa de lucro fica sujeita a duas pressões conflitantes: um aumento na participação dos salários reduz a taxa de lucro de capacidade normal, enquanto um aumento na utilização da capacidade eleva a taxa de lucro real. Este último efeito requer que os custos médios não subam muito sempre que a utilização da capacidade aumenta. Como discutido no capítulo 4, seções III–IV, os pós-keynesianos geralmente argumentam que os custos primários são constantes em toda a linha, de modo que os custos totais médios caem devido à queda dos custos fixos médios. Voltarei a essa questão em breve.
Kalecki acreditava que tanto o desemprego quanto a capacidade ociosa eram características normais de uma economia capitalista e que o Estado tinha a capacidade técnica de eliminar ambos (Sawyer 1985, 115). Os gastos com déficit poderiam agregar-se diretamente ao poder de compra agregado e seriam autofinanciáveis porque o aumento resultante na produção e na renda gerado pelo multiplicador criaria novas poupanças suficientes para cobrir a soma do investimento e do déficit orçamentário [16]. A pressão de alta sobre a taxa de juros poderia ser neutralizada por uma política monetária adequada e, se necessário, as taxas de juros poderiam até ser reduzidas para estimular a demanda de investimento privado. A inflação poderia ser mantida sob controle ao não se empurrar a economia além do pleno emprego e da plena utilização da capacidade. A redistribuição de renda dos ricos para os pobres também poderia ser usada para elevar a propensão média a consumir e fortalecer a demanda por consumo. Finalmente, o ônus dos pagamentos de juros sobre a dívida nacional poderia ser controlado por meio da cobrança de impostos sobre ativos pessoais e empresariais (Sawyer 1985, 125–135).
[16]: Abstraindo o déficit comercial, o excesso de demanda na equação (12.2) torna-se ED ≡ [I – S] + [G – T], de modo que a condição de equilíbrio de curto prazo ED = 0 implica que S = s · Y = I + (G – T), onde, em Kalecki, s = sp · (P/Y) e a participação do lucro depende do grau de monopólio dado. Então, desde que a taxa de poupança a partir da taxa de lucro (sp) seja independente das necessidades de financiamento do investimento, um aumento no déficit orçamentário elevará a produção até que a poupança aumente o suficiente para absorver o novo poder de compra proveniente do déficit do governo. Uma perspectiva crítica sobre esse argumento é desenvolvida no capítulo 13, seção II.4.
Kalecki estava, no entanto, pessimista quanto à probabilidade política de manter o pleno emprego. Ele percebeu corretamente que isso enfraqueceria o poder da classe capitalista ao eliminar o desemprego persistente como um mecanismo disciplinador para a classe trabalhadora, ao invadir áreas anteriormente sob o controle do capital privado e, de modo geral, ao minar a noção de que o interesse próprio deveria ser a condição sine qua non da vida social (Sawyer 1985, 136–142). Essa postura reflete uma ambiguidade fundamental na obra de Kalecki: a participação dos salários é determinada pelo markup de monopólio agregado, mas, como as empresas individuais definem seus markups à luz das pressões competitivas de outras empresas, o poder dos sindicatos de impor aumentos salariais no nível da empresa (e, portanto, nos custos trabalhistas) "encoraja a adoção de uma política de menores margens de lucro". No final, o grau de monopólio pode ser inversamente relacionado à força dos sindicatos (Kalecki 1968, 12, 18; Rugitsky 2013). Portanto, pode haver uma relação inversa entre a participação dos salários e a taxa de desemprego: um desemprego mais alto corrói a força do trabalho, aumenta o markup de monopólio e, portanto, reduz a participação dos salários. Esta questão estará no cerne do capítulo 14.
VI. ECONOMIA PÓS-KEYNESIANA
1. Introdução
A tradição pós-keynesiana abrange as alas keynesiana e kaleckiana. Elas compartilham cinco crenças centrais: de que a demanda agregada impulsiona a produção, de que a moeda é endogenamente criada por meio do sistema bancário, de que tanto o excesso de capacidade persistente quanto o desemprego são os resultados normais dos processos de mercado, e de que o Estado pode alcançar o pleno emprego (efetivo) com níveis toleráveis de inflação. Além disso, a tradição pós-keynesiana é bastante diversificada e só posso abordar aqui suas principais características.
2. Davidson
Davidson é um dos principais representantes da ala keynesiana. Ele divide os economistas pós-keynesianos em dois grupos: o campo majoritariamente americano, como Chick, Minsky, Eichner, Kregel, Moore, Weintraub e ele próprio, que dão um lugar de destaque à moeda e aos processos financeiros; e o campo majoritariamente europeu, como Harcourt, Kahn, Kaldor, Kalecki, Robinson e vários keynesianos vindos de Sraffa, que "ainda se apegam a variantes da economia clássica" porque focam no "comportamento e funcionamento da economia real, ignorando, ou pelo menos minimizando, as implicações monetárias e financeiras" (Davidson 2005, 541–452).
Na visão de Davidson, a economia pós-keynesiana repousa sobre cinco proposições. Primeira, de que a demanda possui um componente autônomo no curto prazo, cuja autonomia deriva do fato de que o crédito pode tornar os gastos independentes dos fundos atuais. O investimento é a variável autônoma paradigmática porque sempre pode ser financiado em qualquer nível justificado pelos retornos líquidos esperados (Davidson 2005, 454, 459). Segunda, uma economia capitalista é impulsionada pela moeda. As empresas investem dinheiro em trabalho, materiais e máquinas com a intenção de ganhar mais dinheiro, sendo todo o processo conduzido em termos de contratos monetários para entregas presentes e futuras (462). Embora Davidson não o diga, esta é a noção de Marx do circuito do capital como M – C – M' (Dinheiro - Mercadoria - Mais Dinheiro), a qual o próprio Keynes cita com aprovação (Marx 1977, cap. 4; Ishikura 2004, 84–85). Terceira, a moeda é endógena porque é impulsionada pelo crédito e tem efeitos reais sobre a produção, o crescimento e o emprego. Por exemplo, uma injeção de poder de compra impulsionada pelo crédito para bens de investimento cria moeda que é "usada para financiar o aumento da demanda por bens produzíveis, resultando em níveis crescentes de emprego". Daí que "a moeda não pode ser neutra", como afirmam os economistas neoclássicos. A não neutralidade da moeda não tem nada a ver com os agentes sofrerem de alguma putativa "ilusão monetária". Pelo contrário, está enraizada no fato de que a moeda tem efeitos reais (Davidson 2005, 459–460).
Por fim, não há garantia de que os resultados esperados se concretizarão porque o futuro é fundamentalmente incerto (não ergódico). A incerteza nesse sentido implica que o futuro tem muitos resultados imprevisíveis aos quais nenhuma probabilidade pode ser cientificamente atribuída. Isso é diferente da noção de "risco" conforme definida na teoria ortodoxa, na qual os resultados são conhecidos e podem ser associados a probabilidades. Para que as expectativas racionais se sustentem, o futuro deve ser ergódico (a média temporal dos resultados futuros não deve ser persistentemente diferente da média temporal dos resultados passados) e a distribuição subjetiva dos resultados futuros deve ser igual à objetiva. Processos não ergódicos dominam o mundo real, de modo que não se pode sequer formar expectativas racionais (Davidson 2005, 460–465). A incerteza fundamental do futuro também é o motivo pelo qual os ativos líquidos são importantes e por que a demanda por liquidez aumenta quando "o medo do futuro incerto aumenta" (Davidson 2005, 471). Davidson é favorável a políticas que lutam pelo "pleno emprego e estabilidade razoável dos preços" e busca tornar os mercados mais eficientes e mais direcionados ao interesse social (473).
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